Pandemias e Hollywood: o olhar do cinema para as doenças infecciosas

Capa Hollywood

                                                       Revisado por André Amorim e Sidcley Lyra

“The single biggest threat to man’s continued dominance on this planet is the vírus”

“A maior ameaça ao domínio contínuo do homem neste planeta é o vírus.“

Joshua Lederberg

Com essa frase de impacto dita pelo ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 19581, o filme Epidemia (Traduzido do Inglês “Outbreak”), que estreou nos cinemas em 1995, abre sua narrativa. Histórias de ficção científica sobre epidemias sempre fizeram parte do catálogo de filmes de Hollywood, e diante da atual pandemia causada pelo novo Coronavírus, o interesse por este tipo de filme vem aumentando.

Um dos filmes mais recentes sobre a temática, lançado em 2011, Contágio (Traduzido do Inglês “Contagion”) chegou a figurar no top 10 de filmes alugados na plataforma da Apple em Janeiro deste ano2. Mas o que será que esses filmes têm em comum com a realidade de uma pandemia como a atual? Cenas de pânico e caos generalizado são reais ou apenas alarmismo para chamar atenção? Heróis e curas rápidas existem?

Nós, do A Ciência Explica, fomos assistir alguns desses filmes e vamos falar aqui de três deles: Epidemia (Outbreak) de 1995, Contágio (Contagion) de 2011 e A Gripe (Flu) de 2013. SPOILER ALERT!!!!!!! Se você ainda não viu nenhum desses filmes e não quer saber antes o que acontece, melhor parar por aqui. Esta matéria estará recheada de spoilers.

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Capa dos filmes. Disponível em www.adorocinema.com

Será que os vírus do filme são reais?

Os vírus que aparecem nos três filmes são o vírus Motoba em Epidemia, o vírus H5N1 em A Gripe e o vírus MEV-1 em Contágio. Nos filmes, o primeiro causa uma espécie de febre hemorrágica e os dois últimos causam síndromes respiratórias. Mas esses vírus existem na vida real?

O vírus Motoba, retratado em Epidemia, tem características bastante semelhantes ao vírus Ebola, como mostrado na cena do filme abaixo, e também causava um tipo de febre hemorrágica. Mas é um vírus fictício. 

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Cena retirada do Filme Epidemia (Outbreak) via Pinterest
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Microscopia Eletrônica do Vírus Ebola. Crédito: CDC/ Dr. Frederick Murphy

O H5N1 retratado em A Gripe é um vírus que realmente existe e que nós conhecemos comumente por “Gripe do Frango”. Causador da epidemia de Gripe Aviária em 20045, este vírus é, até os dias atuais, monitorado constantemente pela OMS (Organização Mundial da Saúde), por ser um subtipo do vírus da Influenza altamente patogênico6.

Segundo a OMS, dos 565 casos registrados em 2004, 311 foram fatais. O vírus é transmitido através do contato de humanos com aves, porém sua transmissão entre humanos não é sustentada e bastante rara. A OMS segue monitorando o vírus para rastrear possíveis mutações que possam aumentar a capacidade desse vírus tão patogênico de ser transmitido facilmente entre humanos, o que acarretaria num possível problema de saúde publica mundial. Em A Gripe, o vírus é transmitido facilmente entre humanos, sendo essa uma das primeiras adaptações mostradas no filme.

Já o MEV-1 retratado no filme Contágio, segundo o seu diretor, tem inspiração no vírus Nipah3. Este vírus é da família dos Paramixovírus, a mesma família do vírus causador do sarampo. O vírus Nipah teve sua emergência relatada na Malásia em 1998 e estima-se que sua origem tenha sido através dos morcegos. Desde 2001, pequenos surtos por esse vírus são relatados em alguns países asiáticos4. O vírus pode causar sintomas diversos, incluindo encefalite que é a inflamação do cérebro. No filme é possível ver a evolução da doença até esse estágio.

Caos e violência

Os filmes A Gripe e Epidemia, este último principalmente, têm uma narrativa bastante baseada no ponto de vista militar e político. E por conta disso as soluções drásticas apresentadas em ambos os filmes fogem completamente da realidade de civilização que vivemos. Em Epidemia por exemplo, a pequena cidade atingida pelo vírus é isolada, e uma das soluções previstas para o fim da crise é simplesmente explodir bombas sobre a cidade e assim destruir a todos, acabando com a epidemia.

Em A Gripe, a cidade inteira é confinada num grande campo de concentração, com tendas, racionamento de comida e uma forte presença militar. Este fato sozinho já é bastante fora do padrão, pois colocar pessoas confinadas em um local, ainda que para rastreá-las, aumenta ainda mais a chance de contaminação de um individuo saudável por um infectado. No filme, as pessoas que estão confinadas e apresentam a doença são levadas para um outro setor, onde são incineradas, algumas ainda com vida. Todas essas soluções drásticas de aniquilação em massa, como se não houvesse tratamento médico e outros cuidados, dando a impressão de que as pessoas são o próprio vírus são completamente irreais. São situações que desrespeitam os direitos humanos, e na sociedade atual líderes que tentassem esse tipo de solução responderiam a crimes contra humanidade.

