Música: uma herança evolutiva ou uma ferramenta poderosa?

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“Ah, music,” he said, wiping his eyes. “A magic beyond all we do here!” – Albus Dumbledore

É com esta frase do personagem feiticeiro do universo imaginado por J.K. Rowling na sua obra literária de ficção, Harry Potter, que começo por enfatizar um mistério que intrigou o próprio Darwin, ao tentar contemplar na sua teoria da evolução, o prazer que o ser humano sente com a música. 

Da mesma maneira que grande parte do conhecimento possibilitado por Darwin, foi herdado por inúmeras gerações de investigadores e filósofos do comportamento, também esta interrogação permanece como um enigma que motiva muitos dos estudos desta natureza, seja o foco dos mesmos cognitivo, neurobiológico ou filosófico-existencial. Mas nem todos consideram este fenómeno um enigma. Para alguns autores, a resposta é bem clara ainda que – tal como em muitas questões científicas – nem todas as repostas sejam consensuais e isentas de polémica. 

Entre os que se debruçaram sobre esta matéria, e tentaram encontrar uma explicação evolutiva para o facto de muitos seres humanos sentirem um prazer significativo no contacto com a música, e que ao contrário do sexo e da procura de alimento, não é tão intuitivamente fundamentada evolutivamente, poucos são os que não se depararam com a afirmação do famoso psicólogo contemporâneo Steven Pinker, que definiu a música numa palestra no MIT, como sendo um cheesecake auditivo e uma forma de os humanos excitarem estruturas e funcionalidades cerebrais pelo simples facto de serem hedonistas, isto é, geradoras de prazer. Considerando assim – tal como muitos outros autores – o processamento de música (passivo ou activo) como uma exadaptação ou seja, um comportamento que não se tratou de um processo evolutivo essencial para a sobrevivência da espécie humana, não sendo assim uma adaptação, mas sim um fenómeno “parasita” dos mecanismos cerebrais da linguagem e comunicação, estimulando os mesmos mecanismos neuronais e outros afetos tratando-se estes sim de adaptações efetivas e produtos legítimos da evolução. Steven Pinker afirma também, que se a musica desaparecesse das sociedades humanas, a existência da nossa espécie não iria ser comprometida. Daniel Levitin, produtor musical, psicólogo e neurocientista cognitivo, refutou com bastante perspicácia esta posição no seu livro “This is your Brain on Music – the science of an human obsession”. Oliver Sacks no seu livro “Musicophilia” – onde demonstra como o nosso cérebro está claramente dotado para percepcionar e responder a um leque bastante vasto de propriedades sonoras e musicais – refere que o Steven Pinker apesar da sua posição, é um apreciador acérrimo de música, e que muito provavelmente a sua vida seria bastante afetada caso a música desaparecesse por completo, sentindo a sua perda. Não há, claro está, qualquer contradição entre a sua posição e esta possibilidade. 

Se o prazer que sentimos no contacto com a música, é de facto um produto da evolução ou se trata apenas de uma exadaptação, a comunidade científica não é consensual na resposta a esta questão, assim, o objetivo principal deste texto passa apenas por enumerar de forma expositiva várias das razões que nos levam a gostar de música, e não para apresentar uma posição face ao peso que estes fatores possam ter em cada uma das perspetivas defendidas pelos teóricos de ambas as posições. Isso deixo ao critério do leitor, embora como facilmente poderá ser concluído, há variáveis que poderão estar mais associadas a um argumento do que outro. 

Ainda que hajam pessoas que vivam mais intensamente a música que outras, de um modo geral a música está presente em todas as culturas e sociedades humanas, e surge em vestígios arqueológicos que datam os 50 000 mil anos e nenhum ser humano não patológico fica indiferente a uma forma ou outra de música. Os pontos seguintes procuram justificar esta intrigante atração: 

– A música trata-se de som organizado, com uma estrutura inteligível e facilmente percepcionada pelo nosso cérebro. É som com sentido e uma ordem que conseguimos discernir. O facto de nos sentirmos atraídos por uma estrutura, deve-se ao facto de termos evoluído para organizar o universo caótico á nossa volta. Perceber e tentar identificar padrões é algo inato ao ser humano, e tendencialmente a nossa apreciação estética das mais diversas formas de arte e do mundo em geral, assenta na existência ou na perceção de uma estrutura organizada. 

