Por que a música é recomendada no estresse?

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Os seres humanos descobriram os efeitos da música para seu próprio bem-estar no início da era pré-histórica, ou seja, durante as culturas das cavernas. Charles Darwin levantou a hipótese de que a estimulação auditiva musical pode ter sido uma linguagem ancestral nos tempos antigos. Sob uma perspectiva cultural, a definição de estímulo auditivo musical é sutil e não está bem estabelecida, pois variou ao longo da história, em diferentes regiões e dentro das sociedades.

Início dos estudos da música

Em seu livro de 1983, Thomas Clifton afirma que “a música é a atualização da possibilidade de qualquer som apresentar ao humano um significado que ele experimenta com seu corpo – isto é, com a mente, sentimentos, sentidos, vontade e metabolismo”. Robert Burton descreveu em “Melancholy’s Anatomy”, 1632: “a estimulação auditiva musical é o remédio mais grato e eficaz para a tristeza, o medo e os transtornos de humor”. O cirurgião alemão C.A.T. Billroth (também violinista e violoncelista), em seu trabalho intitulado “Wer ist musikalish?” publicado em 1894, tentou primeiro correlacionar as habilidades de música com a anatomia e fisiologia do cérebro. Pode-se interpretar então, que a música apresenta efeitos psicofisiológicos que ainda estão sendo desvendados.

Dentro desse contexto, a música é um estímulo auditivo presente em diversos locais do nosso cotidiano. Temos contato com esse estímulo no trânsito, no local de trabalho, durante a atividade física, quando acordamos, antes de dormir e no momento de outras inúmeras ocorrências do dia a dia.

A música influencia os sistemas do corpo humano

Recentemente, houve um interesse considerável nos efeitos da música sobre os sistemas cardiovasculares, respiratórios e neurofisiológicos, incluindo as áreas encefálicas envolvidas, que parecem ser semelhantes às envolvidas em momentos de inquietação. As respostas à música parecem subjetivas, principalmente quando ocorrem formigamentos ou calafrios no momento em que se ouve a música, o que sugere reações individuais a esse estímulo que dependem de preferências, humor ou emoções individuais.

Em vista desses mecanismos brevemente apresentados, levanta-se a seguinte questão: 

Por que a música é recomendada no estresse?

Como mencionado, sabe-se que a música provoca várias respostas psicofisiológicas. Porém, os efeitos da estimulação auditiva musical nos fenômenos fisiológicos não estão totalmente elucidados. Estudos no início deste século mostraram que a música diminui a frequência cardíaca e a pressão arterial em seres humanos. Outro estudo na mesma época observou que a música também causa respostas relaxantes em ratos com predisposição genética para hipertensão, sugerindo que a estimulação auditiva musical pode influenciar as funções involuntárias do corpo e o sistema cardiovascular.

Um estudo conduzido na Suécia, em 2010, tentou verificar se a recuperação fisiológica do estresse é mais rápida durante a exposição a sons agradáveis ​​da natureza em relação aos ruídos. Como principal resultado, os autores sugeriram que os sons da natureza facilitam a recuperação do estresse após um estressor psicológico. Esse achado se deve por meio da análise do sistema nervoso simpático, formado por neurônios relacionados com o estresse. Os mecanismos por trás da recuperação mais rápida podem estar relacionados a emoções positivas (prazeres), evocadas pelo som da natureza, conforme sugerido por pesquisas anteriores, utilizando estímulos de filmes sem áudio. 

Outros atributos perceptivos também podem influenciar a recuperação após o estresse. Nesse mesmo estudo, o ruído ambiente foi percebido como menos familiar do que os outros sons, provavelmente porque não continha fontes identificáveis. Assim, pode-se especular que essa falta de informação possa ter causado uma atividade mental aprimorada e, portanto, um nível aprimorado de estresse em comparação com o som natural relatado na pesquisa. 

Pesquisas brasileiras com música

Nesse sentido, um conjunto de pesquisas conduzidas na UNESP, Marília, SP, em parceria com a Oxford Brookes University, Inglaterra, e Universidade de Parma, Itália, mostrou que a música instrumental de Adele e Enya podem ajudar nosso corpo a lidar com o estresse diário.

