Como as plantas se defendem?

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Se algum dia você estiver em uma trilha e se deparar com uma serpente, o que você faz? Eu imagino que você vai correr para se afastar dela o máximo possível. Já parou para pensar que quando uma planta encontra um predador, ela não pode correr, como você faria? Ela também não pode “atacar” o predador (dando uma mordida ou um soco, por exemplo) nem se fingir de morta. Então, como as plantas fazem para se defender quando estão sob ataque de predadores? Não é porque as plantas não podem se defender da mesma forma como os animais o fazem que elas são completamente indefesas. Muito pelo contrário!

As plantas possuem uma série de defesas contra predadores, como defesas físicas, químicas e biológicas. Sabe quando você pega uma rosa e se fura em um espinho? Então, você acabou de ter contato com uma das defesas físicas das roseiras. Uma outra defesa física das plantas são aqueles “pelinhos” nas folhas (tricomas). Algumas espécies de planta, inclusive, possuem tricomas que liberam substâncias químicas que podem causar alergias quando em contato com a pele, por exemplo. Além disso, as plantas também podem produzir folhas mais duras, que são mais difíceis de serem consumidas. Essas defesas físicas podem atuar dificultando o acesso ou a digestão e formam a “linha de frente” contra os predadores. Uma linha bastante eficiente! O mais legal das defesas físicas é que elas são permanentes, ou seja, a planta produz a defesa e ela continua lá, mesmo que não tenham predadores no ambiente.

As plantas também podem contar com a defesa química, que inclui a produção de compostos tóxicos, como quinina e nicotina. Quando um herbívoro se alimenta de uma folha com alto teor desses compostos, de modo geral, ele não continua consumindo a folha. É como quando sua vó tenta te oferecer jiló e você cospe, porque tem um gosto muito amargo. Esses compostos podem funcionar de forma similar. Além de terem “gosto ruim”, alguns desses compostos químicos podem afetar o crescimento e desenvolvimento dos herbívoros, enquanto outros podem causar a morte. Existe uma lista gigantesca de compostos químicos que as plantas produzem (como taninos, flavonoides, fenóis) e que são tóxicos para os herbívoros e vários compostos ainda esperando para serem descobertos. O mais legal dessa defesa é que ela pode ser induzida pela herbivoria. Isso significa que a planta não necessariamente produz esse composto tóxico o tempo todo.

É preciso ter em mente que produzir essas coisas têm um custo para a planta: ela poderia gastar energia em crescimento ou em reprodução, por exemplo, ao invés de investir em compostos tóxicos. Assim, as plantas podem aumentar a produção de um composto apenas quando ela “percebe” que está sendo consumida. Isso acontece tanto porque um herbívoro deixa pistas químicas para a planta (como a saliva) ou pistas físicas (ao fazer cortes na folha). Essas pistas indicam para a planta que ela está sendo consumida. Então, ela aumenta a produção de compostos tóxicos como uma forma de se livrar do herbívoro! E calma que não para por aí, alguns desses compostos podem se espalhar no ar (são voláteis) e atuar como uma sinalização para as plantas vizinhas. É como se uma planta estivesse gritando para outra “os inimigos chegaram! Defendam-se!”. As plantas vizinhas, então, respondem a esse grito aumentando a produção de compostos tóxicos (mesmo sem terem sido consumidas).

Além desses dois tipos de defesa, as plantas também podem contar com a “ajuda” de outros insetos para repelir predadores. Algumas espécies de plantas produzem néctar fora da flor (néctar extrafloral), que atrai predadores dos herbívoros (normalmente formigas). Essas formigas, então, caçam os herbívoros que se aproximam da planta (não são aquelas formigas cortadeiras que a gente costuma ver em jardins). E aí é caçar no sentido de se alimentar dos herbívoros mesmo (ou de repelir, em alguns casos). Como o néctar pode atrair diferentes espécies de formigas, que variam em agressividade, esse mecanismo de defesa nem sempre é eficiente para a planta. Algumas espécies de formigas são super agressivas e rapidamente caçam os herbívoros, enquanto outras são menos agressivas e não afastam todos os herbívoros que se aproximam. Isso significa que essa defesa é bastante variável, porque ela depende do nível de agressividade da formiga.

As plantas não são tão indefesas e nem tão “estáticas” assim como elas pareciam, né? Toda vez que você olhar para uma planta, agora, pense nas defesas que ela tem contra predadores. Lembre que ela pode mandar sinais para as plantas vizinhas – e que as plantas vizinhas podem responder a esses sinais. Não é porque as plantas não podem sair correndo, como você faria, que elas ficam lá, paradas, esperando a morte chegar quando um predador se aproxima. Elas possuem várias estratégias de defesa contra predadores, uma mais legal que a outra!

Referências

Mello, M.O. & Silva-Filho, M.C. (2002) Plant-insect interactions: an evolutionary arms-race between two defense mechanisms. Brazilian Journal of Plant Physiology, 14:71-81.

Taiz, L. & Zeiger, E. (2017) Fisiologia vegetal. 6ª ed.

War, A.R., Paulraj, M.G., Ahmad, T., Buhroo, A.A., Hussain, B., Ignacimuthu, S. & Sharma, H.C. (2012) Mechanisms of plant defense against insect herbivores. Plant Signaling & Behavior, 7:1306-1320.

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