Higiene e sociedade: A importância da higienização em tempos de COVID-19

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“Civilização é esterilização.”

Aldous Huxley em “Admirável Mundo Novo”

No clássico de ficção científica de Aldous Huxley, a citação acima indica um dos passos que levou a sociedade a um futuro aparentemente utópico, em que toda doença e sofrimento foram erradicados. Ainda que com princípios nobres, essa falsa utopia é rapidamente desconstruída ao longo da história, pois mesmo sendo bem sucedida ao conter qualquer tipo de enfermidade, pereceu, ao tentar privar o indivíduo de emoções, atentar contra a própria condição humana.  Na obra publicada em 1932, “Civilização é esterilização” é uma das lições hipnopédicas de higiene elementar, um conjunto de técnicas condicionantes as quais todo indivíduo é exposto ostensivamente desde a infância. Atualmente, longe dessa atmosfera opressiva, temos que pensar de forma responsável sobre nossos atos. E em tempos de pandemia de COVID-19, fica claro que a atitude de uma pessoa pode colocar dezenas de outras em risco, logo pequenas mudanças em hábitos cotidianos tornam-se cruciais.

Dentre as atitudes recomendadas, o isolamento social se mostra de extrema importância para o momento em que estamos vivendo (ver Isolamento é realmente necessário para enfrentar o novo coronavírus? ), ainda que esteja sendo um grande desafio para diversas pessoas. Distantes da anestesia emocional imposta na ficção de Huxley, é evidente que o distanciamento de entes queridos, sensação de perda de liberdade, incertezas e tédio podem trazer danos psicológicos, além de agravar casos de ansiedade e depressão. Análises sobre como a quarentena pode afetar a saúde mental têm sido feitas, indicando ainda formas de tornar o isolamento menos danoso (Brooks et al., 2020). No entanto, apesar de desafiador, o isolamento social será uma medida temporária, ao contrário de como podemos tratar algumas mudanças nos hábitos de higiene. 

É notável como a implementação de pequenos hábitos de higiene trouxe grandes progressos à medicina e à saúde pública ao longo dos séculos, com papel crucial na contenção de epidemias (Porter, 2006). Com tal relevância, a higiene tornou-se quase intrínseca ao nosso conceito moderno de civilização. Comportamentos higiênicos são observados em diversos primatas, além de serem comuns a diferentes civilizações humanas, desempenhando um importante papel evolutivo ao evitarem variados tipos de infecções (Curtis, 2007).  Já a higienização enfatizada por Huxley em sua ficção distópica, parece ter tido como inspiração um evento histórico contemporâneo ao autor. 

A gripe espanhola contaminou cerca de 500 milhões de pessoas ao redor do mundo entre 1918 e 1920 (Taubenberger & Morens, 2006), um quarto da população mundial da época, com estimativas de mortes que chegam a 100 milhões (Jilani et al., 2019). Considerada misteriosa a seu tempo, hoje sabe-se que a causa da gripe espanhola foi o vírus Influenza H1N1, cuja vacina foi desenvolvida apenas nas últimas décadas. Sendo assim, naquele período a pandemia foi combatida pelos meios disponíveis, como tratamentos dos sintomas e principalmente estratégias de prevenção.  Em maio de 1919, George A. Soper, engenheiro sanitário dos EUA, publicou uma nota na Science intitulada “Lessons of the pandemic”, dando um panorama sobre o que se sabia da doença até então e recomendações sobre sua prevenção. Dentre as 12 recomendações listadas por Soper, algumas são destacadas abaixo:

  • Evitar aglomerações;
  • Abafar tosses e espirros;
  • Manter boca limpa, pele limpa e roupas limpas;
  • Manter as janelas do local que você esteja abertas, sempre que possível;
  • “Seu destino pode estar nas suas próprias mãos, lave suas mãos antes de comer”;
  • Não usar guardanapo, toalha, colher, garfo ou copo usado por outra pessoa e não lavado;

As sugestões listadas acima continuam se aplicando aos dias de hoje, com eventuais aprimoramentos. Assim como o H1N1, o SARS-CoV2, vírus causador da pandemia atual, infecta por contato e aspiração de gotículas contaminadas. Desse modo, é importante evitar principalmente o contato com olhos, boca e nariz, pois as mucosas presentes nessas áreas favorecem a contaminação. 

