Fósseis vivos e o curioso caso dos celacantos

Esse texto foi escrito por Fernanda Fontes Trancoso, bacharelanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais, iniciante científica no Laboratório de Biodiversidade e Evolução Molecular.

Chamamos de “fóssil vivo” seres vivos que, ou possuem uma incrível semelhança morfológica com seus longínquos ancestrais, ou são parte de ordens1 ou classes1 que já foram bem mais diversificadas do que são hoje em dia.

O termo é extremamente controverso, de forma que diversos pesquisadores sugerem que seja abandonado. Por quê? Bom, o termo acaba gerando diversas interpretações erradas, além de não ter utilidade formal. Veja bem: possuir alguma semelhança morfológica com seus ancestrais não significa, de forma alguma, que esses seres não estejam passando pelo processo de evolução e seleção natural. Todos os seres possuem semelhanças com seus ancestrais e todos os seres vivos estão evoluindo!

Apesar disso, o termo “fóssil vivo” é muito usado ao se falar do curioso caso dos celacantos.
Desenho original de um celacanto por Marjorie Courtenay-Latimer usando para identificar o peixe em 1938.  Fonte: SAIAB

Celacantos são “peixes” ósseos com nadadeiras lobadas (Sarcopterygii) da subclasse1 Actinistia. Podem medir até 180 cm e pesar até 80 quilos e costumam ser de cor azul ou cinza azulada. Possuem pares de nadadeiras ósseas, que no passado se acreditou serem homólogas2 a nossos braços e pernas, e não possuem o osso maxilar. Suas escamas são ósseas e os protegem como um escudo, além de possuírem odontodes, que são “dentes” ou espinhos dérmicos. Acreditava-se que a subclasse de celacantos, a Actinistia, estava extinta já há milhões de anos, até que, em 1938, um espécime vivo foi encontrado.

A pesquisadora sul-africana, Marjorie Courtenay-Latimer, que trabalhava no “East London Museum”, pedia para que todos os pescadores da região a ligassem caso encontrassem algum peixe incomum, e foi respondendo a uma dessas ligações que ela se deparou com um celacanto.

O Capitão Hendrik Goosen tinha pego um peixe estranho próximo à foz do rio Chalumna, e Marjorie foi até as docas para conferir. O peixe tinha cerca de 150 centímetros, era de um azul intenso com manchinhas brancas, coberto por escamas duras, e tinha quatro barbatanas bem diferentes, que se pareciam com membros. Marjorie tentou de todas as formas, preservar o animal, batendo de porta em porta no museu procurando ajuda. Foi até ao necrotério, sem sucesso: se recusaram a ajudá-la. Tentou ainda entrar em contato com um colega, J. L. B. Smith, que poderia ajudá-la a identificar aquele estranho peixe, mas ele estava viajando para o recesso de natal.

Relutantemente, Marjorie teve que levar o maravilhoso celacanto para ser taxidermizado3, perdendo as estruturas internas que permitiriam uma identificação mais exata do espécime. Em fevereiro de 1939, J. L. B. Smith chegou ao museu, reconhecendo de imediato o animal como um celacanto. Smith nomeou a espécie como Latimeria chalumnae, em homenagem à Marjorie e ao rio onde o celacanto foi encontrado.

Os celacantos atuais, entretanto, já eram conhecidos antes de 1938, pelos nativos Sul-Africanos, que os chamavam de “gombessa” ou de “mame”. Considerados não comestíveis, não havia grande interesse na pesca dos “gombessa” pelos nativos antes de 1938. Além disso, esses peixes só chegam mais próximos à superfície durante a noite, vivendo em profundezas de até 700 metros abaixo do nível do mar durante o dia, o que explica a dificuldade em encontrá-los.

Cobertura jornalística da descoberta do celacanto, a partir da exposição no SAIAB (© Magi Names)

A descoberta do Latimeria chalumnae teve um enorme impacto: foi chamado de “um fóssil vivo pego no mar” e “uma das descobertas científicas mais sensacionais do século”, sendo manchete de diversos jornais da época. Diversas expedições foram feitas à procura de outros espécimes de celacantos, mas ainda demorou 14 anos para que encontrassem algum.

Em 1952, outro espécime de celacanto foi descoberto no Arquipélago de Comores; Em 1991, foram encontrados em Moçambique; Em 1995, houve o primeiro relato de celacantos em Madagascar; Em 1997, uma nova espécie de celacanto foi encontrada na Indonésia e, em 2003, houve a primeira captura de celacantos na Tanzania.

 

 

Hoje, só conhecemos duas espécies viventes de celacantos: Latimeria chalumnae e Latimeria menadoensis. “Fóssil vivo” não é a nomenclatura ideal ao se tratar de um ser vivo, mas definitivamente é o que se passa pela cabeça ao se deparar com um espécime de uma subclasse que se acreditava estar extinta há milhões de anos!

Glossário:

[1] termos utilizados no sistema de classificação científica dos seres vivos.

[2] são órgãos de seres vivos que se diferem, mas se desenvolvem de modo semelhante. Têm origem embrionária semelhante e podem desempenhar funções distintas

[3]  passou pelo processo de taxidermia,  técnica de preservação de animais mortos que os enche de palha, para conservar suas características físicas.


Referências

Fricke, H. (1997). Living coelacanths: values, eco-ethics and human responsibility. Marine Ecology Progress Series161, 1-15.

Forey, P. (1997). History of the coelacanth fishes. Springer Science & Business Media.

Fricke, H.; Hissmann, K. Home range and migrations of the living coelacanth Latimeria chalumnae. Marine Biology (1994) 120:171-180. Received: 21 March 1994/Accepted: 16 May 1994.

The coelacanth: A living fossil of a fish – Erin Eastwood – TEDEd 2014

 


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