A ciência por trás da trilogia “Planeta dos Macacos”

A série Planeta dos Macacos é um Sci-Fi que mostra uma visão distópica* do mundo. Os filmes trabalham diversas temáticas e cada telespectador os interpretam de formas diferentes, dependendo muito da bagagem que cada um carrega. Tem muita coisa falando sobre direitos civis e discriminação, principalmente na série original, que teve sua estreia no final na década de 60 – época em que os movimentos civis, de igualdade de gênero e contra a discriminação e segregação racial eram bem presentes, principalmente nos EUA.

Os filmes atuais continuam abordando assuntos sobre desigualdade e agora podemos discutir até desigualdade entre espécies.[1] Analisando a temática Sci-Fi, a série original abordava temas como viagens espaciais e no tempo, evolução e até mesmo religião. Na série reboot, Planeta dos Macacos: “A Origem”, “O Confronto” e “A Guerra”, o enredo Sci-Fi ganha uma repaginada e, diria eu, mais credibilidade (claro, dentro do que pode ser considerado crível no universo Planeta dos Macacos). Essa trilogia tem a premissa de nos mostrar como os macacos evoluíram; como a raça humana, como a conhecemos, foi dizimada; e como os humanos que sobraram se tornaram primitivos; ou seja, quais foram os acontecimentos anteriores que culminaram na dominação do planeta Terra pelos símios.

Vou falar sobre os 3 filmes separadamente e como a ciência se mostra presente neles.

Planeta dos Macacos: A Origem (2011)

Tudo se inicia com a pesquisa de uma terapia gênica experimental – ALZ-112 -, que utiliza vírus como vetor de transmissão, para o tratamento de Alzheimer. A terapia já está em testes em símios e induz a recuperação de células neurais (neurogênese), melhorando a cognição e compreensão dos animais. O chimpanzé Cesar nasceu de um desses símios que foram utilizados como teste (A Olhos Brilhantes, alusão ao filme da década de 60) e já se mostra ser mais evoluído quando comparado com os outros símios, tudo isso devido à terapia experimental que sua mãe foi submetida enquanto grávida. E aqui vemos que o tratamento altera o código genético a ponto de passar para sua prole.

O programa é encerrado e uma ordem é dada para sacrificar todos os símios do projeto. Com isso, temos um vislumbre de como os humanos tratam os animais de testes experimentais no filme e abre espaço para a discussão da necessidade da utilização de animais em determinadas pesquisas, assim como discussão sobre a ética por trás do uso de cobaias na vida real.

Vimos que o cientista por trás do desenvolvimento da ALZ-112 tem um interesse mais que profissional em dar continuidade ao projeto, uma vez que seu pai sofre da doença de Alzheimer. E, com isso, sabemos que ele está disposto a fazer qualquer coisa para levar seu projeto a frente. Tanto que rouba alguns frascos de ALZ-112 e injeta em seu próprio pai depois de perceber que Cesar é diferente, mais inteligente e evoluído devido à terapia gênica. Três grandes erros éticos podem ser apontados nesse parágrafo: 1) pular todos as triagens e fases de testes de um medicamento e aplicar em seu pai; 2) armazenar uma droga experimental contendo vírus modificados geneticamente em sua geladeira e 3) levar Cesar para casa pois, até então, ele era propriedade da empresa e “cobaia por tabela” de seus experimentos.

A partir daqui o filme ganha um ar otimista, oito anos se passaram, o pai do Dr. Will está melhor quase que milagrosamente, Cesar é integrado à família e agora se comunica através de linguagens de sinais, ensinado pelo cientista. Mesmo Cesar fazendo parte da família, alguns questionamentos passam pela sua cabeça: “Eu sou um animal de estimação? Onde me encaixo?” Isso tudo porque ele tem uma percepção de si mesmo como humano, mas se vê preso no corpo de um chimpanzé e é tratado como pet. Fora esses questionamentos, tudo parece maravilhoso até que o sistema imunológico do pai do Will começa a produzir anticorpos contra o vírus que se encontra na droga ALZ-112, fazendo com que a doença volte de forma mais agressiva. E, numa sequencia de eventos trágicos, Cesar acaba sendo recolhido para um abrigo de macacos.