– No que toca à música, trata-se de uma forma estrutural e de uma forma de arte, que se distingue das restantes, pois envolve-nos no tempo. Somos envolvidos ao fazer ou ouvir música, numa percepção contínua e encadeada, numa sequência de sons que isolados não têm nexo, mas que ganham sentido sendo sequenciados. Uma estrutura que se vai revelando ao longo do tempo, põe à prova a nossa capacidade de fazer previsões, e quando acertamos uma previsão, sentimos uma satisfação natural. 

– Gostamos do que gostamos, muitas vezes devido a um equilíbrio afinado entre familiaridade e novidade. Algo demasiado novo, leva algum tempo a ser processado e a ser classificado por nós como algo positivo ou negativo. Algo que nos é familiar e positivo mas que apresenta um ligeiro toque de novidade, surpreende-nos também de forma positiva, e a música trabalha essa gestão de expectativas e novidades enriquecedoras, que vão alargando os nossos esquemas musicais, como apenas é possível talvez na 7ª arte, que por sua vez também conta com a música. 

– A formação de esquemas musicais mais ou menos complexos, vai sendo desenvolvida ao longo da experiência e do contacto de cada um com a música, que pode começar a ser percepcionada até na fase de vida intra-uterina.

– Assim, a música pode ganhar todo um novo significado que vai para além do fenômeno sonoro em si, mas do contexto a que foi associada, podendo ganhar um simbolismo social e uma associação a determinados momentos ou situações. Este fenómeno pode ser enriquecido pelo cinema e pela ficção audiovisual que desde a sua existência cataloga, ambientes, momentos e os sentimentos dos seus intervenientes através da música, sugerindo-nos como devem “soar”. 

– Este trabalho de associação musical a sentimentos e emoções, pode ser explicado pela forte ligação que a música tem com as emoções de forma intrínseca. Na nossa linguagem verbal e comunicação pela via fonética, utilizamos entoações de certa forma musicais, para comunicar o nosso estado emocional. Um fenômeno denominado de prosódia. Há quem defina a música, como a linguagem da emoção, por isso, não seria de surpreender que ao ouvirmos musica, sejam suscitadas emoções ligadas a determinadas melodias. Determinados autores sugerem também que a música tenha antecedido a linguagem como meio de comunicação. As vantagens evolutivas da comunicação e da linguagem, são de facto consensuais entre a comunidade científica. 

 – A música, pode ser também um meio de passar uma mensagem, um conteúdo lírico embebido de inúmeros conceitos e ideias, e ter um significado atribuído. Podemos, atribuir á musica um significado conceptual e simbólico representado interpretações cognitivas que variam de individuo para individuo.

– De certa forma, a música é um mecanismo de expressão e libertação emocional, para o intérprete e para o ouvinte, permitindo uma catarse emocional que poderá revelar-se bastante terapêutica. Muitas vezes ouvimos ou tocamos música para expressarmos determinadas emoções, exacerbando emoções que sentimos em determinado momento, ou até para induzirmos determinadas emoções que queremos sentir ou ambientes que queremos (re)viver. 

  – Um dos fatores musicais bastantes relevantes na nossa experiência musical, e que não foi referido até ao momento, é a forte reação motora que temos com o ritmo que a música transmite. O ritmo é a perceção de duas características do som: o tempo, e a métrica. Contudo, as restantes propriedades do som também são importantes e poderão ajudar a compreender o porquê de reagirmos de forma fisicamente ativa ao som: altura, timbre, reverberação e localização espacial. 

