Febre Amarela: 8 fatos importantes

Após anos sem surtos de febre amarela no Brasil, as ocorrências de casos e mortes vem aumentando desde o começo de 2017. Depois de uma trégua no inverno de 2017, as ocorrências e óbitos por febre amarela foram novamente notificados no país, principalmente na região Sudeste e no Distrito Federal[1].

Até o momento, os casos notificados são do ciclo silvestre da febre amarela. Esses são os casos que atingem os humanos e macacos que vivem em regiões rurais e de mata e são transmitidos pelos mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethe. Ao todo, foram registrados 42 casos da doença no ciclo silvestre no estado do Rio de Janeiro com 18 mortes, apenas em 2018[10].

Atualização (09 de fevereiro de 2018): Subiu para 50 casos confirmados e 23 óbitos no estado do Rio de Janeiro por febre amarela, em 2018[11].

Para que não se inicie o ciclo urbano da febre amarela, todos precisam se prevenir com a vacinação. Não somente a população que mora nas regiões de mata, mas também quem mora nos centros urbanos[2]. Com a sua vacinação em dia, você se protege e ajuda também a proteger pessoas que não podem se vacinar por algum motivo específico.

 

A seguir, entenda o que causa a febre amarela, os sintomas, como prevenir e quem deve ou não ser vacinado:

 

  1. Transmissão[2]

A febre amarela é um vírus transmitido pela picada de mosquito infectado, o vetor.

No ciclo silvestre, os mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethe se alimentam do sangue de um macaco infectado e depois passam o vírus para outros macacos. Eventualmente os humanos que trabalham ou moram em áreas rurais e de mata densa são picados por mosquitos infectados, contraindo a febre amarela.

O ciclo urbano se inicia quando uma pessoa infectada introduz o vírus em zonas com população densa, com muitos mosquitos e onde a maioria da população não possui imunidade contra o vírus por não serem vacinadas. Nesse caso, o mosquito Aedes aegypti (o mesmo que transmite dengue, chikungunya e zika) é o vetor que se alimenta do sangue de uma pessoa infectada, contraindo o vírus. Após, pica uma pessoa não imunizada, transmitindo a doença para ela.

Os humanos e os macacos são hospedeiros do vírus. No caso da febre amarela, não há transmissão direta entre macaco-humano e humano-humano.

 

  1. Sintomas[3, 4]

A febre amarela é uma doença infecciosa febril aguda. Os primeiros sintomas da doença aparecem de forma repentina, geralmente alguns dias após o contato com o vetor. Febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular (geralmente nas costas), perda de apetite, náuseas e vômitos podem durar cerca de três dias.

A maioria das pessoas se recupera após a primeira manifestação. Entretanto, cerca de 15% dos infectados desenvolvem um quadro mais grave da febre amarela após um breve período de bem-estar.

Na forma mais grave da doença a febre alta retorna, ocorre insuficiência de alguns órgãos (principalmente o fígado e rins) Nessa fase, é provável que os pacientes desenvolvam icterícia (coloração amarelada da pele e do branco dos olhos, origem do nome “Febre amarela”), urina escura e dores abdominais. Pode ocorrer sangramento na boca, nariz, olhos ou estômago e, caso os sintomas não sejam amenizados, choque.

Cerca de 20% a 50% das pessoas que desenvolvem a forma mais grave da febre amarela morrem num período de 7-10 dias.

O tratamento para esses sintomas são apenas sintomáticos com repouso e reposição de líquidos e sague, caso necessário.

 

  1. Prevenção[3, 4]

A vacinação é a única forma eficaz para prevenir e controlar a febre amarela. A vacina é produzida a partir do vírus atenuado, ou seja, a virulência (capacidade de gerar doença) do vírus é reduzida a níveis considerados seguros para a vacinação[5].

Desde 2017, o Brasil adota o esquema de uma dose vacinal para a vida toda, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a vacinação é recomendada para pessoas que moram ou que irão se deslocar para os municípios que compõem a Área com Recomendação de Vacinação:

“Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Bahia, Maranhão, Piauí, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Além das áreas com recomendação, neste momento, também está sendo vacinada a população do Espírito Santo”, segundo o Ministério da Saúde.

