Como a neurociência do prazer explica a teoria do vício?

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Quanto maior é a sede, maior é o prazer em satisfazê-la.”

Dante Alighieri

Já parou para pensar quantos pequenos momentos de prazer temos em nossas rotinas diárias, do acordar ao dormir? Ver e beijar aquela pessoa que você tem atração, beber uma água bem geladinha quando você acabou de se exercitar, o aviso do seu banco falando que seu salário caiu na conta, aquele chocolate que você tava com tanta vontade de comer. E então você pode estar se perguntando: como sentimos esse prazer e quem “traduz” para nós essa sensação?

Além disso, temos o córtex, uma fina camada da substância cinzenta que recobre o cérebro, tem uma influência fortíssima sobre “querer coisas”. Uma das mais importantes regiões do Sistema Nervoso Central (SNC), que recebe impulsos de todas as vias da sensibilidade e interpreta a resposta de todas essas informações. 

Já que falamos do córtex, vamos falar dos nossos desejos? 

Afinal, a todo tempo nós estamos buscando algo. Queremos coisas que nós gostamos e gostamos das coisas que queremos. Em 1993, Robinson e Berridge, dois neurocientistas da Universidade do Michigan, cunharam a “teoria do vício”, e disseram que o cérebro possui dois sistemas distintos, sendo um responsável pelo “prazer”, enquanto o outro é pelo “querer”, ao qual eles os chamaram de “saliência do incentivo”. Enquanto o “querer” se refere ao estado consciente, o “gostar” é o estado de sentir o prazer

Para ilustrar isso um pouco melhor, pense por um minuto na sua comida favorita: na aparência, textura, gosto e cheiro desta refeição. Quando você come o que você pensou, o “gostar” é justamente o impacto afetivo que você tem do “querer” que você tanto estava desejando. 

E olha que curioso: você já parou para pensar que quando você passa mal por conta de determinada comida, você quase que automaticamente irá passar a não gostar dela, mas uma comida ou bebida que você não gostava, e com o tempo devido ao seu círculo ou hábitos, você pode passar a gostar? Um exemplo é a cerveja e o café. Você gostava de café quando criança? Não pense só no café em si, considere balas, misturas de bebidas que levam café e etc. E agora, você gosta? 

Sem Título
Reprodução: NUTE/UFSC (2016)

Você tem uma mania constante de consumir bebidas ou alimentos altamente açucarados? Ou talvez uma comida que você sinta melhor o sal? Também, talvez, o hábito de fumar? Se pergunte por quanto tempo você iria conseguir ficar sem fazer o que justamente faz automaticamente ou diariamente. E se você já fez isso, sofreu com dores de cabeça? E caso seja sim a sua resposta para a pergunta anterior, quando você obteve o que sentia falta, a dor de cabeça passou? 

Embora as influências do córtex sejam responsáveis por processos cognitivos que usamos de forma consciente determinando nosso comportamento, esse processamento é uma soma evolucionária recente ao nosso comportamento

Além de nossas intenções de sanar a nossa vontade de querer, para assim receber a recompensa por trás disso, o prazer atua como um componente fundamental para o ser humano, e muitas vezes podemos tê-lo de forma subconsciente

Há diversos artigos na literatura mostrando que o uso de drogas ilícitas e até mesmo estímulos naturais como comer, beber, ouvir música e fazer sexo são reconhecidos pelo organismo como prazer, que são enviadas sob forma de substâncias químicas a serem recebidas pelos neurotransmissores para serem usadas como comunicação entre os neurônios, carregando uma mensagem de recompensa, como a dopamina, que alivia dores e regula emoções, junto a serotonina e noradrenalina – que regulam o apetite, o humor e o sono, e o glutamato, que possui função excitatória, formam alguns dos responsáveis que estão presentes no sistema de recompensa. Desde aquele cafezinho diário ao consumo de doces, incluindo o orgasmo quando atingido no sexo e a adrenalina provocada por drogas estimulantes podem ser compreendidas como prazer.  

Em uma polêmica questão, levantada num estudo de 2007, reforçado em outro estudo de 2018,  comparando o “poder de recompensa” entre substâncias ilícitas (como a cocaína) ao açúcar refinado (sacarose, frutose e etc.), por exemplo, foi visto que o açúcar pode causar sensações de recompensas de mesmo nível ou até maior que o da cocaína. 

Fica como sugestão de leitura adicional o livro “Social: why our brains are wired to connect” (em tradução livre: “sociável: porque nossos cérebros são conectáveis”), que fala sobre como nós humanos somos também necessitados por sociabilidade e como isso impacta nosso cérebro nos âmbitos do prazer, comportamento, sentimentos, influências, dentre outros fatores que nos fazem expressar tudo que você leu até aqui. 

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