Cientista como divulgador científico

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Com muitas incertezas e novas pesquisas saindo praticamente todo dia sobre o novo coronavírus, a sociedade sentiu a necessidade de trazer os pesquisadores e médicos para os noticiários diários, sendo os atores principais da comunicação sobre a pandemia de COVID-19 em horário nobre e de forma constante. Porém, muitos dos microbiologistas, imunologistas, virologistas, biólogos e médicos que estão aparecendo na televisão e em lives já eram atuantes na divulgação científica anteriormente, apenas em mídias diferentes.

Por mais que alguns possam achar que a divulgação científica e a cobertura de ciência na mídia sejam realizadas apenas por jornalistas e comunicadores que cobrem a área, diversos cientistas atuam na cobertura de ciência há algum tempo e ocupam esses espaços desde o século passado, pelo menos.

Falando no contexto brasileiro, temos diversos exemplos de cientistas que se enveredaram para a comunicação, jornalismo científico e divulgação científica. Se a gente voltar para 1923, no Rio de Janeiro, quando a primeira rádio do Brasil foi ao ar, vamos ver que não foi fundada pelo governo brasileiro, mas, sim, por um grupo de cientistas e intelectuais dentro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), fundada alguns anos antes. O geógrafo Henrique Morize, presidente da ABC na época, e o antropólogo Edgard Roquette-Pinto foram os responsáveis pela fundação da Rádio Sociedade, atual Rádio MEC. Roquette-Pinto foi o primeiro diretor da Rádio Sociedade e, anos mais tarde, foi um dos diretores do Museu Nacional.

Rádio Sociedade, na Academia Brasileira de Ciências. Foto: Projeto Memória da Rádio Sociedade.

Pulando mais para o presente, temos a presença de José Reis, médico e microbiologista, que logo conciliou sua vida acadêmica com a de divulgador da ciência e jornalista científico. José Reis foi um dos fundadores e editor da revista Ciência e Cultura da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), hoje sob coordenação do LabJor – Laboratório Avançado de Estudos em Jornalismo, da Unicamp. Na área de jornalismo científico, ele colaborou com a Folha de São Paulo por 55 anos, só parando em 2002, quando faleceu. Em vida, criou diversas feiras, clubes de ciências e premiações para incentivar a carreira científica em jovens. Seu legado é tão importante para a divulgação científica brasileira que o CNPq criou, em 1978, uma premiação para divulgação científica com o seu nome, Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica.

José Reis em vários momentos de sua vida. Foto: Acervo José Reis/Fiocruz.

Cientistas membros da SBPC, em 1982, criaram a revista Ciência Hoje e posteriormente a revista Ciência Hoje das Crianças, que continuam até os dias atuais em versão impressa e digital. Os primeiros editores da revista foram os biólogos Darcy Fountoura e Roberto Lent e os físicos Alberto Passos Guimarães e Ennio Candotti, membros da SBPC. Atualmente, a redação da revista Ciência Hoje é ocupada tanto por cientistas quanto jornalistas, que trabalham em conjunto para entregar uma revista de divulgação científica de qualidade.

Edições da revista Ciência Hoje de 2020

Como podemos ver com esses poucos exemplos, os cientistas sempre ocuparam alguns dos diversos espaços de conversa entre ciência e sociedade. Além de rádios, jornais e revistas, também temos exemplos de cientistas atuando na televisão, blog, canais de YouTube e em diversas redes sociais. Hoje em dia, fica mais fácil perceber a quantidade de cientistas que querem realizar essa comunicação com a população e fazer divulgação científica de forma mais sistematizada. E, assim, temos exemplos como o Átila Iamarino, o Pirulla, a Nina da Hora, a Camila Laranjeira e Virgínia Mota do Canal Peixe Babel e diversos outros pesquisadores e pesquisadoras que estão dividindo seu tempo de pesquisa para fazer divulgação científica, uma vez que são raros aqueles cientistas que passam a dedicar-se 100% para as atividades de divulgação científica.

Dificuldades atuais dos cientistas na comunicação

Apesar de diversos cientistas ocuparem esses espaços, ainda é um desafio para o cientista começar a atuar como divulgador científico. No meu ponto de vista, a principal dificuldade é a falta de formação na área de comunicação, mas claro, existem diversas outras, como poucas iniciativas de apoio institucional e o estigma entre outros cientistas que enxergam a prática de divulgação científica como desvio do “foco principal”: pesquisar e publicar.

