Como as fake news afetam a divulgação científica e a saúde pública

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Com revisão de André Amorim

No cenário atual, não se fala em outra coisa, as fake news dominaram as redes sociais de uma maneira realmente alarmante, podendo afetar negativamente a opinião pública sobre ciência e até pior: a saúde pública também pode ser colocada em risco.

Mas afinal, o que são as fake news? Uma das definições possíveis para notícia falsa é:

um conteúdo deliberadamente inverídico, falso, distorcido e/ou inventado propositadamente de forma a simular uma notícia verdadeira com o objetivo de favorecer algo ou alguém, causar comoção pública e em alguns casos podendo até mesmo levar à histeria generalizada

Por que as pessoas compartilham notícias falsas?

Figura 1 Giovanna Jeronymo
Fake News é o termo usado para referir-se a informações falsas divulgadas em massa. Fonte: WikiMedia.

Segundo uma notícia publicada na Folha de São Paulo, os sites e páginas fakes tem maior engajamento e participação do público do que os de cunho jornalístico real, havendo, de 2017 a 2018, uma queda de 17% ao acesso dos sites confiáveis e um aumento de 61% de cliques nas páginas que divulgam notícias falsas.

Um outro estudo coordenado por Sinan Aral, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), indicou que as notícias falsas se espalham 70% mais rápido que as verdadeiras. De acordo com o estudo, as informações falsas ganham espaço na internet de forma mais rápida, mais profunda e com maior abrangência que as verdadeiras. Cada postagem verdadeira atinge, em média, mil pessoas, enquanto as postagens falsas mais populares – aquelas que estão entre o 1% mais replicado – atingem de mil a 100 mil pessoas.

O principal motivo por trás da disseminação das fake news está relacionado ao bom e velho ditado “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. Essas notícias são criadas de modo a mexer com a emoção da audiência, contando com a impulsividade das pessoas em compartilhá-las.

Para legitimar as fake news, normalmente é feito uma mistura de publicações falsas com a reprodução de notícias verdadeiras de fontes confiáveis, sendo que o alto número de compartilhamento faz com que uma quantidade ainda maior de pessoas recebam o conteúdo falso e acreditem no que está lendo.           

Como a divulgação científica e a saúde pública são afetadas pelas notícias falsas

Compartilhar informações falsas, fotos e vídeos manipulados e publicações duvidosas pode trazer muitas consequências, como riscos à saúde pública, ao jornalismo e à divulgação científica, incentivando o preconceito e a violência, práticas homofóbicas e xenofóbicas, causa de histeria coletiva relacionada à saúde pública, segurança e educação e até mesmo estímulo ao totalitarismo e discursos de ódio.

Mas você pode estar se perguntando: como uma notícia falsa afeta de maneira significativa a sua saúde e de outras pessoas? Podemos pensar em vários exemplos bastante atuais envolvendo a pandemia do novo coronavírus, conhecido como SARS-CoV-2 que provoca a doença COVID-19. Várias fake news estão circulando pelas páginas do Facebook, grupo de Whatsapp e Instagram.

As notícias variam desde informações sobre como combater o vírus usando gargarejo com sal e vinagre, água fervida com alho, evitando comer alimentos frios e bebendo água a cada 15 minutos até notícias mais sérias que acabam causando uma maior preocupação da população como fechamento de refinarias da Petrobras, suspensão das operações de Uber, fotos de caixões de supostas vítimas do coronavírus e até que países mais afetados como a Itália deixarão de prestar atendimento a idosos com mais de 80 anos.

Figura 2 Giovanna Jeronymo
Fake news compartilhada nas redes sociais sobre como o gargarejo com sal e vinagre impede a infecção por coronavírus.  Fonte: Aos Fatos.

Vamos supor que as pessoas realmente acreditem que fazer um gargarejo com água morna e vinagre irá eliminar o vírus do organismo curando-as da doença, desse modo, elas podem deixar de tomar medidas preventivas que realmente impeçam a transmissão viral.

