Proteção contra a COVID-19? Navios pesqueiros podem ter a resposta

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Realizar experimentos em humanos é um processo complicado e muitas vezes eticamente impossíveis. Dessa maneira, as vezes o acaso é capaz de dar respostas para perguntas experimentais que jamais poderíamos reproduzir num laboratório. Lugares fechados e isolados, como navios e aviões, acabam se tornando excelentes lugares para esses acasos, criando verdadeiros experimentos espontâneos de forma acidental.

Ainda sabemos muito pouco sobre o vírus causador da pandemia de COVID-19, mas modelos animais parecem indicar que quem possui anticorpos neutralizantes ficariam imunizados e protegidos contra a doença, mas isso é muito difícil de mostrar em humanos, por não ser possível realizar os experimentos necessários para tanto.

Porém, acidentalmente ficamos mais próximos dessa resposta, graças ao que aconteceu num navio pesqueiro em Seattle, nos EUA. A COVID-19 acabou sendo levada para o navio e contaminou aproximadamente 85% dos que estavam lá. Esse tipo de navio é daqueles que ficam de 1 a 2 meses no mar e, por causa disso, todo mundo foi testado 1 a 2 dias antes de sair do porto pelo método do PCR e por sorologia. Dos 122 tripulantes, 120 fizeram os testes e deram PCR negativo. Além disso, 6 deles apresentavam anticorpos positivos via sorologia, indicando que provavelmente já haviam sido infectados anteriormente.

Depois de alguns dias no mar, apareceram os primeiros tripulantes com sintomas de COVID-19. Como um dos tripulantes precisou de hospitalização, no dia 18 após a saída, eles aportaram em Seattle novamente. Todos os tripulantes foram testados e, desses 122, agora 101 deram PCR positivo. Além disso, 3 outros deram PCR negativo, mas apresentaram anticorpos nos testes sorológicos posteriores, mostrando que também foram infectados. Sem querer, isso meio que reproduzia um teste para verificar se ter os anticorpos protegia contra a doença, pois 6 já possuíam anticorpos antes de embarcar e foram expostos a circulação de vírus no navio.

Dessas 6 pessoas, eles viram que 3 agora estavam positivas e 3 continuavam negativas no teste do PCR. Isso levanta a pergunta do que seria diferente nessas 3 pessoas que fez com que elas não se contaminassem.

O teste sorológico utilizado antes do embarque procurava por anticorpos para a proteína N, que é uma proteína muito reagente e que aparece rapidamente após o contato com o vírus. Os pesquisadores foram atrás do soro que sobrou desse exame, para buscar o que teria de diferente nesses dois grupos de 3 pessoas. A primeira coisa que foi analisada é se esses soros teriam a capacidade de neutralizar o vírus, incapacitando a ligação da proteína spike com o receptor ACE2. Isso aconteceria se o soro possuísse anticorpos contra a proteína spike. E verificaram que apenas as 3 amostras dos pacientes que não se contaminaram tinham essa capacidade, enquanto que os 3 que se contaminaram não tinha atividade neutralizante.

Ou seja, apenas ter anticorpos não basta, estes tem que ter a capacidade neutralizante sobre a ligação do vírus. Mas esse é apenas mais um pequeno passo no longo caminho de conhecer mais sobre como o nosso sistema imune se comporta ao entrar em contato com o SARS-CoV-2. Precisamos de mais estudos para podermos entender melhor como o nosso sistema imune daria proteção contra o desenvolvimento da doença.

Referências:

Addetia A, et al. Neutralizing antibodies correlate with protection from SARS-CoV-2 in humans during a fishery vessel outbreak with high attack rate. medRxiv 2020.08.13.20173161;

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