Um segundo ponto em comum entre esses dois filmes é a forma como os processos de isolamento social são feitos, em geral são retratados em cenas de extrema brutalidade e violência, onde as pessoas e/ou cidades como no caso de Epidemia, são isoladas sem o mínimo de informação sobre o que está acontecendo. Estas cenas causam impactos e podem levar ao espectador a entender que o processo de isolamento é um processo violento.

Nos dias atuais, com a era da globalização, seria praticamente impossível que uma cidade ou país fosse isolado da noite para o dia sem que isso não fosse comunicado pelas televisões, rádios ou mesmo redes sociais. Além do mais, diante de uma pandemia, a informação é crucial para que as pessoas entendam os que está se passando e possam respeitar os acontecimentos.

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 Cena retirada de A Gripe.

Os erros de conceito

Um outro ponto bastante controverso no filme Epidemia é o momento em que o vírus Motoba, que antes era transmitido apenas através do contato com sangue e fluídos contaminados sofre uma mutação e passa então a ser transmito pelo ar. Primeiramente essa mudança brusca na forma de transmissão já é bastante rara. O sucesso da transmissão de um vírus por uma determinada via, como por exemplo através do ar, é baseado em diversos fatores que estão intrinsecamente ligados. Fatores do próprio vírus, como a sua estabilidade em determinado ambiente, a plasticidade do genoma para conter os genes necessários para sua viabilidade, a capacidade de invadir o hospedeiro e a dose infectante, por exemplo, levam ao sucesso de um vírus ser transmitido pelo ar, ou por contato sexual. Fatores ambientais como a umidade e temperatura e até fatores do hospedeiro como o sistema imune e comportamentos sociais, como ser ativo sexualmente e não utilizar preservativos, por exemplo, tem efeitos no modo como um vírus se transmite7, 8.

Um outro aspecto, é que toda essa mudança na forma de transmissão do vírus no filme foi causada por apenas uma mutação, levando a uma falsa sensação de que mutações são eventos necessariamente ruins. Entretanto, a ocorrência de mutações, que são modificações na sequencia de nucleotídeos que compõe a sequencia de DNA/RNA, são absolutamente normais em todos os seres vivos e fazem parte do processo evolutivo9.

Os vírus, principalmente os de RNA (ácido ribonucleico) como SARS-Cov-2, que vem causando a atual pandemia de Covid-19, são particularmente propensos a essas modificações em seu genoma, pois as proteínas responsáveis pelo seu processo de multiplicação são incapazes de corrigir estes defeitos. Além disso, a maioria das mutações afeta negativamente algumas funções do vírus e são removidas pelo processo de seleção natural. Ainda sim, mesmo que uma mutação ocorra, e possa ser benéfica, tornando o vírus mais letal ou talvez mais transmissível, ela só irá se espalhar em alta frequência na população se for selecionada.  Por fim, características tão importantes assim, em geral são controladas por vários genes, o que significa que diversas mutações benéficas deveriam ocorrer em todos esses genes envolvidos e serem selecionadas10.

A busca por um salvador

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Por fim, um ponto em comum entre os três filmes que observamos é em relação à busca por uma cura. Em maior ou menor escala, por se tratar de um filme que busca reações do espectador, os três filmes põem uma ambientação em torno de um salvador da humanidade.

Em A Gripe e Epidemia, como a narrativa é construída em cima da suposição de que todos estão doentes, a cura em geral aparece do único personagem que não conseguiu se infectar ou mesmo se curou, e o sangue dele se torna o objeto mais sagrado da humanidade. Realmente, a utilização da Terapia com Plasma Convalescente, como é chamada esse tipo de terapia que se utiliza do plasma (a parte liquida do sangue) de pacientes curados de uma doença, é uma alternativa que vem sendo cada vez mais utilizada para o tratamento de doenças11, 12. No plasma é onde estão os anticorpos, que são as moléculas do sistema imune responsáveis por neutralizar os agentes infecciosos. Nas terapias com plasma convalescente, pressupõe-se que aquele plasma terá anticorpos que são capazes de combater o vírus.

Entretanto, a terapia com plasma não é certeza efetiva de cura e apresenta vários riscos. Primeiramente nem toda pessoa é capaz de produzir anticorpos contra determinado agente infeccioso, assim nem todo plasma pode ser a salvação da humanidade. Além disso, o tratamento com plasma não significa efetivamente a cura da doença, em geral leva a uma chance maior do doente se recuperar ou mesmo diminui seu tempo de internação no hospital, mas o risco sempre existe. A terapia também possui diversas problemáticas como o risco de contaminação por outros agentes, a sobrecarga do sistema circulatório, ou mesmo um processo de choque por conta da reação do nosso corpo a um plasma diferente13.

