Tudo que você precisa saber sobre vacinas

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Muito tem se falado sobre o desenvolvimento de vacinas devido a COVID-19 (Coronavirus Disease 2019), a doença causada pelo novo coronavírus, SARS-CoV-2, que afetou a vida da população mundial este ano. Junto a todas as preocupações provocadas por essa doença, vemos também o interesse dos governos em alavancar o desenvolvimento de uma vacina e a expectativa da população para cessar todos os problemas causados pela COVID-19. Por isso, o objetivo dessa matéria é esclarecer todas as dúvidas a respeito das vacinas, desde conceitos básicos até as etapas para seu desenvolvimento.

Qual a importância da vacinação?

A vacinação é a melhor maneira de proteger a si mesmo e todos ao seu redor de doenças que poderiam causar milhares de mortes. Muitas doenças deixaram de ser um problema de saúde pública devido a vacinação em massa da população, como a poliomielite, a rubéola e o sarampo que garantiu ao Brasil em 2016 o atestado da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) de primeira região livre de Sarampo do mundo. 

No entanto, essas doenças podem voltar a causar transtornos caso a população deixe de se vacinar, como no Brasil onde o número de casos de sarampo cresceu 18% em 2019. Esse é o principal exemplo do avanço do movimento anti-vacina em nosso país, que já é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um dos dez maiores riscos à saúde global. 

Caso deseje entender mais sobre o movimento antivacina e o surto de sarampo no Brasil sugiro o seguinte conteúdo: ARAUJO, Juan Carlos Silva. O movimento antivacinas e o aumento dos casos de sarampo. 2019. 

O que é vacina?

A vacina é uma preparação biológica que contém um antígeno¹ responsável por garantir a imunogenicidade² a seu organismo a longo prazo. Após a vacina seu corpo conseguirá se proteger (criando anticorpos³) contra o patógeno (microrganismo que tem potencial de causar uma doença) caso entre em contato com ele no futuro, te impedindo de ficar doente. 

1 Antígeno é uma substância capaz de desencadear a produção de anticorpos específicos.

2 Imunogenicidade é a capacidade de uma substância provocar uma resposta imunológica, como a produção de anticorpos para a defesa de algum organismo estranho (patógeno).

3 Anticorpos são proteínas capazes de reconhecer e marcar especificamente antígenos para que eles sejam eliminados pelo sistema imunológico.

 

Esse antígeno pode ser:

  • Patógeno atenuado: O patógeno estará vivo, mas totalmente enfraquecido, ou seja, apesar de vivo não será capaz de desenvolver a doença.  Ex: vacina contra a Poliomielite.
  • Patógeno Inativado: O patógeno estará morto, fragmentado ou alterado com o objetivo de não causar a doença. Ex: vacina contra hepatite A.
  • Microorganismo não patogênico derivado de outro hospedeiro: são utilizados para o controle de doenças causadas por patógenos semelhantes. Ex:Vacina contra a tuberculose.
  • Subunidade do patógeno: uso de estruturas isoladas do patógeno, como proteínas, toxinas, açucares de superfície. Ex: vacina antitetânica.
  • DNA/RNA do patógeno: a informação genética que codifica uma ou mais proteínas do organismo patogênico, ou seja, seu organismo produzirá o antígeno utilizando o DNA adquirido na vacina. Ex: Até o momento há estudos clínicos contra o HIV, hepatites B e C, gripe, entre outros. Para uso veterinário algumas vacinas já foram aprovadas. 
  • Vetor viral4: Utilizam vetores virais que são geneticamente modificados para produzir proteínas do vírus que se quer combater. Ex: Vacina contra o ebola.
  • VLPs (Vacinas de Partículas Semelhantes a Vírus): são compostas por partículas não virais, ou seja, não contém material genético viral e logo não são infecciosas. Ex: Vacina contra o HPV.

