Nova vacina contra a malária terá sua eficácia testada em condições do mundo real!

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Uma vacina contra a malária que pode fornecer até 100% de proteção contra a doença será testada em um grande ensaio clínico pela primeira vez, para estudar sua eficácia em condições do mundo real.
Sobre a malária
A Malária é uma doença infecciosa  causada por  protozoários unicelulares do gênero Plasmodium, e transmitida, entre humanos, por meio da picada de mosquitos do gênero Anopheles.  Estima-se que mais de 40% da população mundial viva em áreas endêmicas de malária,  a maioria dos casos (mais de 90%),e das mortes mortes (90%) ocorrem na África sub-saariana, envolvendo principalmente crianças com menos de 5 anos de idade. No Brasil,  temos como região endêmica de malária os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
 

Parasitas do gênero Plasmodium são os responsáveis pela Malária. Apenas 4 de 172 espécies de plasmódios são infectantes para os humanos. A maioria dos casos, e quase todas as mortes, devem-se à infecção pelo Plasmodium falciparum.

Plasmodium vivax, Plasmodium ovale e Plasmodium malariae causam doença menos grave. O P. falciparum predomina na África, no Haiti, e na República Dominicana. No México, na América Central, na América do Sul, no Mediterrâneo, na Ásia e Oceania, tanto o P. falciparum, quanto o P.vivax são endêmicos. Doença causada pelos P. ovale e P. malariae é relativamente rara.

Apesar de vários estudos, ainda hoje não existe uma vacina que confira proteção satisfatória contra a malária, devido aos mecanismos genéticos de escape do parasita. Atualmente as medidas de proteção contra a malária são a utilização de repelentes sobre a pele, mosquiteiros sobre as camas ou redes de dormir, telas nas janelas e portas das habitações e evitar a permanência ao ar livre nos horários em que os mosquitos se apresentam em maior quantidade, como o amanhecer e o anoitecer.
 
Glossário :  Áreas endêmicas ou de transmissão de malária são aquelas que apresentam registros contínuos de casos da doença durante todo o ano.
 
A vacina contra malária 
Atualmente, não há nenhuma vacina licenciada contra a malária. Uma pesquisa sobre vacina contra o P. falciparum (um dos parasita da malária), conhecida como RTS, S/AS01, está mais avançada. Essa vacina tem sido objeto de avaliação em um grande ensaio clínico realizado por sete países africanos e recebeu um parecer positivo em julho de 2015 da Agência Europeia de Medicamentos. Entretanto, a vacina possui de 30 a 40% de eficácia, sendo necessária a combinação de outras técnicas de profilaxia, como mosquiteiros e repelentes.  
 
Também há uma nova vacina na etapa pré clínica contra a malária causada pelo parasita P. vivax, até então, ela foi testada em camundongos e obteve 45% de eficácia. Saiba mais neste link.
 
Embora a eficácia das vacinas mais comuns seja superior a 80%, a magnitude mundial do problema da malária justifica a busca por vacinas, mesmo que a eficácia dessas sejam de apenas 30 a 50%.
 
Como é a nova vacina

Em estudos de laboratório, a vacina, chamada PfSPZ, provou ser a vacina de malária mais eficaz desenvolvida até agora, dando aos voluntários saudáveis uma proteção completa.

O PfSPZ atua estimulando uma resposta imune contra o parasita da malária Plasmodium falciparum. A vacina é composta de esporozoítos (SPZ), estágio no ciclo de vida do parasita da malária que os mosquitos infectados injetam nas pessoas durante uma mordida.

Diferencial: A vacina é única no uso de parasitas inteiros na sua composição; a maioria das vacinas candidatas à malária inclui apenas um pequeno número de proteínas parasitas geneticamente modificadas. A abundância de proteínas em toda a vacina do parasita explica por que provoca uma resposta imune tão forte.

Mas, para ser eficaz, o PfSPZ deve ser injetado por via intravenosa. Isso representa um desafio para as campanhas de vacinação em massa, porque é um procedimento mais complexo do que aqueles normalmente usados para outras vacinas.

