Entre versos, rimas e agricultura: Falando de ciência com RAP

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Desde que surgiu, seja na Jamaica na década de 1960 ou nos bairros negros de Nova York na década de 1970 [1], o rap é identificado com as letras de cunho social e retrato da realidade periférica de diversos países. Com mais espaço na mídia e expoentes como Emicida, Criolo e os Racionais MC’s, o rap, através de suas letras, pode nos fazer viajar por diferentes temáticas além das identificadas ao estilo musical. Para começar a entender mais sobre isso coloque em alto e bom som a faixa “Chuva Ácida” do rapper brasileiro Criolo. 

“Chuva ácida será bem pior que o lançamento de um míssil”

Nesta faixa, Criolo faz uma crítica aos impactos ambientais causados pelo Homem ao meio-ambiente. Em uma versão mais recente, um trecho cita os crimes ambientais da Vale ocorridos em Mariana – MG. E em outra parte da música, Criolo canta: 

“Nos cafezais, milharais, a praga dominando a colheita”. 

Um fato recente se liga à este trecho: a nuvem de gafanhotos que assustou produtores na Argentina, Uruguai e sul do Brasil. O que é importante destacar aqui é que a grande proliferação destes insetos, e de outras pragas, ocorre, entre outros fatores, devido às más práticas realizadas na agricultura como: desmatamento, alteração do ciclo de produção das culturas, diminuição de predadores naturais, entre outros. Tais práticas agrícolas, como as queimadas, e também as pastagens degradadas colaboram com maiores emissões de gases do efeito estufa contribuindo para o aquecimento global, que por sua vez favorece a maior reprodução de gafanhotos. 

Entretanto há outros caminhos

Uma inovação de plantio desenvolvida pela EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) contribui para a quebra do ciclo de reprodução e favorece o controle de pragas, é a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) [2]. De maneira resumida a ILPF é: o plantio de culturas florestais, pastagem e culturas anuais (milho, soja, feijão etc.) em uma mesma área de forma rotacionada. Esta rotação e variação de cultivos, entre outras práticas, contribuem para quebra dos ciclos de reprodução das pragas e sua consequente diminuição. 

Mas, você também pode pensar: “Não é mais fácil só tacar veneno nestes insetos e resolver o problema?”. Aí precisamos lembrar de Darwin e da seleção natural: o veneno em excesso selecionará os insetos mais resistentes [3] que passarão estes genes aos seus descendentes e assim cada vez menos o pesticida terá efeito. Mas, há uma maneira de identificar mais precisamente,e logo no ínicio, áreas com infestação e assim aplicar menor quantidade de veneno. Para entender isto mude a faixa musical para a música “Hino ao Sol” do rapper Diomedes Chinaski.

“Sobre os campos, suspenso sobre os oceanos” 

Este rapper, Diomedes, em suas músicas faz diversas referências aos alquimistas e poderíamos ficar horas falando sobre como esta prática (alquimia) deu origem à nossa ciência moderna. Mas, para o objetivo do nosso texto vejam este trecho da música em que ele “homenageia” o Sol: 

“Tudo vem de ti, de ti emanam as cores”

A luz, que vêm do sol até nós, é uma onda eletromagnética [4] composta por diversos comprimentos de onda. Há aqueles que são visíveis aos nossos olhos, e de onde “emanam” as cores como DIomedes canta na música. Mas, também há comprimentos de onda que não enxergamos, como o infravermelho. Todos estes comprimentos, do visível ao não-visível, ao serem refletidos (ou absorvidos) podem nos dar informações sobre a saúde das plantas. Uma planta saudável absorve no comprimento de onda do azul e vermelho, refletindo bastante nos comprimentos do infravermelho e do verde (por isso, enxergamos as plantas na cor verde). Se algo ocorre, como um ataque de pragas, esse comportamento da planta se altera e assim é possível identificar que ela tem algum problema. Assim, avaliando imagens captadas por satélites ou drones, é possível determinar mais precisamente onde as pragas se localizam em uma lavoura quando a planta passa a absorver mais no comprimento do infravermelho, por exemplo, do que uma planta saudável. Ao invés de aplicar veneno em toda a lavoura, o que causaria contaminação e resistência dos insetos, a aplicação poderia ser localizada e controlada, apenas no local identificado da contaminação. Isso contribui para diminuir o uso de produtos químicos e o impacto do cultivo agrícola ao meio-ambiente.  

Uma vez Sabotage cantou que o rap é compromisso não é viagem, mas sem contrariar o Mestre, rap pode ser viagem sim. Uma viagem que nos leva das lavouras ao sol. E pode servir como introdução à discussão de temas como o meio-ambiente, a agricultura e a ciência.

REFERÊNCIAS

[1] https://jornal.usp.br/cultura/radio-usp-conta-a-historia-do-rap/

[2] VILELA, L.; MARTHA JÚNIOR, G.B.; MARCHÃO, R.L.; GUIMARÃES JÚNIOR, R.; BARIONI, L.G.; BARCELLOS, A. de O. Integração lavoura-pecuária. In: FALEIRO, F.G.; FARIAS NETO, A.L. de (Ed.). Savanas: desafios e estratégias para o equilíbrio entre sociedade, agronegócio e recursos naturais. Planaltina: Embrapa Cerrados; Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2008. p.931-962.

[3] https://super.abril.com.br/ciencia/entenda-de-uma-vez-o-que-e-selecao-natural/

[4] SCARINCI, Anne L.; MARINELI, Fábio. O modelo ondulatório da luz como ferramenta para explicar as causas da cor. Rev. Bras. Ensino Fís., São Paulo , v. 36, n. 1, p. 1-14, Mar. 2014 .

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