4 Vetores virais são vírus manipulados geneticamente, de modo a reduzir a sua patogenicidade, sem anular totalmente o seu poder de infectar as células do hospedeiro.

 

Vacinas podem causar doenças?

As vacinas passam por testes rigorosos de segurança antes de serem disponibilizadas à população, por isso são bastante seguras. Os efeitos adversos (febre, dor no local da injeção) podem acontecer, mas são leves e passageiros. Já os efeitos adversos graves são raros e estão geralmente relacionados a contra indicações como em pacientes com a imunidade enfraquecida devido a terapia que leve a imunossupressão ou pessoas com doenças que deprimem o sistema imunológico. Para esses pacientes é recomendado a utilização de vacinas inativadas ou a imunização passiva. 

Portanto, a vacina em si não pode causar doenças, apenas preveni-las; e reações adversas podem acontecer caso seu sistema imunológico esteja enfraquecido.

Associação de vacinas

A administração de vários agentes imunizantes é uma maneira de baratear os custos envolvidos em seu desenvolvimento e simplificar o atendimento em postos de saúde. É válido ressaltar que a associação não reduz a imunogenicidade das vacinas e não aumentam a gravidade dos efeitos adversos. 

Existem dois tipos de associação de vacinas no Brasil:

  1. Vacinação combinada: Em uma mesma preparação biológica dois ou mais agentes são administrados. Exemplo: vacina tríplice DTP e vacina oral trivalente da poliomielite. 
  2. Vacinação simultânea: duas ou mais vacinas são administradas em diferentes locais ou por diferentes vias em um mesmo atendimento. Exemplo: vacina contra o sarampo por via subcutânea e BCG por via intradérmica.

Vias de administração

  1. Via oral: Geralmente na forma de gotas administradas pela boca essa via é utilizada devido a melhor absorção no trato gastrointestinal. Exemplo: vacina da poliomielite oral. 
  2. Via intramuscular: Para volumes superiores a 1,5 ml de soluções aquosas ou oleosas que necessitem de rápida absorção ou quando o efeito precisa ser imediato. Exemplo: vacina da hepatite B e A. 
  3. Via subcutânea: É utilizado quando a absorção lenta é necessária para obter uma ação contínua. A administração é feita nas camadas subcutâneas de soluções não irritáveis de até 1,5 ml. Exemplo: vacina tríplice viral.
  4. Via intradérmica: A solução é introduzida na derme (camada superficial da derme) para uma absorção lenta do volume máximo de 0,5 ml. Exemplo: BCG.

Outras vias que estão sendo estudadas: intranasal, aerossol (inalatória), transcutânea (aplicação sobre a pele) e retal. 

Desenvolvimento

Seu desenvolvimento é complexo e demorado, constituindo diversas etapas que necessitam de alto investimento. O objetivo de todo o processo é garantir um produto seguro, eficiente e imunogênico, da maneira mais rápida e barata possível. 

Primeira etapa: Pesquisa básica de avaliação e preparação do antígeno (molécula que garantirá a imunogenicidade).

Essa etapa possui um tempo variável porque a avaliação e descoberta do antígeno pode ser feita por diversos laboratórios simultaneamente, então não há um padrão a ser considerado. 

Segunda etapa: Realização dos testes pré-clínicos

Primeiro são realizados testes in vitro, ou seja, testes em sistemas controlados, como por exemplo em células. Em seguida testes in vivo, em animais ou em tecidos. Esses testes são importantes para avaliar a segurança e o potencial imunogênico da vacina. O período de realização desta etapa vai depender do tipo de teste a ser utilizado, principalmente variando devido a escolha dos animais e do tempo de resposta de cada, em média 5 a 7 anos.

Terceira etapa: Ensaios clínicos (testes conduzidos em humanos)

Nesta etapa o tempo requerido para os testes ai depender da quantidade de voluntários de cada fase, do tipo de resposta a ser avaliado, dos trâmites burocráticos, entre outros.  

