Fazendo comida espacial com cocô espacial (ou quase isso)

Processamento microbiano: os astronautas poderiam transformar os resíduos em alimentos? Um novo estudo publicado em Life Sciences in Space Research sugere um processo pelo qual os resíduos biológicos poderiam ajudar na produção de alimentos (ligeiramente) mais saborosos.

Por que?

O transporte de alimentos para as viagens espaciais é um complicador extra para as missões. Isso porque o armazenamento de alimentos ocuparia espaço em excesso, aumentando o peso da aeronave e consequentemente a necessidade de mais combustível. 

Até agora, a Nasa já havia desenvolvido algumas alternativas, como a agricultura hidropônica ou com luz artificial. Mas tudo isso requer espaço físico para o cultivo. O que gera um outro problema durante o voo espacial, já que uma das maiores limitações é o espaço físico real.  As redes espaciais são pequenas, o que torna a agricultura extremamente desafiadora.

Além disso, é preciso dar destinação aos excrementos dos astronautas em missões espaciais. Os tripulantes da Estação Espacial Internacional reciclam parte da água de sua urina, porém as fezes são ejetadas ao espaço.

Solução

Como alternativa à agricultura tradicional, SteinbergKronyak e House (2017) mostraram que é possível cultivar rapidamente alimentos com uma série de reatores microbianos. Uma vez que as bactérias digerem o cocô produzindo gases como nitrogênio e metano, use esses gases para alimentar … outras bactérias. 

Primeiro, é feito a decomposição dos dejetos humanos através da digestão anaeróbica. A digestão anaeróbica é usada frequentemente na Terra para degradar o lixo, sendo então uma forma eficiente de reciclagem de nutrientes. Essa digestão anaeróbica dos resíduos produz metano e outros gases, que podem ser esterilizados e, posteriormente, colocados em um reator microbiano para produzir alimentos.

E como isso funcionaria?

A proposta da pesquisa é retirar os nutrientes resultantes da digestão anaeróbica. Esterilizar esses nutrientes e intencionalmente coloca-los em um outro reator microbiano para produzir alimentos.

Para isso, é necessário o cultivo da bactéria Methylococcus capsulatus. Esse microrganismo é metanotrófico, ou seja, utilizam o metano como fonte de carbono e energia (tradução: precisam de metano para crescer). E essa bactéria crescida a partir do metano recuperado pela digestão anaeróbica das fezes seria então uma fonte potencial de alimento.

Atualmente, o Methylococcus capsulatus é usado como alimento para animais. A cepa bacteriana de M. capsulatus que foi utilizada no experimento foi de 52 % de proteína e 36% de gorduras, tornando-se uma fonte potencial de nutrição para os astronautas.

Entretanto, esse sistema ainda não está pronto para ser aplicado! Mas a equipe segue conduzindo novos testes a fim de criar uma solução possível para o tratamento de fezes no espaço, gerando alimento como subproduto!


Leia o artigo completo: Coupling of anaerobic waste treatment to produce protein- and lipid-rich bacterial biomass,
Life Sciences in Space Research, Volume 15, Novembro 2017, Paginas 32-42

Life Sciences in Space Research. Microbial processing, could astronauts transform waste into food?

BBC Brasil. O plano da Nasa para alimentar astronautas com comida feita à base de seus excrementos

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About Luiza Toledo

Formada em Ciência Biológicas: Microbiologia e Imunologia pela UFRJ (2016), atualmente faz mestrado na FIOCRUZ em Saúde Publica e Meio Ambiente, na área de gestão e saneamento ambiental.

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