Em Contágio, a cura vem através da descoberta de uma vacina, embora mais plausível, o ponto de irrealidade está no tempo necessário em que se descobre a salvação: apenas 133 dias depois do início da epidemia. Em situações normais, o processo de criação de uma vacina pode levar mais de décadas. A primeira parte do trabalho consiste na pesquisa de possíveis candidatos para uma vacina num processo que leva em torno de 10 anos. Nesse processo são feitos testes in-vitro, que se forem bem-sucedidos passam para testes em animais. Em geral, é a partir desse momento que as indústrias farmacêuticas entram no jogo e os testes em humanos começam, os chamados testes clínicos. Os testes clínicos são divididos em 3 fases que visam avaliar se realmente há a produção de uma resposta imune pelo organismo, se não há efeitos adversos, qual a dose segura de administração, entre outros aspectos. Os testes clínicos levam em torno de 7 ou 8 anos, e só então a vacina passa para o processo de aprovação de agências reguladoras (14,15). Para o SARS-CoV-2, por exemplo, as estimativas mais otimistas dizem que teremos uma vacina em 18 meses16. Ou seja, 133 dias, como mostrado no filme, é praticamente uma utopia.

http://www.cienciaexplica.com.br/ociocientifico/o-cientista-na-producao-de-filmes-de-ficcao-cientifica/

Mesmo com muitos aspectos irreais e controversos, esses filmes também apresentam conceitos técnicos e algum embasamento cientifico, principalmente Contágio, que mostra por exemplo o trabalho do CDC (Do inglês Centers for Disease Control and Prevention), órgão americano responsável pelo controle de doenças e a atuação da vigilância epidemiológica para a descoberta da cadeia de transmissão do vírus. Contágio também discute aspectos como teorias conspiratórias acerca da cura da doença, do papel da indústria farmacêutica e do governo e o impacto dessas afirmações na sociedade, um tema bastante relevante e atual.

Em A Gripe, é possível observar um olhar mais politico dos efeitos de uma pandemia, com discussões acerca da tomada de decisões politicas sobre o isolamento e sobre a economia, além de pequenos aspectos sobre a imigração ilegal. Os filmes também deixam clara a conexão do meio ambiente com a saúde humana, mostrando que muitos vírus que hoje circulam em humanos têm sua origem em animais selvagens, e o quanto nosso contato próximo e a invasão de seus espaços são perigosos.

No geral, filmes de epidemias têm boas narrativas, que prendem a atenção do público e causam diversas reações, mas é preciso ter um olhar crítico sobre elas, ainda mais nos tempos atuais, pois podem causar confusão ou mesmo desespero e uma sensação de que viveremos o apocalipse zumbi.

E você, leitor, o que vê de realidade nesses filmes? Consegue identificar situações da realidade que poderiam até estar num desses filmes? Deixa seu comentário para gente!  


REFERÊNCIAS

  1. https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/1958/lederberg/biographical/
  2. https://canaltech.com.br/cinema/coronavirus-aumenta-o-interesse-das-pessoas-pelo-filme-contagio-159686/
  3. https://www.the-scientist.com/news-opinion/contagion-science-fact-41929
  4. Ang BSP, Lim TCC, Wang L. 2018. Nipah Virus Infection. Journal of Clinical Microbiology 56(6). pii: e01875-17.
  5. Ibiapina CC, Costa GA, Faria AC. 2005. Influenza A
  6. Svensson EI, Berger D. 2019. The role of Mutation Bias in Adaptative Evolution. Trends in Ecology and Evolution 34(5): 422-434. aviária (H5N1): a gripe do frango.Jornal Brasileiro de Pneumologia 31(5):436-444.
  7. https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=2390:a-ameaca-da-gripe-aviaria-continua-vigente&Itemid=463
  8. Richard M, Knauf S, Lawrence P, Mather AE, Munster VJ, Muller MA, Smith D, Kuiken T. 2017. Factors determining human-to-human transmissibility of zoonotic pathogens via contact. Current Opinion in Virology 22:7-12
  9. Pica N, Bouvier NM. 2012. Environmental factors affecting the transmission of respiratory viroses. Current Opinion in Virology 2:90-95.
  10. Grubaugh ND, Petrone ME, Holmes EC. 2020. We shouldn`t worry when a virus mutate during disease outbreak. Nature Microbiology 5:529-520.
  11. Chen Y, Wong R, Soo YO, Wong WS, Lee CK, Ng MH, Chan P, Wong KC, Leung CB, Cheng G. 2005. Use of convalescent plasma in SARS patients in Hong Kong. European Journal of Clinical Microbiology 24(1):44-46.
  12. Zhou B, Zhong N, Guan Y. 2007. Treatment with convalescent plasma for Influenza A (H5N1) infection. Clinical Infectious Disease 52:447-456
  13. https://www.bbc.com/portuguese/geral-47467046
  14. https://www.chop.edu/centers-programs/vaccine-education-center/making-vaccines/process-vaccine-development
  15. https://www.cdc.gov/vaccines/basics/test-approve.html
  16. https://saude.abril.com.br/medicina/coronavirus-quanto-tempo-vacina/

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