  • Fase 1: São testes realizados com um menor número de voluntários adultos com o objetivo de avaliar a segurança e a imunogenicidade em humanos. 
  • Fase 2: Consiste em ensaios com um maior número de voluntários adultos a fim de fornecer mais dados a respeito da segurança, imunogenicidade e avaliação da dose. 
  • Fase 3: Estudo em larga escala com o objetivo de avaliar a eficácia da vacina. 
  • Fase 4: Obtenção do registro sanitário (no Brasil, pela ANVISA) e disponibilização da vacina para a população. 

É válido ressaltar que o tempo necessário para a produção das vacinas é bastante variável e vai depender principalmente da tecnologia necessária e dos recursos financeiros disponíveis. 

Vacinas

Imunização passiva

Além da vacina, a imunização passiva também pode ser realizada em casos extremos onde: ainda não há vacina para determinada doença letal, em casos de pacientes imunodeprimidos ou que possuem alguma contra indicação à vacina. Ela consiste na administração de anticorpos previamente formados através de soro, de forma emergencial e passageira. Ou seja, seu organismo não irá entrar em contato com o patógeno atenuado ou inativado para que ele próprio produza a defesa do seu organismo (anticorpos). Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) autorizou estudos clínicos no Brasil para COVID-19. 

Vacinas contra a COVID-19

Devido a pandemia da covid19, muitas vacinas vêm sendo produzidas e novas tecnologias estão surgindo com o objetivo de acelerar o processo e garantir a imunização. Atualmente (agosto/2020), 169 estão em fase de desenvolvimento, 30 em testes clínicos e 6 em fase final. 

Tabela Vacina
Tabela de vacinas contra COVID-19 em fase final

Há duas vacinas em fase pré-clínica sendo desenvolvidas no Brasil: Pela Universidade de São Paulo (USP) com a tecnologia VLP e pela Fundação Oswaldo Cruz em parceria com o Instituto Butantan utilizando vetores virais.

Por fim, é importante ressaltar que o Brasil possui 19 tipos vacinas em seu calendário vacinal e é reconhecido internacionalmente por erradicar doenças como a poliomielite, rubéola congênita e o sarampo. O Sistema Único de saúde (SUS) e o Programa Nacional de Imunização (PNI) são chaves fundamentais deste processo, além do Complexo Tecnológico de Vacinas do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio- Manguinhos/Fiocruz) e  o Instituto Butantan que são os responsáveis pela produção das vacinas essenciais para o calendário básico de imunização do Ministério da Saúde.

 

Referências

BUTANTAN, Instituto. Ensaios clínicos. Disponível em: http://www.butantan.gov.br/pesquisa/ensaios-clinicos. Acesso em: 30 mar. 2020.

CRUZ, Fundação Oswaldo (org.). Vacinas. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/vacinas. Acesso em: 30 mar. 2020.

BALLALAI, F; BRAVO, I. Imunização tudo que você sempre quis saber. 2016. Disponível em: https://sbim.org.br/images/books/imunizacao-tudo-o-que-voce-sempre-quis-saber.pdf. Acesso em: 30 mar. 2020.

FREUND, Alexander. Remédios a partir de anticorpos podem ser arma contra coronavírus. 2020. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/remédios-a-partir-de-anticorpos-podem-ser-arma-contra-coronavírus/a-52810615. Acesso em: 30 mar. 2020.

Diniz, M. de O., Ferreira, L.C. de S., 2010. Biotecnologia aplicada ao desenvolvimento de vacinas. Estud. avançados 24, 19–30.

DRAFT landscape of COVID-19 candidate vaccines – 20 August 2020
https://www.who.int/publications/m/item/draft-landscape-of-covid-19-candidate-vaccines

BRASIL, Anvisa. Nota Técnica No. 19/2020-SEIGSTCO-DIRE1-ANVISA. 03 de abril de 2020

 

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