Ensaio Clínico

O ensaio clínico começará no início de 2020 em Bioko, uma ilha na costa da Guiné Equatorial, e envolverá 2.100 pessoas com idades entre 2 e 50 anos. O teste tem como objetivo fornecer os dados de eficácia e segurança necessários para a aprovação regulatória, diz o pesquisador Steve Hoffman, que lidera o estudo e é diretor executivo da Sanaria, empresa de Rockville, Maryland, que desenvolveu a vacina. O governo da Guiné Equatorial e empresas privadas de energia estão patrocinando o ensaio clínico.

Glossário: Ensaio Clínico é um tipo de estudo experimental, cujo objetivo é avaliar um ou mais tratamentos novos para determinada doença ou condição.

Eficácia de campo

O teste na ilha de Bioko, que tem uma população de cerca de 280 mil pessoas, é o primeiro grande teste da eficácia da vacina em uma região onde a malária ocorre.

A eficácia do PfSPZ no campo será inevitavelmente menor do que nos estudos de laboratório, porque as pessoas que já tiveram malária provavelmente terão uma resposta imunológica mais fraca, diz Stefan Kappe, imunologista que estuda malária no Hospital Infantil de Seattle, em Washington. As cepas locais do parasita da malária também diferem da usada na vacina, acrescentou ele.

Mas mesmo uma vacina razoavelmente eficaz pode ter um grande impacto, diz Kappe. A prevalência da malária em Bioko caiu de 45% para 12,5% em 15 anos através do uso de medidas convencionais, como a pulverização de inseticidas em ambientes fechados e mosquiteiros com os produtos químicos. Mas a experiência em outras partes do mundo sugere que chegar a zero é a parte mais difícil, diz ele. Isso pode ser possível apenas com a ajuda de uma vacina.

“Este teste responderá a várias perguntas pela primeira vez, incluindo se uma vacina pode eliminar completamente a malária deste ambiente insular”, diz ele.

Se este ensaio clínico for bem sucedido, a Sanaria pretende realizar outro ensaio clínico, desta vez, envolvendo cerca de 10 mil pessoas na ilha. E comparar níveis de doenças entre as comunidades que recebem a vacina e usam medidas de prevenção de malária padrão, com comunidades que apenas usam medidas de prevenção padrão, diz Hoffman. Desta forma, avaliando a eficácia de proteção da vacina.

Se o grande estudo for bem sucedido, a Sanaria e seus parceiros planejam lançar a vacina em toda a população da ilha e avaliar sua eficácia.


Referências
 
BASTOS, L. F. C. S.; HTTPS://WWW.FACEBOOK.COM/PAHOWHO. OPAS/OMS Brasil – Malária | OPAS/OMS. Disponível em: <https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5287:malaria-2&Itemid=875>. Acesso em: 17 abr. 2019.
 
BUTLER, D. Promising malaria vaccine to be tested in first large field trial. Nature, 16 abr. 2019.
GIMENEZ, A. M. et al. Vaccine Containing the Three Allelic Variants of the Plasmodium vivax Circumsporozoite Antigen Induces Protection in Mice after Challenge with a Transgenic Rodent Malaria Parasite. Frontiers in Immunology, v. 8, 11 out. 2017.
 
MAHMOUDI, S.; KESHAVARZ, H. Efficacy of phase 3 trial of RTS, S/AS01 malaria vaccine: The need for an alternative development plan. Human Vaccines & Immunotherapeutics, v. 13, n. 9, p. 2098–2101, 2 set. 2017.
Patologia de Febres Hemorrágicas. Disponível em: <http://www2.fm.usp.br/pfh/mostrahp.php?origem=pfh&xcod=Malaria>. Acesso em: 17 abr. 2019.
 
Vacina candidata contra a malária da GSK, MosquirixTM (RTS,S), recebe parecer positivo da agência regulatória Europeia para a prevenção da malária em crianças na África Subsaariana | GSK BR. Disponível em: <http://br.gsk.com/pt-br/sala-de-imprensa/press-releases/2015/vacina-candidata-contra-a-malária-da-gsk-mosquirix-rtss-recebe-parecer-positivo-da-agência-regulatória-europeia-para-a-prevenção-da-malária-em-crianças-na-áfrica-subsaariana/>. Acesso em: 17 abr. 2019.
 
 

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About Luiza Toledo

Formada em Ciência Biológicas: Microbiologia e Imunologia pela UFRJ (2016), atualmente faz mestrado na FIOCRUZ em Saúde Publica e Meio Ambiente, na área de gestão e saneamento ambiental.

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