Imagina quantas pessoas podem ser infectadas e o aumento no número de casos da doença que pode surgir só pelo fato de acreditarem e seguirem o que as notícias falsas alegam? Além de ameaçar a saúde pública, as fake news também podem aumentar a preocupação e o afligimento da população frente à pandemia, já que muitas vezes são espalhadas notícias com o intuito de causar histeria generalizada.

Além disso, os impactos são crescentes tanto na interface entre ciência e sociedade quanto no próprio domínio da ciência. No atual ambiente político e midiático, a desconfiança no empreendimento científico e as percepções erradas sobre conhecimento científico crescem cada vez mais a partir dessa disseminação generalizada de informações enganosas e tendenciosas, impactando de maneira direta a divulgação científica. Desse modo, a visão do público sobre a confiabilidade dos cientistas e especialistas pode ser depreciada frente ao aumento crescente no número e impacto das fake news.

Como evitar as Fake news!

Embora o problema seja complexo, é importante disponibilizar para a população ferramentas para que as pessoas sejam capazes de analisar se um conteúdo é minimamente baseado em fatos e atribuir a ele valor proporcional à sua veracidade.

Com vários conteúdos duvidosos espalhados na internet, fica difícil saber o que é notícia (fato) e o que é falso (fake) hoje em dia. Por isso, é muito importante que alguns cuidados sejam tomados antes de compartilhar informações. A Federação Internacional das Associações e Instituições de Bibliotecários (IFLA) publicou um infográfico com dicas para ajudar na identificação de notícias falsas:

Figura 3 Giovanna Jeronymo
Infográfico que ilustra como é possível identificar notícias falsas. Fonte: IFLA.org

Como saber se uma informação é verdadeira

As fake news compõem uma estratégia de comunicação que tem como único objetivo causar desinformação e tirar proveito disso. Fontes de jornalismo especializado tornam-se um excelente caminho para saber se determinada informação é verdadeira ou não.

Tendo em vista esse cenário, várias agências de checagem de fatos foram criadas no Brasil, como a Lupa da Revista Piauí, Truco da Agência Pública, Aos Fatos, E-farsas, Boatos.org, e Fato ou Fake do G1. Essas agências, compostas por jornalistas, têm como objetivo investigar a veracidade de notícias, declarações e boatos, auxiliando ao combate contra as fake news.              

Além disso, com o crescente aumento de notícias falsas e desinformações relacionadas à pandemia do novo coronavírus, a organização International Fact-Checking Network’s tornou pública a base de checagens da aliança mundial contra desinformação sobre o SARS-CoV-2. Ela reúne todo o material produzido pela coalizão mundial criada para fazer frente às notícias falsas sobre a COVID-19. A iniciativa agrega mais de 100 plataformas em pelo menos 45 países.

Desse modo, é possível perceber que fake news sobre as mais variadas temáticas e visando os mais diversos objetivos, são fabricadas em escala industrial todos os dias. Nenhum de nós está imune às estratégias usadas pelas fake news, mas podemos tentar combater as notícias falsas evitando a desinformação.

Referências

  1. HOPF, H.; KRIEF, A.; MEHTA, G.; MATLIN, S. A. Fake science and the knowledge crisis: ignorance can be fatal. R Soc Open Sci., v.6, n. 5, maio 2019.
  2. SCHEUFELE, D.A; KRAUSE, N.M. Science audiences, misinformation, and fake news. Proc Natl Acad Sci U S A, v. 116, n. 16, p. 7662-7669, abril 2019.
  3. PORTINARI, N. & HERNANDES, R. Fake news ganha espaço no Facebook e jornalismo profissional perde. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/02/fake-news-ganha-espaco-no-facebook-e-jornalismo-profissional-perde.shtml>. Acesso em: 20 de março de 2020.
  4. SCHELLER, F. Fake News é promovida porque atrai publicidade. Disponível em: <https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,fake-news-e-promovida-porque-atrai-publicidade,70003139080>. Acesso em: 20 de março de 2020.
  5. FRANZ, F. O impacto das notícias falsas na opinião pública sobre ciência. Disponível em: <https://sciam.uol.com.br/o-impacto-das-noticias-falsas-na-opiniao-publica-sobre-ciencia/>. Acesso em: 20 de março de 2020.

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