Hoje, a maioria dos cursos que formam cientistas, formam apenas cientistas. Encontramos algumas instituições que são ponto fora dessa curva, como o curso onde me formei, no Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, na UFRJ. Atualmente, o curso de graduação tem uma disciplina eletiva com conteúdo teórico e prático de divulgação científica, sem contar as atividades de extensão universitária que podem ser um grande tubo de ensaio e acabam estimulando diversos alunos. Falo isso sobre as extensões universitárias com segurança, pois foi assim que funcionou para mim.

Enquanto eu estava na graduação, essa disciplina ainda não existia. Foi minha coorientadora da época, a Fernanda Abreu, que organizou a disciplina depois que comecei o mestrado em Divulgação das Ciências, Tecnologia e Saúde na Fiocruz. Ela percebeu que a falta de formação, nem que seja curto e resumido, limitava as opções dos alunos e, assim, ela oferece a disciplina eletiva até hoje no instituto. Eu também percebo essa necessidade de preparo quando se fala sobre o aluno com formação em pesquisa de laboratório ir trabalhar na indústria, ir para o mercado de trabalho, porque, na formação científica, a maioria dos alunos enxergam o mestrado e doutorado como uma sequência normal e obrigatória da sua carreira, se espelhando em seus professores e orientadores. São poucos os que enxergam a existência de outras possibilidades.

Caso nós, cientistas, continuemos sem o mínimo de formação para comunicação, cairemos na falácia de achar que somos os detentores da informação científica e que precisamos simplificar e levar essa informação para todos e todas. Como diz o Yurij Castelfranchi, “Esta é uma imagem heroica, e reduzida, do jornalista científico ou do divulgador”1. E essa imagem, que era comum até a década de 1980, ainda paira sobre o imaginário de algumas pessoas, principalmente iniciantes na divulgação científica. Na Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia, essa imagem que a população não sabe ou não entende determinado assunto e quem entende deve levar o conhecimento é chamado de “modelo de déficit”2, uma forma unidirecional e autoritária de transmissão de conhecimento. E aqui eu cito novamente o Yurij, que conta sobre o ser jornalista científico e que também se aplica ao divulgador:

“Além de fatos, acontecimentos, descobertas, invenções, deve saber contar, explicar, contextualizar as hipóteses, as teorias, os debates, as dúvidas. Junto com dados, noções, termos, deve saber lidar com estórias e personagens, e com a história, a filosofia, a sociologia das ciências. Deve saber mostrar, indagar e comentar não só as ideias científicas, mas também os métodos e os processos da ciência. E, além disso, o jornalista científico não pode abrir mão de sua responsabilidade.”

Yurij Castelfranchi, 2007.

Na passagem acima, Yurij está descrevendo o jornalismo científico – e a divulgação científica – na prática, e eu penso muito como ele sobre o que é a divulgação científica. Mas se agora eu penso assim, foi após começar a estudar a área. Antes eu tinha essa visão que discutimos, que comunicar ciência era traduzir e simplificar informações e conceitos para o público totalmente leigo.

Estamos chegando ao fim dessa primeira coluna – que pretendo manter quinzenalmente – e gostaria que lembrassem de duas coisas: A presença do cientista nas mídias, conversando com o público, não é totalmente novidade. Entretanto, o que estamos vendo em 2020, com cientistas ocupando as mídias tradicionais e tirando as dúvidas sobre COVID-19 ao vivo, apresentando suas pesquisas e novos achados sobre o SARS-CoV-2 em horário nobre, ao meu ver, é algo novo e pode significar uma virada nessa relação e no posicionamento do cientista como ator principal da comunicação. E a segunda coisa: se você é aluno de ensino médio, graduação, pós-graduação, pesquisador iniciante ou experiente e quer iniciar na prática de divulgação científica, estude, seja por conta própria, em cursos, especializações ou mestrado, estude a área que você pretende atuar. Por fim, indico o curso online e gratuito de introdução à Divulgação Científica da Fiocruz para aqueles que querem iniciar esses estudos. O curso tem um foco voltado para a prática na escrita, audiovisual, redes sociais e eventos presenciais, vale a pena.

Capa: Maria Letícia Bonatelli no SoapBox Science Brasil, evento internacional de divulgação científica para cientistas mulheres, em 2019. Foto: Sidcley Lyra/A Ciência Explica.


Referências

  1. 2007. Yurij Castelfranchi. Para além da tradução: o jornalismo científico crítico na teoria e na prática.
  2.  2003. Bruce Lewenstein. Models of public communication of science and technology.

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