Pandemias: um Déjà vu indigesto

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Será que nós conseguimos entender nosso momento atual olhando para o passado? Para muitos cientistas, a pandemia da COVID-19 é mais um evento que se repete na história e do ponto de vista científico e social, sempre tem algo a ensinar.

As infecções são capazes de mudar o rumo da história, e por isso é importante entender a diferença entre pandemias e epidemias. Epidemias são infecções que atingem um número de pessoas acima do esperado em uma população específica. Já a pandemia acontece quando uma infecção se espalha em diferentes populações, em múltiplos continentes ou em ordem mundial. Por exemplo, a pandemia mais antiga já reportada é do ano de 430 a.C, durante a guerra entre Atenas e Esparta – conhecida como guerra do Peloponeso – e atingiu a população da Líbia, Etiópia, Egito, Atenas e Esparta. Suspeita-se que a doença tenha sido a febre tifoide e um dos fatores para a derrota dos atenianos na guerra. Alguns pesquisadores também apontam que a conquista da Europa por Carlos Magno foi adiada por conta de uma epidemia de Influenza que dizimou uma parte do seu exército.

Mas quais foram as epidemias mais marcantes da história? Decidimos descrever 3 delas de acordo com o número de vítimas fatais: Peste negra, Varíola e Influenza de 1918.  

Peste Negra (1347 – 1353)

O crescimento das cidades e da população, a expansão de território e a realização de cruzadas facilitaram a transmissão de doenças. Uma das maiores pandemias do Ocidente foi a Peste Negra. Na Europa ocidental, a peste negra se iniciou na Sicília (Itália) e estima-se que 50 milhões de pessoas tenham sido vítimas, o equivalente a um quarto da população mundial da época.  Mas cabe lembrar que o mundo já experimentou outras epidemias semelhantes que você pode encontrar na Bíblia em Samuel I, versículos V e VI ou a praga de Justiano em 542 a.C. 

A peste negra mais recente era causada por uma bactéria chamada Yersinia pestis, encontrada em pulgas, que além de infectar ratos, também infectava humanos. A doença se manifestou de 3 formas:  (1) Bubônica, causada pela picada da pulga, permitindo que a bactéria atinja o sistema linfático, (2) Septicêmica, quando a pulga deposita a bactéria diretamente no sangue e é uma condição fatal, e a (3) Pneumônica, que é decorrente de uma infecção do bacilo nos pulmões. Esta última forma da doença é transmitida de pessoa para pessoa via gotículas de ar ou através de roupa e objetos contaminados. 

Muitos europeus cristãos acreditavam que a peste negra era uma punição de Deus, e esperavam uma solução vinda da igreja. Os médicos da época não sabiam como tratar a peste, mas a propagação da doença foi contida ao deixar barcos recém chegados atracados no porto por 40 dias antes de serem desembarcados. Por isso o termo quarentena, que no Latim é quadragina e, em italiano, quaranta (40). 

O período da peste negra trouxe alguns benefícios no ponto de vista científico e social. A população pôde ter acesso a trabalhos científicos publicados em sua língua nativa, já que antes eles eram publicados em latim. Isso também permitiu que a prática médica fosse desmistificada. Além disso, os hospitais se tornaram locais mais limpos e as leis de saúde pública foram desenvolvidas.  

Varíola (1977 – 1980)

Acredita – se que o caso mais antigo de varíola ocorreu há mais de 3000 anos atrás, já que múmias apresentam marcas características da doença no rosto, como a múmia de Ramsés V, morto em 1157 a.C. Por isso, é possível que a varíola tenha surgido na Mesopotâmia e se espalhado por países adjacentes.

A varíola, causada por um vírus de mesmo nome da doença, foi uma das mais arrebatadoras pandemias da história. Estima-se que pelo menos 50 milhões de pessoas tenham morrido devido a doença. Naquela época, pessoas saudáveis realizavam uma prática comum de inocular em si mesmas as crostas secas de feridas das pessoas com varíola. A doença era tão assustadora que as pessoas arriscavam a vida para se protegerem.

Além do grande impacto social dessa doença, a varíola também é conhecida por ser a primeira doença erradicada da humanidade e para a qual criamos uma vacina. O Bryan explica aqui (link) como Edward Jenner entendeu como funcionava a infecção viral e desenvolveu a vacina contra a varíola.

A varíola foi erradicada em 1980, mas o vírus ainda é mantido em dois laboratórios, localizados na Rússia e Estados Unidos. 

Influenza (1918 – 1920)

“Um homem foi acometido pela gripe e levado ao hospital. Ele rapidamente desenvolveu uma pneumonia nunca vista antes. Em poucas horas ele morreu. Nós temos em torno de 100 mortes por dia. Estamos perdendo médicos e enfermeiros. Por vários dias não houve caixões e os corpos são empilhados. Um grande quartel foi desocupado para ser usado como necrotério.”

