Como a compreensão do método científico pode ajudar a diminuir a desinformação?

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Nesta minha primeira coluna no “A ciência explica” queria tratar de um tema mais leve, que misturasse algum fato científico com algo inusitado. Porém, a crise desencadeada com a pandemia do COVID-19 me trouxe algumas reflexões que precisarei passar (ou tentarei passar) neste texto. 

As notícias falsas e mitos sobre o coronavírus se espalharam mais rapidamente do que a própria doença. Enquanto o vírus ainda estava se propagando na China, antes mesmo de chegar ao Brasil, diversas mentiras já eram distribuídas nas redes sociais em nosso país. Desde promessas de curas milagrosas até incertezas sobre a origem e propagação do vírus eram compartilhadas milhares de vezes no Twitter, Instagram, Facebook e Whatsapp. Mas, por que as pessoas acreditam e compartilham tantas notícias falsas? Por que na era da informação vemos tanta desinformação sendo propagada?

Primeiro precisamos saber que as notícias falsas não são invenções do nosso século. Um exemplo: o governo Nazista na Alemanha perseguia os judeus utilizando como uma das justificativas, um suposto plano de dominação Mundial pelos judeus. Este plano era descrito em um livro supostamente escrito por dois judeus, os chamados “Protocolos dos Sábios de Sião”. Mas, isso tudo era falso, uma fabricação feita no século 19 para servir de justificativa para a expulsão dos judeus da Rússia pelo czar Nicolau II. Ou seja, um livro falso, fabricado com interesses políticos e econômicos, serviu como justificativa para a morte de mais de 6 milhões de judeus. E esse é apenas um exemplo de notícias falsas na História, poderíamos ficar citando centenas delas aqui. Para quem quiser saber mais dessa passagem ocorrida na Alemanha, bem como as origens desse livro falso, leiam a história em quadrinhos “O complô” escrita pelo premiado quadrinista Will Eisner.

Mark Lorch, que é catedrático de Química e Ciências da Comunicação da Universidade de Hull (Reino Unido), em artigo publicado pelo jornal El País (veja aqui), discute alguns pontos para explicar o por que das pessoas acreditarem em teorias da conspiração/notícias falsas e como mudar esse cenário. Ele diz: “É provável que a alfabetização científica ajude a longo prazo [a diminuir a crença em teorias e notícias falsas]. Com isso não me refiro à familiaridade com os fatos, as cifras e as técnicas científicas. O que faz falta é conhecer o método científico, como o pensamento analítico. E, efetivamente, os estudos mostram que a rejeição das teorias da conspiração está relacionada com o predomínio do pensamento analítico. A maioria das pessoas nunca se dedicará à ciência, mas nos deparamos com ela e a utilizamos diariamente, por isso a cidadania tem de ter a capacidade necessária para avaliar criticamente as afirmações científicas”.

Além disso, em 2016 o Pew Research aplicou um teste sobre ciência básica nos EUA. Constituído de 12 questões com conhecimento de nível básico, este teste foi gabaritado por apenas 6% das pessoas que o responderam. Apenas 31% acertaram mais do que dez questões (veja mais sobre aqui). Ou seja, além do desconhecimento sobre o método científico, mesmo na nação mais rica do mundo as pessoas não conhecem o básico sobre a ciência. 

Outro estudo, feito pelo Instituto Gallup por encomenda da organização britânica Wellcome Trust, perguntou para mais de 140 mil pessoas no Mundo o nível de confiança delas na ciência. Os resultados do Brasil mostram que 73% dos respondentes desconfiam da ciência e 23% consideram que a produção científica pouco contribui para o desenvolvimento econômico e social do país. Outros países, como França e Japão, apresentaram níveis semelhantes de desconfiança (saiba mais aqui). O baixo conhecimento em como a ciência funciona, de fatos científicos, bem como seus benefícios levam à essa desconfiança. Além disso, há  fatores como a influência de líderes religiosos em deslegitimar conhecimentos científicos, baixa escolaridade, acesso desigual aos produtos gerados pela ciência e baixa confiança em políticas públicas.

Mas então, do que se trata e porque ensinar o método científico? 

