A Ciência no Carnaval

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Achou que ciência e carnaval não tinha nada a ver? Achou errado o*****!

A ciência e arte têm muito mais em comum do que se imagina. A música, em especial, é uma das artes mais ligada à matemática e à física, utilizando medidas precisas e a acústica. Ainda, ambas são utilizadas pela humanidade como uma forma de compreender e interpretar o mundo em que vivemos.  E, por muitas vezes, a música e a ciência se entrelaçam em metáforas, relatos históricos, críticas e homenagens[1].

O carnaval é a maior festa popular do Brasil e se apresenta de diversas formas com ritmos, tradições e danças variadas. Nas grandes cidades temos os blocos de rua que trazem os foliões fantasiados e fecham as principais avenidas da cidade durante os cinco dias de carnaval. Na Bahia temos o trio elétrico que reúne multidões para curtir o axé dançante. Em Pernambuco, o frevo é o principal ritmo do carnaval e em Olinda existe a tradição de desfilar na rua com bonecos gigantes que representam personagens nacionais[2]. Porém, a maior tradição de carnaval são os desfiles das escolas de samba.

O desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro é o mais conhecido, tendo uma grande popularidade nacional e internacional. Seus sambas-enredos e carros alegóricos abordam os mais variados temas, desde grandes escritores, contemplação da natureza, críticas sociais e políticas até aos questionamentos e aplicações da ciência e tecnologia (C&T). Todas essas danças e exibições atingem milhões de pessoas somente no Brasil[2].

 

O começo

Existem relatos de foliões fantasiados, ironizando o funcionamento do telégrafo elétrico desde a década de 1870. O carnaval de 1904 e 1905 motivou muitas músicas carnavalescas sobre as campanhas sanitárias de Oswaldo Cruz, no RJ (1903-1906) como Rato, Rato, Rato[3], no carnaval de 1904 (fazendo alusão à peste bubônica), Vacinação Obrigatória[3], também de 1904, e Febre Amarela, de 1905[2, 3].

“Hoje em dia em falso rente (?)
Acabou-se a sua guerra
Do senhor, seu Presidente
Não há mais febre amarela

Entornou-se todo o caldo
E o mosquito já não grita
Porque o grande mestre Oswaldo
Vai dar cabo da maldita”

Febre Amarela, Geraldo Magalhães (intérprete)

Durante o Século XX, as grandes sociedades carnavalescas (criadas e compostas somente pelos membros da elite) começaram a utilizar carros alegóricos com temas que abordavam a C&T: A passagem do cometa Halley em 1910 despertou o interesse de todos e no carnaval de 1911 várias alegorias foram criadas em volta de cometas e astros[2].

 

Ciência e o carnaval atual

As escolas de samba foram criadas em 1920 e, diferente das sociedades carnavalescas, não fazia distinção étnica ou social dos seus membros, fazendo com que os negros e a população pobre do Brasil também pulassem carnaval[2]. Muito se deve ao surgimento do samba moderno, de origem africana, ter sido agregado ao Carnaval com compositores moradores dos morros da cidade como Mangueira, Salgueiro, Pedra do Sal e outros[4].

Com isso, surgiram os sambas-enredos das escolas de samba: a música tema que guia todas as outras alegorias, desde as fantasias até aos carros alegóricos. Os temas são bem variados e exalta, em sua maioria, a cultura brasileira como o samba, personalidades nacionais, regiões do Brasil, cultura indígena e negra além de trazer grande críticas sociais, econômicas e políticas da atualidade.

A C&T já foi samba-enredo mais de 20 vezes desde 1947[2], quando a Estação Primeira de Mangueira trouxe o enredo “Brasil, Ciências e Artes”, composto por Cartola e Carlo Cachaça. O enredo homenageava duas grandes personalidades brasileiras da ciência e da arte: Cesar Lattes, que havia realizado a detecção experimental pioneira do méson Pi com seus colegas Cecil Powell e Giuseppe Occhialini; e Pedro Américo, importante pintor do século XIX, autor da tela “O Grito do Ipiranga”.

Diversas outras escolas de samba ao redor do Brasil usaram a C&T para seus sambas-enredos, seja exaltando personalidades como Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Ana Néri, Miguel Couto, Cesar Lattes e Santos Dummont (este último foi inspiração de 5 sambas-enredos diferentes), explorando o início do universo, celebrando os avanços da ciência e da medicina através do DNA até os progressos da área de tecnologia sobre combustíveis renováveis como a cana de açúcar e etanol[2].

