Jogos casuais diminuem sintomas de ansiedade

Certamente estamos vivenciando uma época em que, frequentemente, as pessoas são diagnosticadas com depressão ou algum tipo de transtorno de ansiedade ou fobia. Mais e mais vezes vemos nossos amigos e colegas de classe com crise de ansiedade frente a atividades acadêmicas, observamos uma queda de produtividade de algum colega de trabalho. Vemos, ainda, nossos pais em colapsos por causa da depressão que lhes afligem. Por vezes, não vimos, mas sentimos essas crises de ansiedade, essas quedas de produtividade e os colapsos por conta da depressão.

“Wubba Lubba Dub Dub”

E em um estudo liberado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)[1] constatou-se um aumento significativo de pessoas diagnosticadas com algum tipo de transtorno de ansiedade e depressão no mundo. Em uma década, referentes ao ano de 2005 e 2015, o transtorno de ansiedade aumentou 18% e a depressão, 15%.  Esse aumento é traduzido para 3,6% e 4,4% da população mundial afetada por ansiedade e depressão, respectivamente.

A OMS ainda estima que, no Brasil, 5,8% dos brasileiros sofram de depressão e 9,3% da população nacional sofra de algum tipo de transtorno de ansiedade, fazendo que com o Brasil seja o país da América Latina com o maior número de casos de ansiedade.[2]

Após procurarem ajuda médica e serem diagnosticado com algum tipo de transtorno de ansiedade, os pacientes seguirão para o tratamento. Atualmente existem três tipos de tratamentos convencionais para esses transtornos: medicamentos, psicoterapias ou uma combinação dos dois.[3]

Apesar dos tratamentos convencionais terem um resultado satisfatório em pessoas depressivas, eles possuem determinadas limitações.[4] Como alguns exemplos temos o alto custo para o paciente, que nem sempre pode arcar com 12 ou mais sessões que, eventualmente, serão necessárias com o psicólogo; certas restrições demográficas, por conta de lugares mais isolados; o estigma que as consultas com psicólogos ou psiquiatras carregam; e a baixa aderência dos pacientes aos medicamentos prescrevidos  pelos médicos.[5]

Por conta dessas limitações, alguns pesquisadores veem nos jogos casuais uma alternativa de baixo custo, de fácil acesso e sem nenhum estigma associado, onde pessoas sofrendo algum tipo de transtorno de ansiedade podem usa-los para reduzir certos sintomas, principalmente transtornos mais brandos.

Seguindo esse contexto, os pesquisadores da Universidade da Carolina do Leste, Matthew Fish, Carmen Russoniello e Kevin O’Brien publicaram um artigo no Games for Health Journal, onde eles demonstraram que os jogos casuais podem reduzir os sintomas de ansiedade em uma população depressiva.[3]

Os pesquisadores trabalharam com jovens adultos e adultos (29-31 anos) que tinham, pelo menos, leves sintomas de depressão. Os indivíduos do experimento foram selecionados utilizando o Patient Health Questionnarie (PHQ-9), que é utilizado para diagnosticar, monitorar e medir o grau da depressão. Após o recrutamento, eles foram separados em dois grupos, o controle e o experimental.

O grupo controle visitava o site do National Institute of Mental Health, site com uma grande coleção de informações sobre depressão e métodos para reduzir os sintomas de ansiedade, durante 30 minutos em cada sessão realizada em uma sala com condições perfeitamente controladas. Esse grupo ainda foi orientado a evitar jogos casuais até o fim do experimento – 30 dias.

O grupo experimental escolheu entre três jogos, Bejeweled II, Peggle e Bookworm Adventures. A liberdade de escolha foi dada a esse grupo pois é uma das experiências benéfica que a recreação proporciona. Após o jogo escolhido, foram orientados a jogar durante 30 minutos, 3 vezes por semana até o fim do experimento. Foi permitido jogar mais que 30 minutos, desde que anotassem quanto tempo a mais jogaram. Provavelmente para ver, ao final do experimento, se o hábito de jogar tornou-se um vício.

No fim de cada semana, cada indivíduo de ambos os grupos passou por testes que mediam o estado e traços de ansiedade de cada um.

Figura 1. Comparação do estado e traço de ansiedade entre os grupos.

Ao final das quatro semanas, os resultados são reveladores. O grupo experimental mostrou uma redução significativa no estado de ansiedade e traço de ansiedade quando comparado os valores da primeira sessão e da quarta e última sessão (figura 1), tendo uma redução de 9,89 pontos. O mesmo não foi observado no grupo controle, que obteve uma redução de 1,53 pontos.

Os resultados desse trabalho indicam o potencial que os jogos casuais têm em auxiliar a redução de determinados sintomas de estresse e depressão. Entretanto, novos estudos comparando a eficácia dos jogos e dos medicamentos devem ser feitos para demonstrar se os jogos poderão agir com um método preventivo ou até mesmo um futuro substituto dos medicamentos para determinados tipos de transtornos.

Outra discussão levantada é sobre quais jogos são considerados jogos casuais e como isso se difere do estilo de jogadores que jogam casualmente.

 

É preciso salientar que as informações expostas aqui são para mostrar os estudos que estão sendo desenvolvidos nessa área. Se você passa por momentos constantes de ansiedade sem um motivo aparente, procure ajuda médica, pois assim você, seu médico e sua família poderão buscar uma solução adequada para a situação.

Se informe mais lendo o verbete no site do Dr. Drauzio Varella sobre TAG – Transtorno de Ansiedade Generalizada e Você tem algum distúrbio de ansiedade?

 


Referência

[1] 2017. Organização Mundial da Saúde. “Depressão: vamos falar”

[2] 2017. Estadão. Saúde. Brasil é o país que mais sofre com depressão na América Latina.

[3] 2014. Fish Matthew T., Russoniello Carmen V. e O’Brien Kevin. The Efficacy of Prescribed Casual Videogame Play in Reducing Symptoms of Anxiety: A Randomized Controlled Study. Games for Health Journal.

[4] 2012. Cuijpers P., Reynolds III, C. F., Donker, T., Li, J., Andersson, G. e Beekman, A. Personalized Treatment Of Adult Depression: Medication, Psychotherapy, Or Both? A Systematic Review. Depression and Anxiety.

[5] 2011. Jimmy B, Jose J. Patient Medication Adherence: Measures in Daily Practice. Oman Medical Journal.

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About Sidcley Lyra

Formado em Ciências Biológicas: Microbiologia e Imunologia pela UFRJ no ano de 2017. Tenho experiência na área de Microbiologia, com ênfase em Microbiologia Ambiental. Além dos estudos que resultou no TCC, participei de alguns projetos de popularização da ciência, como o Cineclube Biofilme e o Ciência em Jogo.

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