Este método nada mais é que um conjunto de regras básicas para os procedimentos que produzem o conhecimento científico, quer um novo conhecimento ou evolução de uma área já estudada. Na maioria das disciplinas científicas consiste em juntar evidências empíricas verificáveis (1) baseadas na observação sistemática e controlada, geralmente resultantes de experiências ou pesquisa de campo — e analisá-las com o uso da lógica. O método científico, de maneira simplificada, possui etapas que são: 

  • A observação de um fato ou fenômeno que gera perguntas e dúvidas;
  • A elaboração de uma hipótese (e aqui entra também a criatividade dos pesquisadores) que explique e responda essas perguntas e dúvidas;
  • A realização de experimentos para comprovar se a hipótese é válida;
  • A análise desses resultados e por fim a conclusão se a hipótese foi realmente confirmada.

De acordo com cada área de pesquisa, essas etapas podem se modificar ou não existirem. Porém, em todas as áreas do conhecimento, para realização do método científico, muita pesquisa e consulta ao que foi produzido por outros pesquisadores é necessária, seja para confirmar os dados e hipóteses propostas, seja para negá-las, bem como para orientar as observações iniciais. 

E este método não é rígido (assim como o conhecimento científico também não é). Não se prende sempre à estas etapas citadas, está em evolução e deve ser discutido e questionado. Nem sempre o resultado positivo de um processo científico virá da sequência desses passos citados. Haverão fracassos, retornos, mudanças de caminho e metodologia. Porém, a população precisa entender que o resultado seguiu uma formalização, foi testado e respaldado por outros resultados, por outros pesquisadores e fundamentado em teorias. Utilizando a lógica e o pensamento analítico para isso.

Pelas notícias sobre a pandemia causada pelo coronavírus já podemos observar que grande parte da população, até mesmo autoridades, desconhecem o método científico e sua importância. Uma das notícias que mais circularam era a de que a Cloroquinina, ou Hidrocloroquinina, seria um remédio que curaria as pessoas infectadas com o coronavírus. Ao analisarmos as notícias compartilhadas nas redes sociais já víamos que havia um problema ali. O número de pessoas citadas em uma das reportagens, que supostamente foram tratadas com esta substância. era muito pequeno para se poder inferir que ela é efetiva na cura da doença. 

Um outro trabalho muito compartilhado, feito na França, não era do tipo randomizado controlado. O que isso significa? Significa que em um estudo, os participantes são divididos em dois grupos, um receberá o medicamento testado e o outro receberá um placebo, e essa escolha dos grupos é feita de forma aleatória. Isso para que a comparação do efeito seja feita em condições semelhantes, por isso além da escolha aleatória dos grupos algumas características devem ser controladas (como a idade dos participantes, doenças prévias etc) para que os resultados sejam efeito apenas do medicamento ministrado. Se o trabalho não foi randomizado, um grupo poderia ser composto de pessoas mais saudáveis do que o outro, trazendo resultados positivos que não são seriam do medicamento avaliado.

Um outro estudo, feito por um plano de saúde no Brasil, também possuiu problemas. Neste caso, o estudo não era do tipo duplo-cego. As pessoas que participam do teste não podem saber se estão recebendo o medicamento ou o placebo. Isto para que efeitos psicológicos de efeito do medicamento não influencie nos resultados. Assim, nenhum desses testes serviu de base para afirmar que a cloroquina tem efeito sobre a Covid-19. Se as pessoas tivessem o entendimento de que para um experimento ser considerado válido são necessários protocolos, como uma população amostral mínima, ou que, mesmo que um experimento dê certo uma vez ele necessita ser repetido para demonstrar que não foi o acaso que gerou aquele resultado, haveria maior compreensão das notícias veiculadas em crises como a que estamos passando. Se o método científico fosse mais divulgado e ensinado, essa compreensão seria mais acessível ao público e o impacto de notícias falsas (ou de resultados imprecisos) seria menor.

Mas, além da população, e de certos políticos, até mesmo pesquisadores e profissionais especializados muitas vezes não compreendem corretamente o método científico. Correia, Ramos & Bahten, em nota técnica recente (2) sobre a relação dos médicos cirurgiões e a pandemia da Covid-19 apontam que esses profissionais possuem grandes dificuldades em separar fontes de informação de qualidade sobre a doença. Os autores citam algumas causas para isso: grande número de artigos disponíveis (somente no PubMed já há de 1300 a 3000 artigos sobre a doença, número que depende da palavra-chave utilizada), falta de tempo para conseguir processar tanta informação e “falta de conhecimento sobre o método científico correto”. E aqui estamos falando de profissionais que receberam anos de ensino, que possuem acesso à fontes confiáveis e que receberam orientação sobre pesquisa em algum momento de suas carreiras. Imaginem a população em geral, que na maioria das vezes recebe uma educação deficitária, se informa por redes sociais e com muita raridade entende como ocorre o processo de produção científica.