É fácil perceber a importância desta capacidade preceptiva para a preservação da espécie. Conseguir localizar a deslocação de objetos nos espaço, e estarmos a postos para reagir aos mesmos em caso de perigo, é algo crucial para a sobrevivência. Como tal, estamos embutidos de uma capacidade em reagir fisicamente aos sons, sendo que a parte responsável do cérebro para essa coordenação trata-se do cerebelo. O cerebelo para além de estar envolvido na coordenação motora, também é responsável pela perceção do ritmo sonoro e sua cronometria (o som causado pela própria locomoção, serve também como auxiliar neste processo de coordenação motora).

Em última instância, o som é um fenómeno físico (de natureza ondulatória) que interage com o nosso corpo, mas trata-se fundamentalmente de movimento ou da nossa perceção de movimento (partículas de ar agitadas por algum objeto em movimento). E nós reagimos a esse movimento de forma sincronizada, pois significa que calculámos corretamente a estrutura temporal do som e agimos em conformidade. O ritmo, seja ele sonoro ou visual, é na sua essência movimento, portanto é natural pensarmos que a nossa capacidade de percecionar movimento, poderá refletir-se na nossa forma de o executar. Motivados pela fuga a um animal selvagem que se aproxima ou incitados pelos tambores de batalha, o som ritmado incita ao movimento. A nossa sincronização ao percecionar corretamente o ritmo, gera emoção e a emoção leva-nos á ação. 

O ritmo executado pelo corpo, poderá terá sido um dos mecanismos de comunicação do Homo Sapiens muito antes da utilização de fonemas ou vocalizos, tal como a música das sociedades primitivas sugere, dado que começa em primeiro lugar por ser essencialmente rítmica á base de precursão e não muito melódica. 

Esta ligação entre ritmo, emoção e ação poderá ser mais facilmente compreendida, se pensarmos que ritmos mais calmos e prolongados, geram emoções mais tranquilas e logo um menor ímpeto para ação. O oposto também é verdade. 

O ritmo sonoro afeta não só a nossa atividade motora, como mental. A nossa atividade cognitiva está diretamente ligada à atividade física, e como tal, o ritmo sonoro também afeta o ritmo dos nossos pensamentos e o nosso encadeamento cognitivo. Quantos dos leitores não terão aproveitado este mecanismo para realizarem um trabalho mais produtivo, ou até mesmo para aumentar a motivação num treino? Eu por outro lado é ao som da música que escrevo este texto. 

– Graças a mecanismos como os neurónios espelho, responsáveis pela capacidade de empatia que nutrimos por terceiros, ao ouvirmos música, estudos indicam que tendemos a sentir os estados emocionais e rítmicos por detrás da sua composição, replicando os substratos neurais dos compositores.

– Em muitas culturas, não existe distinção entre música e dança, sendo que é inconcebível em muitas culturas que um individuo que saiba cantar… não saiba dançar, sendo a musica e a dança na maior parte das sociedades, uma forma predileta de manifestação de alegria e bem-estar. 

Nestas sociedades, a música, assumia um papel na coesão e coordenação social que seria negligente ignorar. Durante a maior parte da existência humana a música foi uma prática comunitária onde todos os membros da sociedade participavam de igual modo. Só nos últimos 600 anos é que o papel de especialista musical se foi segregando a apenas alguns indivíduos. 

– Nas primeiras sociedades humanas, possivelmente de cariz pré-agrícola, é hipotetizado que a música servisse de uma estratégia de atracão sexual. A capacidade de emocionar o parceiro sexual, a demonstração de robustez física no desempenho musical, a disponibilidade para treinar, preparar música e trabalhar instrumentos musicais poderia ser um indicador de abundância de recursos, não faltando assim, atrativos suficientes para que se tivesse propagado o forte prazer em ouvir música, através de um processo contínuo de seleção sexual. Possibilidade avançada pelo próprio Charles Darwin. Atualmente, é inegável o sucesso sexual da maior parte dos músicos. 