 

Carnaval e Ciência em 2018

Raro são os sambas-enredos que homenageiam instituições de pesquisa. Temos na história dois enredos: o do carnaval de 1997 da Unidos da Tijuca: “Viagem Pitoresca pelos cinco continentes num jardim”, em homenagem ao Jardim Botânico com destaques à Graziela Maciel Barroso grande pesquisadora de botânica; e no carnaval de 2004, A Grande Família trazendo um enredo sobre o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia: “Especial, INPA: 50 Anos de Pesquisas na Amazônia”[2].

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Uma Noite Real no Museu Nacional, Imperatriz Leopoldinense e Museu Nacional 2018.

Nesse ano de 2018, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense homenageou o Museu Nacional/UFRJ que comemora seu bicentenário no dia 06 de  junho de 2018. O Museu Nacional é um “alicerce da Cultura, das Artes e das Ciências no Brasil” criado em 1818 por D. João VI, sendo a instituição científica mais antiga do Brasil[5, 6].

E se você não entendeu a relação entre a Imperatriz Leopoldinenese e o Museu Nacional, eu explico. A Arquiduquesa da Áustria, Carolina Josefa Leopoldina, esposa de D. Pedro e futura Imperatriz (que inspirou o nome da escola de samba) foi uma das grandes incentivadoras para a criação do Museu Nacional, era amante da ciência, em especial botânica, mineralogia e zoologia[5].

A Imperatriz Leopoldinense deu vida às exposições do Museu Nacional através das suas alas e alegorias com o samba-enredo “Uma Noite Real no Museu Nacional”. O carro abre-alas trouxe o Palácio Real da Quinta da Boa Vista, atual local do Museu Nacional. Em seguida vieram alegorias sobre o meteorito Bendegó, que fica exposto logo na entrada do Museu; um carro alegórico sobre a paleontologia com cabeças de dinossauros gigantes, a exposição permanente mais famosa do museu; carro alegórico sobre a exposição de insetos, principalmente besouros e insetos, que é gigantesca; ainda, alegorias sobre a cultura egípcia e encerrando com a antropologia e etnias pré-colombianas.

A escola de samba Unidos de Vila Isabel trouxe o enredo “Corra que o Futuro vem aí!”, com 30 alas e 6 alegorias, falando sobre as inovações, descobertas e revoluções da humanidade. O mestre-sala e a porta-bandeira fizeram uma bela apresentação sobre a descoberta do fogo. Teve também alas sobre a invenção da roda,  descoberta da energia, o início da eletrônica e da internet, além das explorações aéreas e espaciais. Na comissão de frente, a escola de samba trouxe o grande inventor Leonardo Da Vinci com o Homem de Vitrúvio. Outras personalidades homenageadas foi o Tomas Edison, inventor da lâmpada; e Santos Dummont, pai da aviação. 

Por fim, o Carnaval se consagra como um evento cultural e popular que oferece uma ótima oportunidade para iniciar um diálogo entre ciência, arte e a população brasileira. O Carnaval exerce um importante papel da cultura brasileira com músicas, histórias e encenações que são compreendidos perfeitamente por uma grande parcela da população. Com a apropriação da Ciência pelo Carnaval pode-se ter um grande aliado na divulgação da ciência e tecnologia para a comunidade brasileira.

A Unidos da Vila Isabel se apresentou na madrugada de 11 para 12 de fevereiro e a Imperatriz Leopoldinense, na madrugada de 12 para 13.

 


Referências Bibliográficas

[1] 2006. Ildeu de Castro Moreira e Luisa Massarani. (En)canto científico: temas de ciência em letras da música popular brasileira. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 13 (suplemento), p. 291-307

[2] 2015. Ildeu de Castro Moreira. A Ciência e o Carnaval brasileiro. RedPOP: 25 años de popularización de la ciencia en América Latina, p. 75-94. 

[3] 2015. Bio-Manguinhos. ‘Revolta sonora’: Oswaldo Cruz, as vacinas e a ironia dos carnavais. 

[4] 2014. Paulo Roberto Giesteira. A História Do Samba Moderno e a Formação De Identidade No Brasil.

[5] G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense. Uma Noite Real no Museu Nacional.

[6] ABC. O Museu Nacional leva a Ciência para a Sapucaí

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