E aí nós vemos duas tramas, Dr. Will modificando o vírus geneticamente para que ele seja mais agressivo e rápido, gerando a nova droga – ALZ-113 – agora em versão gasosa pra agir de forma mais rápida; os testes em símios são reativados. Por fim, Dr. Will rouba alguns frascos da ALZ-113 e testa em seu pai. Entretanto, ele não resiste ao tratamento e morre durante a noite.

Enquanto no núcleo dos símios, Cesar se adapta ao abrigo e perde sua inocência. Porém, ao mesmo tempo, se torna o macho-alfa e conquista sua liberdade e independência dos humanos. Ele volta em sua antiga casa e encontra a nova droga ALZ-113. Ele infecta os outros macacos do abrigo, fazendo com que todos tenham o seu momento de despertar e, consequentemente, o aprimoramento de suas habilidades e capacidades. Ao mesmo tempo que Cesar possibilita que os outros símios atinjam um novo nível de conscientização, ele mesmo transcende suas habilidades e percebemos isso somente quando Cesar grita um grande e sonoro “NÃO!” para um dos cuidadores do abrigo que maltratava todos os macacos. E nesse momento, além de arrepiar, nos revela o quão evoluído o Cesar se encontra dos outros símios. Entretanto, por mais que os homens e chimpanzés dividam cerca de 95% do genoma[2], trazendo para o mundo real, Cesar necessitaria muito mais do que evolução cognitiva para desenvolver a habilidade de fala, já que isso abrange muitas questões de desenvolvimento anatômico da laringe, faringe e língua. Mas no universo do Planeta dos Macacos, se torna totalmente crível e assustador.

No fim desse filme, temos um vislumbre de como o vírus geneticamente modificado utilizado no ALZ-113 se torna uma doença humana mundial através de rotas de voos internacionais. Pois nos é mostrado o vizinho do Dr. Will indo pilotar um voo comercial para França e vimos uma gota de sangue escorrer de seu nariz.

Planeta dos Macacos: O Confronto (2014)

O segundo filme aborda com maior frequência assuntos relacionados ao comportamento social dos humanos e dos macacos; como os símios, agora mais evoluídos que os humanos, desenvolvem os mesmos sentimentos de compaixão, ódio, vingança e traição; como os humanos tentam a qualquer custo sobreviver ao que eles mesmo causaram 10 anos antes; enquanto no primeiro filme percebo uma pegada mais científica.

Bom, “Planeta dos Macacos: O Confronto” começa fazendo uma retrospectiva durante os últimos 10 anos, mostrando a dispersão da doença, chamada agora de Gripe Símia, pelo mundo e a morte de bilhões de humanos durante o processo.

O bando de símios geneticamente evoluídos, liderado por Cesar, já se encontram na sua segunda geração e habitam a floresta de sequoias do outro lado da ponte Golden Gate onde começam sua própria civilização, por assim dizer. Eles se questionam se ainda existe algum humano vivo, pois há 9 invernos que eles não tem sinal de nenhum. E nesse momento aparece um grupo de humanos que são imunes à Gripe Símia e tentam se restabelecer em San Francisco, mas para isso necessitam entrar na floresta de sequoias para reativar uma hidroelétrica.

Acordos entre humanos e símios, entre símios e símios; e humanos e humanos são feitos e desfeitos a todo tempo, levando a uma iminente batalha, o tão esperado confronto. Como eu disse, as questões morais são levantadas com maior frequência do que as científicas. Porém não passa despercebido a maior facilidade linguística dos símios depois de 10 anos, tanto na desenvoltura da fala como na linguagem por sinais, que o orangotango Maurice, criado no circo, ensina à nova geração. Também tem uma breve menção à formação de classes entre os símios, quando, por exemplo, vemos no nascimento do segundo filho de Cesar, macacos cuidando de sua esposa que fica doente após o parto, aparentemente por uma infecção bacteriana.

