Entre pesadelos e calmaria: como funcionam os sonhos?

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“Nós temos sonhos; não é talvez toda a vida um sonho? Mais precisamente: existe um critério seguro para distinguir sonho e realidade, fantasmas e objetos reais?”                           

Arthur Schopenhauer

Nosso cérebro é certamente uma máquina biológica fantástica. Dividido em dois hemisférios e seis lobos, que são capazes de perceber tudo aquilo em nossa volta: o medo e o prazer, o irreal e o real, o perigo e o alívio. Estamos inclusive falando de sensações, emoções, memorização, fala, audição, visão, olfato, entre outras incríveis capacidades, e tudo isso passando em cem bilhões de neurônios. Para “alguém” tão importante assim, precisamos dedicar muito de nossa energia e suprimentos, não é? Principalmente quando esse personagem de nossas vidas não descansa nem quando nós descansamos, embora você descansar um pouco já faça um grande favor a ele. Estamos falando da parte do dia preferida de muitos de nós: a hora de dormir.

Quando estamos conscientes, no caso, acordados, o lado esquerdo do cérebro processa todos os sinais que o bombardeiam constantemente de nossas experiências rotineiras. Sendo assim, ele censura, racionaliza, nega ou reprime uma grande parte dessas informações que estão entrando e, então, temos a parte de dormir.

Nós passamos, aproximadamente, um terço de nossas vidas dormindo. Desses, 25% é dedicado ao fenômeno conhecido como “movimento rápido dos olhos”, ou movimento REM (do inglês, Rapid Eye Moviment), aquele em que temos os sonhos. Estes sonhos podem ser bons ou ruins e a maior parte deles nós esquecemos. O ciclo de sono tem cerca de noventa minutos, que variam da fase REM para nREM (não REM).

A fase REM está diretamente relacionada à manutenção e melhoria da função dos neurotransmissores, mas também é nela que atua uma importante função cognitiva e emocional do cérebro, o sonho. Nessa hora, surgem vários cenários hipotéticos funcionando como uma “realidade virtual”, projetando alguns dos pensamentos proibidos, fantasiosos ou completamente fora de nexo. Shakespeare dizia que “– não podemos saciar o apetite com a imaginação de um banquete”, e podemos concordar que imagens projetadas não substituem a realidade.  Quando temos lembranças perturbadoras e estamos acordados, anular simplesmente o que vimos é muito difícil, e reprimir pode desestabilizar lá na frente, refletindo inclusive em sonhos, ou melhor, pesadelos. Pesadelos podem ser interpretados como um confrontamento com fatos desagradáveis e perturbadores sobre nós mesmos.  Freud acreditava que essas lembranças perturbadoras são produtos de materiais censurados e abafados por nós durante nossos momentos acordados.

Em um estudo publicado na Nature em 2017, num experimento com participantes para serem acordados ao longo da noite, foi pedido para eles notificarem se sentiram algo e os pesquisadores compararam os relatos dos voluntários com imagens dos momentos em questão passados pelo eletroencefalografia (EEG). Eles notaram que experiências conscientes foram relacionadas à baixa atividade encefálica e a ausência de experiências, com alta atividade. Foi também analisado que a alta comunicação cerebral durante o sono nos faz falar enquanto dormimos.

Durante o sono, podem ocorrer também distúrbios extremamente desconfortáveis, o que conhecemos como “paralisia do sono”, um estado perturbador em que muitas vezes não conseguimos fechar os olhos, nem nos mover ou gritar. É muitas vezes associado com o sentimento de presenças, sensações de toques e visões. Frequentemente, esses momentos desagradáveis são associados à sintomas de uma desordem neurológica chamada narcolepsia, caracterizada por sonolência durante o dia e cataplexia (que é uma perda repentina do tono muscular respondendo a fortes emoções, como a raiva, junto a uma irresistível vontade de dormir), e com isso, também padrões irregulares de sono a noite. Num estudo de 2017, foi verificado que a paralisia do sono está diretamente ligada à estresse, traumas, influências genéticas, personalidade, insônia, uso de drogas, ansiedade e desordens psiquiátricas.

Nós começamos em geral a ter noções de sonho a partir dos 3 a 4 anos de idade, porém crianças menores de três anos não conseguem distinguir traços de memórias, o que resulta no que é chamado de “amnésia infantil”, e a partir dos quatro anos começam a separar imaginação da realidade, mas somente a partir dos nove anos conseguem com certeza discernir um do outro.

Os pesquisadores também informaram que tanto sonhos saudáveis como sonhos perturbadores estão ligados inclusive a maneira de acordar, e que para pessoas que sofrem com estresse grave, um mecanismo que o cérebro faz é a criação de uma “nova realidade” na  qual acontecimentos traumáticos durante o dia são modificados ou integrados aos sonhos.

Mas o que acontece durante nosso sono? Nós fazemos uma série de renovações fisiológicas e celulares no corpo, renovamos nossa pele, descansamos nossos músculos, relaxamos nosso coração, e enquanto acontece todo esse processo, o cérebro foca em áreas mais importantes como a manutenção da memorização (por isso é bom ter uma boa noite de sono antes de realizar uma prova), além de renovar nosso humor e nos deixar mais atenciosos, e todo esse processo depende também de dietas mais reguladas e atividades físicas, e inclusive, uma boa manutenção do sono também está diretamente ligada a Doença de Alzheimer. Essa condição acontece conforme um estudo brasileiro em 2019, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), mostrou que a redução de sono não-REM pode ser um fator de risco para o desenvolvimento do Mal de Alzheimer, devido a flutuações de atividades sinápticas de beta-amiloides (Aβ) – peptídeos cruciais no surgimento do Alzheimer – no fluído intersticial.  Em roedores, foi mostrado que quanto maior o estado de consciência, maior o nível de concentração Aβ. Também são riscos para o desenvolvimento do Alzheimer, a desordem dos ciclos circadianos. Precisamos, então, dormir melhor, e como sugestão deste artigo, seguem algumas coisinhas que podem te ajudar a obter o tão sonhado e gostoso sono com uma noite bem dormida.

  • Faça uma atividade física pela manhã ou pela tarde;
  • Evite bebidas com cafeína à noite;
  • Tenha refeições mais leves no jantar;
  • Crie um local aconchegante para dormir;
  • Diminua a exposição da luz a noite;

Dicas providas pelo Hospital Sírio Libanês, a qual pode ser lida melhor aqui. E a noite, ao usar seu smartphone, o uso de um filtro vermelho na tela ajuda demais. Recomendo muito o uso do Twilight (Android)  e para quem usa iOS, aprenda aqui como habilitar o recursos NightShift. A luz azul emitida pelos dispositivos eletrônicos interferem no seu sono, e com os filtros de luz, você notará uma melhora significativa na hora de dormir.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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