Como o novo Coronavírus age em nosso corpo?

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Matéria da Biomédica, virologista que gerencia o @dotoevirose e Mestre em Ciências, Natália Maria Lanzarini. A Nat, como é chamada, faz Doutorado em Saúde Pública e Meio Ambiente na Fiocruz e está no doutorado-sanduíche na Itália, em plena quarentena de coronavírus.

Muita gente já está por dentro das notícias do novo coronavírus, mas, o que esse vírus pode causar no nosso corpo? Será que é uma doença assim tão simples de tratar, com sintoma leves semelhantes à gripe? Será que possui uma alta taxa de letalidade?

Os coronavírus são um grupo de vírus capazes de infectar homens e animais. Em humanos, os coronavírus causam infecções respiratórias que podem ir desde um quadro semelhante a um resfriado até algo mais grave, como aconteceu na Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e na Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS).

O novo coronavírus, batizado de SARS-CoV-2 por ser geneticamente parecido com o coronavírus que causou o surto em 2003, foi descoberto recentemente na China na província de Hubei e causa uma doença chamada COVID-19. Esse vírus apresenta características únicas e que precisa ser estudado e analisado com embasamento científico. Enquanto isso, quem está na linha de frente, os profissionais de saúde como enfermeiros e médicos, utilizam das estratégias disponíveis para enfrentar a epidemia.

Cientistas do mundo todo estão em uma corrida contra o tempo para descobrir mais sobre o novo coronavírus. Enquanto isso, diversos países como China, Itália, Irã e a República da Coréia tem apresentado elevado número de casos.

Se usarmos a Itália como exemplo, podemos observar que o país apresenta uma alta proporção de idosos, e consequentemente, um número de óbitos maior. A taxa de letalidade na Itália atualmente está em torno de 7,0%, enquanto a taxa de letalidade mundial está em torno de 3,5%.

Mas porque seria maior na Itália, quando comparado com China e Irã? Pessoas com mais de 60 anos e/ou com alguma complicação de saúde, como hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares são mais vulneráveis a desenvolver insuficiência respiratória causada pelo vírus. E 56,6% das pessoas falecidas na Itália têm mais de 80 anos, dois terços delas têm três ou mais doenças crônicas pré-existentes.

Se a Itália, que possui um bom sistema de saúde, está tendo tantas mortes, quer dizer que no Brasil será pior, então?

Foto: Daniele Mascolo, Reuters

Bem, ninguém pode afirmar isso, pois são países com características sociodemográficas bem diferentes. Visto que a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou a COVID-19 como uma pandemia significa basicamente que o vírus atingiu proporções geográficas mundiais, e não que o SARS- CoV-2 é mais letal. O que o Brasil pode fazer é implementar medidas de prevenção, contenção e atendimento hospitalar, sistemas de terapia intensiva, equipamentos necessários nos hospitais e treinamento dos profissionais de saúde para a pandemia.

É a sexta vez na história que uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional é declarada. As outras foram:

  • 25 de abril de 2009 – pandemia de H1N1
  • 5 de maio de 2014 – disseminação internacional de poliovírus
  • 8 agosto de 2014 – surto de Ebola na África Ocidental
  • 1 de fevereiro de 2016 – vírus zika e aumento de casos de microcefalia e outras malformações congênitas
  • 18 maio de 2018 – surto de ebola na República Democrática do Congo

Na verdade, muita coisa será descoberta após um período, pois estudar doenças infecciosas, ainda mais viroses emergentes como essa, leva um tempo, o tempo da ciência. Esse tempo permitirá aos cientistas descobrir como é a resposta imunológica do nosso corpo frente ao vírus (se é temporária ou duradoura, se ocorre reinfecção ou não), qual antiviral é eficaz em diminuir a carga viral (usando ensaios clínicos seguros e randomizados), qual conduta médica pode ser realizada para aumentar a sobrevida do paciente, enfim, muitas perguntas. E uma pergunta que está intrigando os cientistas e médicos é… por que as crianças são pouco afetadas? Haverá algum fator genético protetor incluído? Devemos descobrir em breve.

Fisiologia do SARS-CoV-2

A COVID-19 apresenta um período de incubação longo que vai de 1 a 14 dias, mas o tempo médio é de 5 dias. Nesse período, a pessoa está infectada mas não apresenta sintomas, porém já é capaz de transmitir o vírus. E ainda tem pessoas que são assintomáticas, ou seja, estão infectadas, não apresentarão sintomas e transmitem o vírus.