E quanto tempo o vírus permanece em diferentes superfícies? Uma revisão recente visou responder essa pergunta analisando a capacidade infecciosa de diferentes tipos de coronavírus, através de testes in vitro, após tempos distintos em diferentes tipos de superfícies (Kampf et al., 2020).

Persistência da capacidade infecciosa de coronavirus em superfícies inanimadas
Aço Metal Papel Plástico Silicone Jaleco descartável Teflon
2 a 5 dias 5 dias < 5 min a 5 dias 8 hs a 9 dias 5 dias 1 h a 2 dias 5 dias
Alumínio Madeira Vidro PVC Luvas cirúrgicas (látex) Cerâmica
2 a 8 hs 4 dias 4 a 5 dias 5 dias ≤ 8 hs 5 dias

OBS: as variações se devem principalmente a diferenças entre tipos de coronavírus e concentração testada.

Diversos estudos enfatizam a importância de lavar as mãos para a prevenção de doenças virais respiratórias (Godoy et al., 2012; Liu et al., 2016), indicando que a higienização das mãos com água e sabão ao menos 5 vezes ao dia, principalmente em momentos prévios ao contato com a face, podem representar uma redução de até 80% do risco de contaminação. O álcool em gel também apresenta eficácia equivalente, porém, em caso de sujeira visível, a lavagem com água e sabão é mais recomendada (Organização Mundial da Saúde).

Os procedimentos abaixo seguem as recomendações da Organização Mundial de Saúde:

Higiene Maos 2016 2
Higienização corretas das mãos. Fonte: OPAS/OMS

Sendo assim, a célebre citação de Huxley poderia ser facilmente reinterpretada hoje em dia, livre de imposições e tendo em vista a responsabilidade atribuída a cada indivíduo vivendo em uma sociedade diante de uma pandemia. O saneamento básico ainda é uma realidade distante de milhares de pessoas, mas é a forma mais abrangente e barata de se prevenir doenças infecciosas, auxiliando a conter uma epidemia cuja cura ou vacina ainda não foram desenvolvidas.

Referências:

Brooks, S. K.; Webster, R. K.; Smith, L. E.; Woodland, L.; Wessely, S.; Greenberg, N.; Rubin, G. J. 2020. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Lancet 395: 912–20. DOI:10.1016/S0140-6736(20)30460-8

Curtis, V. A. 2007. A natural history of hygiene. Can J Infect Dis Med Microbiol 18(1):11-14

Godoy, P.; Castilla, J.; Delgado-Rodríguez, M.; Martín, V.; Soldevila, N.; Alonso, J.; Astray, J.; Baricot, M.; Cantón, R.; Castro, A.; González-Candelas, F.; Mayoral, J.M.; Quintana, J. M.; Pumarola, T.; Tamames, S.; Domínguez, A.; CIBERESP Cases and Controls in Pandemic Influenza Working Group, Spain. 2012 Effectiveness of hand hygiene and provision of information in preventing influenza cases requiring hospitalization. Preventive Medicine 54 (2012): 434–439. DOI:10.1016/j.ypmed.2012.04.009

Huxley, A. 1932. A Brave New World. HarperCollins Publishers.

Jilani, T. N.; Jamil, R.T.; Siddiqui, A.H. 2019. H1N1 Influenza (Swine Flu). Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK513241/. Consultado em 15/04/2020

Kampf, G.; Todt, D.; Pfaender, S.; Steinmann, E. 2020. 0Persistence of coronaviruses on inanimate surfaces and their inactivation with biocidal agents. Journal of Hospital Infection 104 (2020): 246-251. DOI:10.1016/j.jhin.2020.01.022

Liu, M.; Ou, J.; Zhang, L.; Shen, X.; Hong, R.; Ma, H.; Zhu, B.; Fontaine, R. E. 2016. Protective Effect of Hand-Washing and Good Hygienic Habits Against Seasonal Influenza: A Case-Control Study. Medicine 95 (11): 1-7. DOI: 10.1097/MD.0000000000003046

Porter, R. 2006. The Cambridge History of Medicine. Cambridge University Press.

Soper, G. A. 1919. Lessons of the pandemic. Science 49 (1274): 501-506. DOI: 10.1126/science.49.1274.501 

Taubenberger, J.K. & Morens, D.M. 2006. 1918 Influenza: the mother of all pandemics. Emerging Infectious Diseases 12 (1): 15–22. DOI:10.3201/eid1201.050979

World Health Organization. 2020. Clean hands protect against infection. Disponível em https://www.who.int/gpsc/clean_hands_protection/en/. Consultado em 15/04/2020

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