Planeta dos Macacos: A Guerra (2017) – PODE CONTER SPOILER

Se no segundo filme pouco era falado sobre temas científicos, o terceira deixa essa questão mais de lado ainda e resolve continuar nas questões morais e sociais, novamente a relação do opressor (humanos) com o oprimido. O terceiro filme é um grande blockbuster, cheio de referências ao mundo atual e ao clássico da década de 60 (Será a construção do muro que trará falsa sensação de segurança uma alusão ao Trump?). Mais que isso, vemos um mix de western com campos de concentração, críticas aos regimes autoritários e um Deus Ex Machina seguido de um toque bíblico no final.

Por fim, as questões científicas que me recordo fazem parte da capacidade de fala, uma vez que os símios evoluíram ainda mais sua dicção e capacidade de se comunicar ao passo que um grupo limitado de humanos se apresentam incapazes de proferir uma só palavra.

Como é o caso da menininha Nova que o bando (Maurice, Rocket, Luca e Cesar, a contragosto) “adotou”. E para esse novo fenômeno surge uma explicação que conversa perfeitamente com o filme original de 1968. Os humanos que sobreviveram hospedam o vírus original da ALZ-113 em seu organismo. Depois de 12 anos em contato, o vírus da Gripe Símia evoluiu e os humanos começam a ter outras reações que não uma gripe, como incapacidade de falar e começam a agir como seres primitivos. E essa pode ser a insurgência de uma segunda epidemia da gripe símia que acabará com a racionalidade dos humanos que eram resistentes ao vírus original do ALZ-113.

Conclusão

Posso dizer que os roteiristas e produtores fizeram um ótimo trabalho no posicionamento científico do filme. Existem vários questionamentos quanto ao quão válido é um macaco andar de cavalo, usar armas de fogos ou andar frequentemente com as duas pernas traseiras e eu te respondo que é impossível, possível e impossível, respectivamente[3].

Os filmes fazem diversas referências à saga original dos anos 60 e, podemos dizer, se encaixa perfeitamente na cronologia do universo Planeta dos Macacos. Podemos perceber que no “A Origem”, uma nave espacial tripulada é enviada para estudar Marte e que dias depois a nave é dada como perdida no espaço. Essa cena é uma clara citação ao original, onde começa com os humanos saindo do planeta Terra numa nave espacial e se perdendo no espaço até chegar no planeta dos Macacos, que depois o protagonista descobre ser a própria Terra. Um grande plot twist*.

Opinião pessoal (e suspeita, pois sou grande fã da saga): os filmes já são um clássico da cultura pop e continua vendendo um grande Sci-Fi que conversa com os filmes das épocas anteriores, além de valer diferentes reflexões sociais que continuam em voga. A saga Planeta dos Macacos vai além e agrada um público geral que procura somente entretenimento e, as vezes, deixa passar pequenos detalhes que foi discutido nesse artigo.

*É uma utopia negativa para os humanos. Outros exemplos são Matrix, Distrito 9, MadMax, Eu sou a Lenda e muitos outros.

*Reviravolta inesperado do enredo


Referências

[1] Steven Mazie. Should Primates Have the Same Rights as Humans?

[2] Varki, A. e Altheide, T. K. 2009. Comparing the human and chimpanzee genomes: searching for needles in a haystack. Genome Research.

[3] Rita Loiola. O que há de possível — e impossível — para a ciência em ‘Planeta dos Macacos: O Confronto’. Veja.

Episódio 250 “Franquia: Planeta dos Macacos”. RapaduraCast.

Eduardo Graça e Fabiano Ristow. No novo ‘Planeta dos macacos’, guerra é ilustrada por comentários sociais sobre a atualidade. O Globo.

Raphael Carmo. Planeta dos Macacos: A Guerra | Crítica. Cosmo Nerd.

Natasha Madov. A ciência do novo Planeta dos Macacos. Último segundo.

1 thought on “A ciência por trás da trilogia “Planeta dos Macacos”

  1. O peso das atuações em Planeta dos Macacos: A Guerra também está no elenco de apoio por captura de performance. Eu amo os filmes como este, também recomendo assistir Professor Marston e as Mulheres Maravilha, este filme é um dos melhores filmes de drama que estreou o ano passado. É impossível não se deixar levar pelo ritmo da historia. Amei que fez possível a empatia com os seus personagens em cada uma das situações. Sem dúvida a veria novamente, achei um filme ideal para se divertir e descansar do louco ritmo da semana.

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