Mas isso não significa que ela não apresente alterações em exames de imagem ou laboratoriais. Pesquisas focando nos assintomáticos são importantes também, pois alguns casos assintomáticos podem passar a desenvolver sintomas leves e também contribuem na transmissão.

O novo coronavírus, por incrível que pareça, causa nada menos que uma tosse, febre e dor de cabeça, se permanecer por aí. O problema está quando o vírus chega no pulmão. Um em cada 7 pacientes desenvolvem dificuldade de respirar, dos quais 6% evoluem para uma forma grave. Esse grupo, geralmente formado por idosos com doenças associadas, desenvolvem falência do sistema respiratório e de outros órgãos.

Possíveis sintomas causados pelo novo coronavírus SARS-CoV-2.

Os cientistas já sabem como o vírus faz para entrar nas nossas células, isso acontece através da ligação de proteínas do vírus com receptores celulares. Proteases presentes nas células do pulmão, por exemplo, são capazes de ativar as proteínas do vírus. Somente então, o coronavírus usa o receptor da enzima conversora de angiotensina, conhecido como receptor da ECA2, para entrar na célula. Essa enzima é importante para manutenção da pressão arterial e fluidos corporais e o seu receptor está presente nos pulmões, rins e intestino, sendo uma possível explicação para casos raros de diarreia. Um trabalho recente sugere o uso de um inibidor de protease como forma de bloquear a entrada do vírus na célula.

Essa transição de um quadro leve ou moderado para insuficiência aguda grave pode acontecer rapidamente nos grupos de risco, por isso tanta preocupação de profissionais de saúde, para saber qual o melhor manejo clínico desses pacientes e, dos cientistas, para entenderem os mecanismos fisiopatológicos que levam a essa evolução tão rápida.

O que nós podemos fazer para nos prevenir?

Agora, vamos dar aquelas famosas dicas de prevenção pra você incorporar na sua rotina e na sua vida. É importante salientar que todas as faixas etárias contribuem com a disseminação da infecção, por isso o número de países em quarentena tem aumentado.

Medidas de prevenção válidas para infecções respiratórias:

Quando for espirrar ou tossir, use o braço para evitar dispersar as gotículas, ou lenço descartável.
  • Lave as mãos com água e sabão como primeira opção sempre
  • Caso esteja na rua ou em algum local onde não exista essa opção, utilize álcool em gel 70% e deixe a mão secar naturalmente
  • Só use mascara se estiver doente. Pessoas saudáveis tem uma falsa proteção de segurança porque muitas vezes usam uma máscara não adequada.
  • Quando for espirrar ou tossir, use o braço para evitar dispersar as gotículas, ou lenço descartável.
  • Não colocar as mãos nos olhos, nariz e boca, evitando esfregar essas regiões.
  • Evitar contato com as mãos em corrimões, portas e paredes em locais públicos, como ônibus e trens. Caso seja inevitável, usar álcool 70%.
  • Mantenha os ambientes ventilados e evite aglomeração se estiver doente.
  • Caso apresente algum sinal e sintoma, procure atendimento médico. No caso do coronavírus, muitos casos não precisam de atendimento hospitalar, por isso é importante ficar em isolamento domiciliar, mesmo que o laudo positivo não tenha sido liberado ainda. Outros casos, principalmente em grupos de risco, precisam de atenção especial.
  • Podemos começar a evitar beijos, abraços e apertos de mão, pois o distanciamento ajuda a evitar a transmissão. Nos países com muitos casos, o distanciamento mínimo de 1 metro já é comum.
  • Evitar compartilhar objetos pessoais como copos, talheres.
  • Limpar bem as superfícies e ambientes, principalmente onde acontece as refeições.

E principalmente, não entre em pânico, mas haja com cautela e foque nas medidas de prevenção. Recebeu uma notícia que não tem certeza da fonte? Não repasse, vamos evitar fake news. Na dúvida, entre no site do Ministério da Saúde para acompanhar a situação.

Com o aumento do número de casos no Brasil, outras medidas podem ser tomadas de forma gradual. Assim, respeitem as diretrizes do Ministério da Saúde.

Referências


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