Por isto, neste texto eu conclamo aos pesquisadores e cientistas que lutemos para que o ensino da metodologia científica seja mais acessível à população. Precisamos mudar a maneira como lidamos com a divulgação científica, com o ensino de ciências nas escolas, nos livros e no dia a dia. O combate às notícias falsas não deve ser tomado apenas no campo político, mas também no científico.

O grande escritor Umberto Eco em um texto publicado em 2010 (veja traduzido aqui) discorria que: “Uma cultura (entendida como sistema de costumes e crenças herdados e compartilhados por um determinado grupo) não é meramente uma acumulação de dados; é também o resultado da filtragem desses dados.” Qual tipo de filtragem de dados que estamos fazendo atualmente? Na era da comunicação, qual a qualidade da informação que estamos fazendo chegar aos nossos alunos e à população em geral? 

Eco também cita, em outro trecho, um personagem do escritor Jorge Luis Borges. Chamado Funes, este personagem não esquecia de nada. Não tinha capacidade de processar a informação que retinha, guardava assim toda a informação que ouvia. Mas, por isso mesmo acaba por tornar-se um idiota, impossibilitado de evoluir por não conseguir distinguir aquilo que realmente faria diferença para sua vida. Eco compara Funes ao funcionamento da internet atualmente, em suas palavras: “Como uma totalidade de conteúdo, não filtrado nem organizado, ela [a internet] oferece a qualquer um a capacidade de criar sua própria enciclopédia ou sistema de crenças. Num contexto como este, uma pessoa pode simultaneamente acreditar que a água é composta de hidrogênio e oxigênio e que o Sol gira em torno da Terra”. Ou, acreditar que as vacinas são boas ao mesmo tempo afirmar que a Terra é plana. 

Os cientistas precisam estar na frente da batalha contra a desinformação: precisamos facilitar o ensino e a compreensão da ciência. A ciência não pode ser o fogo dos Deuses nos tempos atuais! Precisamos ser um novo Prometeu, roubá-la (no bom sentido) e dá-la ao povo. Não somente dar ao povo no formato de produtos e equipamentos, mas sim e principalmente na forma de conhecimento. E o entendimento do método científico, ao menos na sua forma básica, é primordial para que isto ocorra. 

Poder escrever aqui no “A ciência explica” é minha pequena contribuição nesta luta, mas precisamos de mais e a batalha será longa. Necessitamos de políticas públicas de propagação da ciência, mudança na forma com que divulgamos nossos experimentos e descobertas, mudar até a forma com que aprendemos ciência. Precisamos de mais dados abertos, publicações acessíveis e baratas, abertura maior por parte das Universidades e Institutos para a cidadania, a transparência e a humildade. Afinal, a população deve saber que a ciência não é a salvação da Humanidade, mas sim uma parcela importante na construção de uma sociedade melhor.

A ciência não é dona da razão, como explica um autor também citado no texto do Umberto Eco, ela se move pela seguinte afirmação: “Eu não sei. É um fenômeno complexo; terei que estudá-lo”. E é essa visão da ciência que possibilita produzirmos o conhecimento necessário à nossa evolução. A população precisa entender e participar disso, de todo o processo de compreensão da ciência, não pode ser apenas receptora do conhecimento e sim construtora também. Não pode apenas ler, ouvir e assistir passiva em frente às telas da TV e dos computadores. Não pode ser apenas um elemento dos experimentos, mas participar e compreender o processo científico de seu inicio ao fim. O caminho será longo, mas venceremos.

Referências

(1) Rosanna Gorini. “alHaytham the man of experience. First Steps in the Science of Vision”. JOURNAL OF THE INTERNATIONAL SOCIETY FOR THE HISTORY OF ISLAMIC, Institute of Neurosciences, Laboratory of Psychobiology and Psychopharmacology, Roma, Itália, Vol 2.No 4. Outubro de 2003, 53-55, p. 55.

(2) CORREIA, M. Isabel T. D.; RAMOS, Rodrigo Felippe; BAHTEN, Luiz Carlos Von. Os cirurgiões e a pandemia do COVID-19. Rev. Col. Bras. Cir.,  Rio de Janeiro ,  v. 47,  e20202536,    2020 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-69912020000100601&lng=en&nrm=iso>. access on  02  Apr.  2020.  Epub Mar 30, 2020.

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