O trecho acima descreve a situação de um soldado americano nos EUA em 1918 e se assemelha ao nosso momento atual. Apesar de incerto, o número de vítimas fatais da Influenza de 1918 foi o maior dentre os episódios de infecção, com mais de 50 milhões de pessoas em óbito. Para termos uma dimensão da fatalidade da doença as zonas de guerra2 atuais apresentaram 800.000 mortes no período de 20 anos.

A Influenza de 1918 tem sido relembrada e muitas vezes comparada com a pandemia de COVID-19. Mas não se engane, elas não são iguais. O episódio de 1918 foi causado por um vírus chamado vírus Influenza H1N1, enquanto o COVID-19 foi causado por outro tipo de vírus, o SARS-CoV2, do grupo dos Beta Coronavírus e essa diferença influencia na gravidade da infecção ou como o vírus pode ser espalhar entre as pessoas. A influenza de 1918, por exemplo, apresentou uma grande letalidade em jovens, enquanto a COVID-19 parece ser mais letal aos idosos.

Um outro mal entendido da Influenza está no nome. Durante o período de 1918, o mundo enfrentava a primeira guerra mundial, no qual a Espanha era um país neutro. Enquanto países como Alemanha, Reino Unido, EUA e França, notificavam a guerra em suas reportagens de jornal, a Espanha divulgada amplamente os casos de influenza. Esse episódio fez com que a Influenza fosse chamada de Gripe Espanhola, como se ela fosse iniciada na Espanha. Apesar de complexo identificar a origem real do vírus, sabe-se que o surto de 1918 apresentou os primeiros casos no Centro Oeste dos EUA. Curiosamente, os EUA eram um dos países céticos quanto a pandemia. John Barry, autor do livro “A Grande gripe: a história da pandemia mais mortal da história”, escreveu em um editorial na revista Nature que autoridades dos EUA afirmavam que a Influenza não era motivo de alarde e o Diretor de saúde pública de Chicago explicou que “É nosso trabalho manter pessoas sem medo. Preocupação mata mais do que a doença.”

Em 1918 não existia vacina (ela foi criada durante a pandemia da varíola, lembra?), então, como ela foi combatida? Para diminuir o número de mortos e de pessoas infectadas, foram utilizadas intervenções não farmacológicas: isolamento social, quarentena, incentivo de uma boa higiene pessoal e uso de desinfetantes. Essas medidas levaram ao fechamento de escolas, teatros e igrejas, assim como a proibição de casamentos e funerais. Como consequência, os países que realizaram essas medidas imediatamente após os primeiros casos reportados foram os que tiveram menor taxa de mortalidade.

Assim como o mundo não estava preparado para as pandemias que apontamos acima, ele não estava preparado para a COVID-19. A falta de uma efetiva política de saúde pública, ceticismo e falta de investimento na ciência continuam sendo os motivos para que chegássemos a situações catastróficas. Mas por outro lado, levantaram alertas ensurdecedores nas áreas de saúde e ciências. No futuro nós estaremos fortalecidos ou prontos para uma nova pandemia? Apenas se essa mentalidade mudar, senão, essa guerra nunca será contra a doença, mas contra a ignorância.


1 Déjà vu: do francês, “Já visto”. Conhecido por uma sensação de algo que já aconteceu e se repete.

2 Locais de guerra consideradas: Afeganistão, Paquistão, Iraque, Síria, Iêmen

Referências:

  • BARRY, John M. Pandemics: avoiding the mistakes of 1918. Nature, v. 459, n. 7245, p. 324–325, 2009.
  • GEDDES, Alasdair M. The history of smallpox. Clinics in Dermatology, v. 24, n. 3, p. 152–157, 2006.
  • HAYS, J. N. The burdens of disease: epidemics and human response in western history. Rev. ed. New Brunswick, N.J: Rutgers University Press, 2009.
  • MATOS, Haroldo José de. A próxima pandemia: estamos preparados? Revista Pan-Amazônica de Saúde, v. 9, n. 3, 2018
  • SHORT, Kirsty R.; KEDZIERSKA, Katherine; VAN DE SANDT, Carolien E. Back to the Future: Lessons Learned From the 1918 Influenza Pandemic. Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, v. 8, p. 343, 2018.
  • TAUBENBERGER, Jeffery K; MORENS, David M. 1918 Influenza: The Mother of All Pandemics. Emerging Infectious Diseases, v. 12, n. 1, p. 8, 2006.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Bugs, drugs & smoke – S M A L L P O X eradicating an ancient courage chapter 1
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Report on Global Surveillance of Epidemic-prone Infectious Diseases., 2000.
  • Learning from SARS: Preparing for the Next Disease Outbreak — Workshop Summary. Washington, D.C.: National Academies Press, 2004. 
  • Direct War Deaths in Major War Zones, Brown University, Novembro 2019. (link)
  • Warren, A. S. Examination of Black Death and Public Health Implications for Today

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