– A música trata-se provavelmente da forma de entretenimento humana mais antiga do mundo, com a sua génese associada ao facto de o Homo Sapiens começar a dispor de tempo livre para criar arte, e os recursos cognitivos para imaginar realidades alternativas (muitas vezes mais agradáveis) com base na sua experiência. A capacidade de imaginar criativamente, em última instância é uma das coisas que nos torna verdadeiramente humanos e nos distingue no reino animal, pois é uma das bases do nosso grau de consciência alargado, e o que nos dota de algum livre arbítrio. 

– A música trata-se de arte que está embutida no nosso corpo. É arte que conseguimos produzir em qualquer lado ou momento, sem estarmos dependentes de objetos externos, embora estes possam enriquecer o processo. Hoje em dia, cada vez mais, é uma forma de arte da qual podemos desfrutar em qualquer lado e momento sendo uma arma de bem-estar bastante poderosa.

– Atualmente na produção musical, a engenharia de som permite a criação de sonoridades e estímulos altamente ricos que excitam os nossos cérebros, como nenhum estímulo natural o poderia fazer. Objetos como os headphones permitem que muitos sintam um verdadeiro êxtase ao ouvir musica, com uma “tridimensionalidade espacial” que permite um estado de consciência super-excitatório. 

– A música muitas vezes é promovida e complementada com outras formas de arte para se tornar conceptualmente mais rica, seja através da artwork de um álbum ou através de um videoclip

– Há muito que é sabido o papel que a emoção tem na memória. Recordamo-nos mais facilmente de memórias que nos marcaram efetivamente, sendo que memória e emoção são dois processos intimamente ligados. Desta forma, ao recordarmos uma estrutura musical, estamos obrigatoriamente a ativar mecanismos mnésicos e por sua vez a ativar mecanismos emotivos subjacentes. 

As músicas são facilmente recordáveis, por terem inúmeras pistas mnésicas e emotivas que facilitam a sua reevocação, o que explica a facilidade com que adquirimos “ear worms” ou alucinações musicais (melodias e certos trechos musicais que perduram na nossa mente durante algum tempo sem razão aparente). Pode-se dizer de uma forma simplista e redutora que emoção é memória e por sua vez música é emoção. 

Esta ligação música, memória e emoção, é utilizada por Daniel Levitin e outros autores, para fazerem a sugestão provocante de que em última instância, foram as capacidades musicais do cérebro, que dotaram o ser humano de capacidades cognitivas estimulando a linguagem, memória e imaginação. 

Após analisar todos os fatores referidos e que poderão justificar a nossa apreciação por música, sendo legítimo afirmar que se trata de uma das características que nos distingue como espécie, será frutífero olhar para as várias implicações que o estudo do tema suscita, e que vão para além do fenómeno musical em si.

Considerando a ligação que a música tem com a linguagem será que outras espécies hipotéticas interplanetárias ao desenvolverem meios de comunicação distintos, também desenvolveriam uma forma de música com base nesses meios? Supondo uma espécie que comunicasse essencialmente por estímulos visuais, produziria música visual? 

Voltando á terra, podemos olhar para um exemplo que nos é mais familiar e perceber até que ponto a comunidade surda congénita alfabetizada em linguagem gestual, pratica ou não, alguma forma de música gestual. 

Quanto a vocês não sei, mas gostando de música como gosto, seria um fenómeno verdadeiramente mágico ver esta forma ou outras formas totalmente novas e diferentes de música.

*este texto foi redigido em português de Portugal de acordo com o novo acordo ortográfico.

 

REFERENCIAS

Damásio, A. (2010). O Livro da Consciência – A construção do cérebro consciente. Círculo de Leitores.

Levitin, D. J. (2007). Uma Paixão Humana – O seu cérebro e a música. Lisboa: Editorial Bizâncio.

Sacks, O. (2008). Musicophilia . New York: Vintage Books.

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