O fenômeno da pós-verdade e suas implicações na percepção pública da ciência

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Este texto foi escrito com colaboração de Marcia Garcia, física e doutoranda em Educação em Ciências e Saúde (UFRJ).

No livro “Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news”, o autor Matthew D’ancona afirma estarmos vivendo a “era da pós-verdade”, um período iniciado em 2016, a partir da saída do Reino Unido da União Européia (Brexit) e a candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

Apesar do termo pós-verdade já existir em um ensaio lançado pelo dramaturgo Steve Tesich, publicado na revista The Nation em 1992, sobre a Guerra do Golfo, o mesmo só ganhou visibilidade de fato no contexto desses dois eventos, quando foi, inclusive, eleita como a palavra do ano. Segundo o dicionário de Oxford o termo pós-verdade  está “relacionado a uma situação em que as pessoas são mais propensas a aceitar um argumento baseado em suas emoções e crenças, em vez de um baseado em fatos”.

Mas, em que contextos esses eventos se desenvolveram para os relacionarmos com a pós-verdade? 

Começando pelas eleições presidenciais estadunidenses, tendo Donald Trump como um dos candidatos sob o slogan “Tornar a América novamente grande”, o empresário e agora político utilizou uma campanha fortemente digitalizada. Sua estratégia era disseminar em larga escala notícias falsas – as fake news – por meio das mídias sociais, as quais envolviam as eleições, os candidatos e falsos apoios políticos. O site PolitiFact, que checa informações, apontou que 69% das declarações de Trump no período eleitoral foram “predominantemente falsas”, “falsas” ou “mentirosas”.

O Brexit ou British exit (saída britânica, na tradução literal), trata-se da decisão do Reino Unido de sair da União Europeia (UE). Para que essa decisão fosse tomada, já que acarretava impactos políticos e econômicos relevantes, cidadãos do Reino Unido participaram de um plebiscito em que podiam decidir, permanecer, em sair do bloco econômico. A questão é que tal plebiscito foi configurado com a disseminação de informações imprecisas, sobretudo, pela campanha que apoiava a saída britânica do bloco. Os slogans utilizados nesta campanha foram comprovadamente identificados como enganosos ou não verdadeiros.

Então, nos deparamos com situações políticas que envolveram a disseminação desenfreada de fake news. Nos dois casos, a internet foi utilizada como veículo de propagação dessas notícias devido à rapidez e ao alto fator de alcance das informações. O aumento significativo das notícias impactou diretamente a opinião pública, onde as propagandas político-partidárias estavam travestidas de informação. Essa estratégia vem sendo comumente utilizada no meio político com o intuito de apelar às emoções e às crenças de seus eleitores por meio da divulgação de informações, leia-se propagandas, mesmo que não condizentes com a verdade. Daí, o motivo de estarmos vivendo a “era da pós-verdade”, um momento ao qual a cultura de favorecer conhecimentos empíricos (emoções, crenças, valores pessoais) está sobrepondo o conhecimento científico, ou seja, os fatos. 

E como fica a ciência em tempos de pós-verdade?

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Estamos passando por momentos de crise de credibilidade nas mais variadas instituições que compõem a sociedade, desde os veículos de comunicação até a ciência. O surgimento de notícias que questionam o conhecimento científico estão cada vez mais comuns, onde fatos apresentados por essa comunidade são questionados, recontextualizados ou até mesmo modificados por determinados grupos sociais, vide o caso do movimento dos terraplanistas.

Questionar a ciência faz parte do próprio processo de construção do conhecimento científico. É importante entendermos que a ciência não é constituída de verdades absolutas e inquestionáveis, muito pelo contrário, o que a torna, de certo modo, confiável é a sua busca contínua pela melhora e aperfeiçoamento de seus conhecimentos. Ou seja, as verdades científicas não são definitivas, seu conhecimento está em constante processo de evolução.

Entretanto, para que um determinado conhecimento seja questionado, ele necessita passar por um processo rígido de estudo, fundamentado em teorias, respeitando um método pré-determinado de coleta e análise de dados. Não é simplesmente questionar ou invalidar um conhecimento científico, para isso é necessário prová-lo errado, falso ou incompleto, utilizando-se de outras observações, testes e teorias tão abrangentes e rígidas quanto o estudo original. 

O problema é que na “era da pós-verdade” muitas informações são colocadas em circulação de forma intencional com o objetivo de descredibilizar instituições e teorias já consolidadas, misturando saberes científicos e do senso comum em suas narrativas, abarcando, geralmente, propósitos econômicos e/ou políticos por trás da sua disseminação. 

E todo esse processo dificulta a divulgação e entendimento de informações precisas e importantes advindas da ciência. Podemos exemplificar com a pandemia da COVID-19, ao qual uma enxurrada de notícias falsas que desqualificavam e questionavam conhecimentos científicos foram postas em circulação, causando a desinformação da população e, consequentemente, dificultando as medidas de cuidado e prevenção da contaminação pelo vírus.

Devido à circulação dessas notícias (falsas, errôneas e imprecisas), a percepção pública da ciência ficou comprometida. A ciência, o cientista e as instituições que constroem esse conhecimento estão, em grande maioria, descredibilizados. Isso é reflexo, justamente, da falta de alinhamento das percepções das pessoas com os fatos, criando realidades alternativas em que se observa a distorção dos acontecimentos pelo modo como a leitura deles vêm sendo realizada pela população.

Considerando o modo como a ciência é afetada pelo fenômeno da pós-verdade e que a discussão da perda de credibilidade vai além da apuração dos fatos, observa-se a relevância do diálogo com outras áreas de conhecimento, tendo em vista os diferentes fatores políticos, econômicos e culturais que precisam ser debatidos conjuntamente com a ciência para combater as estratégias adotadas na contemporaneidade com fins de manipulação. 

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