Durante o tratamento endodôntico, quando vamos ao dentista, surge sempre aquele frio na barriga e ansiedade. Esses sentimentos são mais intensos quando vamos ao dentista para remover cárie. Nesse contexto, uma das pesquisas do grupo visou analisar os efeitos de músicas relaxantes sobre o estresse durante esse processo. Para isso, foram analisadas pessoas divididas em dois grupos, um ouviu música durante o tratamento e outro não. Como já era esperado, o grupo sem música apresentou estresse, haja vista que foi notado aumento dos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, e sobrecarga no coração. Por outro lado, o grupo que ouviu música não apresentou aumento dos níveis de cortisol e o coração sofreu menor nível de estresse.

Outra pesquisa analisou os efeitos da música em hipertensos quando ouviam música. Em um dia, os pacientes tomavam medicamento ouvindo música com fone de ouvido e as variáveis fisiológicas de estresse foram monitoradas durante uma hora após a administração do medicamento. Em outro dia, os mesmos participantes tomavam medicamento com o fone de ouvido desligado, de modo que as mesmas variáveis fisiológicas foram monitoradas. Interessantemente, quando os voluntários tomaram medicamento ouvindo música, a reação positiva das variáveis fisiológicas foi mais intensa. Os pesquisadores acreditam que a música aumenta a atividade do sistema nervoso parassimpático, elevando a atividade gastrointestinal, favorecendo a absorção do medicamento e melhorando a reação do coração frente ao anti-hipertensivo.

Um estudo mais recente do mesmo grupo constatou os benefícios da música durante o trânsito. Nessa pesquisa, foram examinadas voluntárias durante horário de grande congestionamento na cidade de Marília (SP). Em um dia, as participantes ouviram música enquanto dirigiam e no outro dia, não ouviram música. Sem música, o coração sofreu uma sobrecarga característica do estresse. Porém, quando ouviram música, o estresse foi significativamente atenuado. Os pesquisadores chamam a atenção para a música como um agente de prevenção, pois o estresse no trânsito é um potente gatilho para mortes súbitas referentes aos problemas cardiovasculares, como infarto cardíaco e acidente vascular encefálico (AVE) ou cerebral (AVC).

Considerações finais

Com base nas pesquisas mencionadas, agora não faltam motivos para você ouvir aquela música relaxante em situações de estresse. Portanto, a música é uma aliada científica para melhorar nossa qualidade de vida.

REFERÊNCIAS

  1. Clifton T.1983. Music as heard: A study in applied phenomenology. New Haven: Yale Univ. Press.
  2. Révész, G. (1953) Einführung in die Musikpsychologie. Bern: A.Frank Ag. Verlag.
  3. Lee, O.K., Chung, Y.F., Chan, M.F., Chan, W.M. (2005). Music and its effect on the physiological responses and anxiety levels of patients receiving mechanical ventilation: a pilot study. J. Clin. Nurs. Vol. 14, No. 4 (April) pp. 609–620.
  4. Sutoo, D., Akiyama, K. (2004). Music improves dopaminergic neurotransmission: demonstration based on the effect of music on blood pressure regulation. Brain Res. Vol. 1016, No. 4 (April) pp. 255–262.
  5. Alvarsson, J.J., Wiens, S., Nilsson, M.E. (2010) Stress recovery during exposure to nature sound and environmental noise. Int J Environ Rese Public Health, Vol. 7, No. 9 (Sept) pp. 1036-46.
  6. Alves MA, Garner DM, do Amaral JAT, Oliveira FR, Valenti VE. The effects of musical auditory stimulation on heart rate autonomic responses to driving: A prospective randomized case-control pilot study. Complement Ther Med. 2019 Oct;46:158-164. doi: 10.1016/j.ctim.2019.08.006.
  7. Martiniano EC, Santana MDR, Barros ÉLD, do Socorro da Silva M, Garner DM, de Abreu LC, Valenti VE. Musical auditory stimulus acutely influences heart rate dynamic responses to medication in subjects with well-controlled hypertension. Sci Rep. 2018 Jan 17;8(1):958. doi: 10.1038/s41598-018-19418-7.
  8. Santana MD, Martiniano EC, Monteiro LR, Valenti VE, Garner DM, Sorpreso IC, de Abreu LC. Musical Auditory Stimulation Influences Heart Rate Autonomic Responses to Endodontic Treatment. Evid Based Complement Alternat Med. 2017;2017:4847869. doi: 10.1155/2017/4847869.

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