O ano em que você nasceu pode influenciar na resistência à gripe

A gripe é uma doença viral bem comum no Brasil, chegando a ter mais de 2 milhões de casos por ano.  Os vírus causadores da Influenza – como também é conhecida a gripe – tem uma relação bem intima com o sistema imunológico do hospedeiro, fazendo com que ambos estejam em constante evolução. Por conta disso, umas das estratégias para controlar a doença são as vacinações anuais com vacinas atualizadas para combater as cepas* do vírus que, eventualmente, evoluíram.

Existem 3 tipos de vírus influenza: A, B e C. O vírus influenza A e B são responsáveis por epidemias sazonais, sendo o vírus influenza A responsável pelas grandes pandemias. O vírus influenza C não está relacionado com epidemias. Os vírus influenza A são ainda classificados em subtipos de acordo com as proteínas de superfície: hemaglutinina (HA ou H) e neuraminidase (NA ou N). Daí vem os nomes das diferentes cepas do mesmo vírus (H1N1, H5N1, etc), pois eles possuem hemaglutinina e neuraminidase diferentes. Dentre os subtipos de vírus influenza A, existem os subtipos A(H1N1), A(H2N3) e o aviário A(H5N1) que formam o grupo 1. Os subtipos A(H3N2), que é sazonal, e o aviário A(H7N9) formam o grupo 2.

Em um trabalho publicado na Science em 2016, Katelyn Gosti e seus colaboradores levantaram a hipótese de que o tipo de infeção ao qual você foi exposto durante a infância determina a susceptibilidade aos diferentes tipos de gripe aviária que você poderá ter enquanto adulto. Exemplificando, se você foi exposto ao grupo 1 (H5) durante a infância, você seria mais susceptível ao grupo 2 (H7) quando mais velho. Enquanto em exposições às cepas do mesmo grupo quando adulto, geraria uma infecção mais branda. Isso por conta do que foi chamado de “impressão imunológica” que é causada pela exposição precoce.

Curiosamente, nos casos em que há exposição precoce a vírus de ambos os grupos, o efeito protetor é profundo, reduzindo o risco de infecção severa por A(H5N1) ou A(H7N9) em 75% e o risco de morte em 80%. As autoras especulam que essa imunidade cruzada ocorre graças a anticorpos que têm como alvo uma região na superfície do vírus que quase não tem modificações entre os subtipos virais.

Então, os pesquisadores viram um padrão entre o ano em que determinada cepa do vírus estava em circulação e o ano em que tiveram surtos da gripe. E eles observaram que o grupo 1 era a única cepa circulante entre 1918 e 1968; Com isso, os níveis de anticorpos contra o grupo 1 estavam altos entre os indivíduos da população e, consequentemente, tiveram mais ocorrência de casos da cepa H7, pertencente ao grupo 2. Por outro lado, o grupo 2 era a única cepa circulante do ano de 1968 até 1977. De 1977 até 2016 as cepas circulantes eram mistas. Por conta do grupo 2 ser a cepa dominante nesse período, os níveis de anticorpos contra esse grupo estavam mais altos que o período anterior e isso proporcionou um número maior de casos da cepa H5 e seu grupo.

O resumo disso tudo é que se você nasceu antes de 1968, provavelmente você terá certa proteção contra gripe causada pelas cepas do grupo 1, incluindo a A(H5N1). E se você nasceu depois de 1968, como eu, muito provavelmente você estará protegido contra gripe causada pelas cepas do grupo 2, assim como a gripe aviária causada pela A(H7N9). E é mais ou menos isso que observamos na população, os casos de A(H5N1) estão presentes principalmente entre as crianças e jovens, enquanto o casos de A(H7N9) estão concentrados em adultos mais velhos.

A grande questão

Você pode estar se questionando: “Mas isso é meio óbvio, se eu fui imunizado contra determinado patógeno, uma segunda infecção do mesmo patógeno tende a ser mais branda”. E você está correto, mas a grande questão é: estamos falando aqui de variantes do mesmo patógeno, vírus influenza. Além disso, com esses dados epidemiológicos em mãos, os pesquisadores podem fazer uma prospecção do tipo de cepa que é provável ter um número maior de casos nos anos futuros vendo qual a cepa circulante atualmente. E qual a vantagem disso? Bom, os pesquisadores podem prevenir os surtos antes mesmo que eles ocorram em grande escala.

E é bom o pessoal que nasceu depois de 1977 estarem com sua vacinação contra a gripe em dia, pois recentemente foram registrados pequenos casos de influenza do grupo 1 A(H1N1) em alguns estados do Brasil. E acho que todos lembram da pandemia da gripe suína – A(H1N1) – de 2009.

 

*Cepa: Quando os descendentes de uma espécie sofre mutações significativas ou conforme novas gerações se adaptam a novas condições ambientais.


Referência

Cécile Viboud e Suzanne L. Epstein. First Flu is Forever. Science. 2016

Sociedade Brasileira de Microbiologia. Ano de nascimento influencia resistência à gripe. 2016

 

Deixe seu comentário