Vírus: Há mocinhos ou só vilões?

“O mundo está cheio de contradições. Se jamais adoecêssemos, jamais saberíamos o que é gozar de boa saúde. Tanto o bem quanto o mal tem um lugar necessário no todo. Se não houvesse um duelo constante entre os opostos, o mundo deixaria de existir”.

– Heráclito

Assim disse o pai da dialética, Heráclito, que recebera a denominação de obscuro, principalmente na obra atribuída à ele por Diógenes Laércio, chamada de “Sobre a Natureza”. E quem falou deste filósofo para mim, foi uma amiga, a Ana Paula, também colunista do site A Ciência Explica. Obrigadão, Ana!

Essa frase deste grande filósofo pode vir a se encaixar perfeitamente para com os vírus, oras, por que não? Tudo bem que nós ouvimos constantemente nas grandes mídias que vírus são patógenos e que matam e tudo o mais. Mas poxa, será que tudo tem que ser assim?

Primeiro, temos que recorrer a definição mais primordial e dura de “vírus”. Do latim, o seu significado é “veneno, toxina” e são pequenos agentes acelulares (sim, não possuem célula), que medem entre 20 e 300 nanômetros de diâmetro. São incrivelmente pequenos, mas não os subestimem pelo tamanho!

Esses agentes foram visualizados em 1939 por microscopia eletrônica, equipamentos capazes de ampliar a imagem em milhões de vezes. A partir da década de 1950 começou o que chamamos de “Época de ouro dos vírus”.

Mas como assim os vírus são acelulares e ainda podem ter DNA e RNA fita simples ou duplo?

Na escola, nós aprendemos que existe o DNA e RNA (ácido desoxirribonucleico e ácido ribonucleico, respectivamente), lembra? E que o DNA é uma dupla hélice enquanto o RNA é uma fita única? Pois então… os vírus podem ter fita única e dupla de DNA ou RNA — fora que podem “passar” de um RNA simples para um DNA duplo intermediário. Surpresos?

Os vírus são os malvadões pintados por Hollywood e grandes mídias? A resposta mais curta é NÃO!

Tudo bem que nós aprendemos em livros didáticos, filmes de Hollywood e nos noticiários que eles são uma turma do mal que só causam o doenças, mas vou lhes mostrar como isso não é exatamente verdade, que há mocinhos nessa história e que podem estar do nosso lado, e como podem…

O quanto e o que essa divulgação de que vírus são só maus rendem?

Ao longo da história nós tivemos vírus que assombraram por anos nossas crianças e a nós mesmos, como o vírus da pólio e o da varíola, que causam arrepios até o dia de hoje — mesmo estando extinto em muitos países (por isso, continuem vacinando!).

http://www.cienciaexplica.com.br/noticias/100-anos-de-gripe-espanhola-e-o-brasil/

Tivemos, quase que imediatamente, após a Primeira Guerra Mundial, um vírus que ceifou cerca de 50 milhões de vidas, e seu nome é Influenza A H1N1, mais popularmente conhecido como Gripe Espanhola.

Em anos mais recentes presenciamos a “sexta-feira, 13” em forma de vírus, o Ebola, que apresenta mortalidade de até 90% e o HIV/AIDS — que é motivo de muito preconceito até os dias de hoje. Agora, em pleno 2020, estamos presenciando mais um membro da família Coronaviridae, o SARS-CoV-2, que causa a COVID-19, e está botando muitos países grandes de joelhos, causando medo e pânico em todo o mundo. Algumas vezes, claro, causado por fake news e desinformações em massa.

Fake news não ajuda em nada na contenção de vírus. Deixe a dramatização para o cinema e encare com seriedade as ameaças, antes que a ameaça possa representar um cenário hollywoodiano.

E agora, com esses vilões a solta, quem são os heróis que poderão nos socorrer? Os virófagos, por exemplo!

Virófagos são vírus que “infectam” vírus. Sim, isso existe, e um dos exemplos mais famosos é o Sputnik. Esse vírus satélite é um agente subviral que depende de um “vírus auxiliar” e podem crescer em alguns tipos de amebas.

