HTLV-1: um vírus causador de câncer

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Muitos aspectos estão envolvidos no desenvolvimento de câncer: fatores ambientais, como a exposição a componentes que danificam o material genético, fatores genéticos e doenças infecciosas. Atualmente, sabe-se que alguns agentes infecciosos, como bactérias e vírus, também apresentam um papel no desenvolvimento de diversos tipos de câncer. Estima-se que aproximadamente 12% dos casos mundiais de câncer sejam causados por oncovírus, ou seja, vírus causadores de câncer.

Para que um vírus possa se multiplicar e sobreviver, é necessário que ele invada uma célula viva e utilize sua maquinaria para se multiplicar. Para isso, alguns vírus inserem seu material genético ao da célula hospedeira, podendo afetar genes dessa célula a ponto de transformá-la em uma célula cancerígena. Isso ocorre porque os vírus empregam diversas estratégias que têm impacto no funcionamento das células do hospedeiro. Como exemplo dessas estratégias, é possível citar que vírus oncogênicos podem subverter mecanismos que auxiliam no controle do crescimento celular e também podem promover o surgimento de mutações ou deleções de genes que controlam o aparecimento de tumores, os chamados genes supressores de tumor. Todos esses fatores podem, em longo prazo, induzir o desenvolvimento de câncer em um indivíduo infectado. Alguns dos vírus com potencial carcinogênico mais conhecidos são:

  • Papilomavírus humano (HPV), capaz de causar carcinoma cervical;
  • Herpesvírus humano tipo 8 (HHV8), causador de sarcoma de Kaposi;
  • Vírus Epstein-Barr, capaz de causar linfoma de Burkitt, linfoma de Hodgikin e carcinoma de nasofaringe;
  • Vírus da hepatite B (HBV) e hepatite C (HCV), capazes de causar hepatocarcinoma;
  • Vírus Linfotrópico de Células T Humanas do Tipo 1 (HTLV-1), causador de Leucemia/Linfoma de Células T do Adulto, e sobre o qual entraremos em maiores detalhes.

Qual a possibilidade de um vírus causador de leucemia ser transmitido pela amamentação?

Foto: Manojiit Tamen/Pixabay

Como a prevalência de cânceres associados a infecções por vírus é alta, para diminuir o número de casos é importante também que sejam adotadas medidas para diminuir a disseminação dos vírus a eles associados.

A descoberta do primeiro retrovírus humano – vírus cujo material genético é codificado em uma molécula de RNA – com capacidade de causar câncer aconteceu há 41 anos. Foi em 1979 que Dr. Robert Gallo e seu grupo de pesquisa isolaram e identificaram o Vírus Linfotrópico de Células T Humanas do Tipo 1 (HTLV-1) a partir de uma amostra de um paciente portador de linfoma cutâneo de células T. Esse foi o marco inicial do estudo dos retrovírus causadores de cânceres em humanos.

Mundialmente, estima-se que mais de 10 milhões de pessoas estejam infectadas por HTLV-1. A distribuição do vírus acontece com maior intensidade na África, Japão, Caribe e América do Sul. No Brasil, país com o maior número absoluto de casos, calcula-se que haja de 700 mil a 2 milhões de indivíduos infectados por HTLV-1.

Grande parte dos infectados não desenvolvem sintomas e são classificados como assintomáticos, mas são capazes de transmitir o vírus. Parte dos indivíduos infectados desenvolvem doenças com alta morbidade e mortalidade: Mielopatia associada ao HTLV-1/Paraparesia Espástica Tropical (HAM/TSP), que causa degeneração gradual da medula espinhal e leva os pacientes a depender de cadeiras de rodas; e Leucemia/Linfoma de Células T do Adulto (ATLL), que se trata de uma forma agressiva de câncer. Infelizmente, o tratamento para as doenças induzidas pelo HTLV-1 ainda é limitado.

O HTLV-1 pode ser transmitido por relações sexuais, por contato com sangue infectado através de materiais contaminados, transfusão sanguínea ou transplante de órgãos, chamada de formas horizontais de transmissão. Além disso, a transmissão também pode ocorrer de forma vertical, ou seja, de mãe para filho. Essa transmissão pode ser por via intrauterina, durante o trabalho de parto ou através do aleitamento materno. Dentre essas formas de transmissão, a amamentação representa uma importante via, pois há uma carga considerável de células infectadas presentes no leite materno. E, cerca de 25% dos bebês amamentados por mães infectadas adquirem a infecção.

Apesar dos anos decorridos desde a descoberta do HTLV-1, a grande maioria da população ignora a existência deste vírus e as doenças relacionadas a ele, incluindo a Leucemia/Linfoma de células T do Adulto, uma doença agressiva, com baixos índices de sobrevida e poucas opções de tratamento. O surgimento desse tipo de leucemia acontece quando os linfócitos T infectados se transformam por um processo chamado de carcinogênese, que nada mais é do que uma mudança nas características originais das células. As células cancerígenas se multiplicam rapidamente, perdem o controle de detectar defeitos e de entrar em morte celular programada, um mecanismo de morte que não leva a dano tecidual. 

Um passo importante para combater a transmissão contínua de HTLV-1 é determinar se mulheres grávidas estão infectadas. Diferentemente do que ocorre para o HIV-1 e outras infecções, como sífilis e hepatites, o diagnóstico para HTLV-1 não é obrigatório durante o pré-natal. Tal abordagem tem um impacto muito grande, visto que a transmissão de mãe para filho está entre as formas mais prevalentes de transmissão. Com a aplicação de estratégias para a identificação da infecção por HTLV-1 durante o pré-natal ,  orientação correta e acompanhamento de mães HTLV-1 positivas, seríamos capazes de diminuir a prevalência de HTLV-1 e, como consequência, os casos de doenças associadas à infecção.

Para que essa infecção não seja mais negligenciada, todo dia 10 de novembro é comemorado o dia Mundial do HTLV!


Matéria escrita por Giovanna Perez Mello (Graduanda em Ciências Biológicas – Microbiologia e Imunologia), Marcelle Gonçalves (Graduanda em Ciências Biológicas – Microbiologia e Imunologia), Jennifer Muller (Graduanda em Ciências Biológicas – Biotecnologia) e Juliana Echevarria Lima (Professora Associada do Departamento de Imunologia do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, UFRJ).

1 thought on “HTLV-1: um vírus causador de câncer

  1. Muito boa esse artigo escrito pelas cientistas. Como vivemos no país da desinformação (que acabou sendo potencializada com o surgimento das redes sociais) , ler uma matéria dessa importantíssima (e, por sinal, muita rica em detalhes) faz com que tenhamos esperança de um dia conseguir prevenir (e por que não erradicar?) uma série de doenças que são, muitas das vezes, causadas e/ou disseminadas pelos próprios seres humanos.

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