Um exemplo de bacteriófago, que pode nos socorrer em momentos em que nem antibióticos funcionam mais.

Há também os bacteriófagos – fagos para os íntimos – que podem infectar bactérias. Quando não há mais antibióticos que possam tratar uma infecção bacteriana, o uso de bacteriófagos pode ser considerado e está atualmente em estudos. Em tempos de bactérias multirresistentes, os fagos poderiam representar uma solução, porém, para entender todos os efeitos positivos ou negativos, essa prática ainda está sendo estudada.

Além do mais, você pode usar o malfeitor tomar do seu próprio veneno. Conhece uma grande aliada nossa chamada vacina? Edward Jenner, considerado o pai da imunologia, em 1796, conseguiu imunizar uma criança contra a varíola, doença causada por vírus que tem (ou melhor, tinha) fatalidade de cerca de 35%. Como é possível?

A pústula da vaca — ou os maravilhosos efeitos da nova inoculação. Cartoon de 1802 do caricaturista britânico James Gillray, ilustrando o medo das pessoas sobre a vacinação, satirizando como se a vacina fosse transformá-los em vacas.

Jenner observou que as mulheres que ordenhavam as vacas possuíam feridas nas mãos e que nunca ficavam doentes da varíola humana. Então, a partir daí, ele resolveu testar inocular o pus das feridas das vacas causadas por varíola bovina em James Phipps, de oito anos, que depois contraiu a doença humana de forma branda. Então, ao testar com a varíola humana, “tchanam!”, James não desenvolveu a doença. Ele estava imunizado contra um dos bichos papões daquela época e da humanidade, a varíola.

E só para terminar, caso ainda esteja se perguntando, sobre a procedência do nome vacina, sim, ela vem da palavra vaca. Então, espero que eu tenha mostrado que vírus não é exclusivamente um monstro que habita nossos quartos, embaixo da cama, quando estamos prestes a dormir.

Referências

  1. LASCOLA, Bernard; DESNUES, Christelle; PAGNIER, Isabelle; ROBERT, Catherine; BARRASSI, Lina; FOURNOUS, Ghislain; MERCHAT, Michèle; SUZAN-MONTI, Marie; FORTERRE, Patrick; KOONIN, Eugene. The virophage as a unique parasite of the giant mimivirus. Nature, [s.l.], v. 455, n. 7209, p.100-104, 6 ago. 2008. Springer Science and Business Media LLC. http://dx.doi.org/10.1038/nature07218.
  2. BRIDDON, R.w. (org.). Satellites and Other Virus-dependent Nucleic Acids. 2011. Disponível em: https://talk.ictvonline.org/ictv-reports/ictv_9th_report/sub-viral-agents-2011/w/sub_viruses/302/3-satellites-and-other-virus-dependent-nucleic-acids.
  3. RIEDEL, Stefan. Edward Jenner and the History of Smallpox and Vaccination. Baylor University Medical Center Proceedings, [s.l.], v. 18, n. 1, p.21-25, jan. 2005. Informa UK Limited. http://dx.doi.org/10.1080/08998280.2005.11928028.
  4. TORTORA, Gerard J.; FUNKE, Berdell R.; CASE, Christine L. Microbiologia. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017

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1 thought on “Vírus: Há mocinhos ou só vilões?

  1. Boas explicações, Bryan.

    Vi recentemente um vídeo do professor Afonso Lopes do canal Ciência de Verdade, dizendo que as pessoas estavam preocupadas que o COVID-19 mudaria o DNA humano e ele disse que não tem sentido essa preocupação, porque todo vírus muda o DNA humano.

    E que, como você descreveu, os vírus não são sempre ‘malvadões’. Ouvi do professor Afonso que todos nós temos no nosso intestino uma bactéria chamada E.Coli e que ela é inofensiva na maior parte do tempo, a menos que a pessoa ingira algum alimento que contenha essa bactéria. Ou seja, estamos sempre lidando com o mal dentro do nosso organismo como você parafraseou Heráclito.

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