Vacina atenuada da febre amarela. Fonte: Ministério da Saúde

As vacinas contra a febre amarela são produzidas no Brasil desde 1937 pelo Instituto de Tecnologia em Imunologia – Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz/Fiocruz, do Ministério da Saúde, credenciado pela OMS[6].

Outros métodos de prevenção consistem em evitar ser picado pelo mosquito através da utilização de repelentes, evitar usar perfumes em área de mata (o odor atrai os mosquitos), usar roupas compridas, mosqueterias e telas. Apesar desses métodos não substituírem a vacinação, eles podem contribuir consideravelmente em casos de pessoas impossibilitadas de serem vacinadas.

Controlar o vetor também é uma forma de prevenção, uma vez que áreas com menor circulação de Aedes aegypti terão uma menor circulação do vírus.

 

  1. O que significa “Dose Fracionada”[7]

Atualmente, os postos de saúde estão administrando a dose fracionada da vacinação contra a febre amarela. Na dose fracionada é administrada um quinto (1/5) de uma dose integral (0,5 ml), ou seja, 0,1 ml da vacina são administradas para cada pessoa.

A única diferença, além do volume administrado, está no tempo de proteção. Enquanto a dose integral protege pela vida toda, a dose fracionada da vacina contra a febre amarela tem sua duração de pelo menos 8 anos após a vacinação[8].

Essa é uma recomendação da OMS em situações de emergências, sendo a melhor forma de ampliar os suprimentos de vacina e proteger o maior número de pessoas possíveis num curto período de tempo.

 

  1. Quem deve tomar a vacina contra a febre amarela?

Todas as pessoas a partir de 2 anos de idade que moram ou vão viajar para regiões rurais ou de mata que compõe a Área com Recomendação de Vacinação, exceto aqueles que possuem alguma contra indicação e compõem o grupo de risco[3].

Os viajantes devem se vacinar com 10 dias de antecedência (tempo que leva para a vacina gerar anticorpos contra o vírus)[5]. Em casos de viagem ao exterior em que o país exige certificado internacional de vacinação, deve ser administrada a dose integral da vacina[1].

Ao todo são 135 países, que podem ser consultados no site da Anvisa. Na América do Sul, fazem parte da lista Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Paraguai e Suriname.

 

  1. Quem NÃO deve tomar a vacina contra a febre amarela?

Em geral, qualquer pessoa que esteja passando por uma fase de baixa imunidade não deve tomar a vacina pois pode desenvolver a forma severa da doença.

  • Crianças menores de 9 meses de idade, pois não possuem o sistema imunológico totalmente amadurecido;
  • Mulheres amamentando crianças menores de 6 meses de idade, pois o vírus se encontra circulando no leite e pode contaminar o bebê. Caso tenha se vacinado, interrompa o aleitamento durante 10 dias[9];
  • Pessoas com alergia grave ao ovo. Devido a vacina ser produzida em  ovos embrionados de galinha, pessoas alérgicas podem sofrer reação ao composto da vacina;
  • Pessoas que vivem com HIV e que tem contagem de células CD4 menor que 350;
  • Pessoas em tratamento com quimioterapia/radioterapia;
  • Pessoas portadoras de doenças autoimunes;
  • Pessoas submetidas a tratamento com imunossupressores (que diminuem a defesa do corpo).

 

  1. Quem deverá ter avaliação médica antes de tomar a vacina?[3]

Algumas pessoas deverão ter avaliação médica para saber se devem ou não tomar a vacina. Basicamente, os médicos irão avaliar os componentes do sistema imunológico e outros possíveis riscos, como local de residência e incidência da doença.

  • Idosos;
  • Pessoas que terminaram tratamento de quimioterapia e radioterapia;
  • Pessoas com doenças hematológicas (do sangue), renais e hepáticas;
  • Grávidas;
  • Pessoas com alergia branda ao ovo;
  • Pessoas em uso de corticoide.

 

  1. A vacina pode causar reações?[3, 7]

Sim. Podem-se observar reações pós-vacinal em 5% a 10% dos vacinados, até dez dias após a aplicação da vacina, com quadro leve de febre e dor de cabeça. Raramente o vírus vacinal irá evoluir para os sintomas grave da febre amarela (menos de um por um milhão de pessoas).

“Geralmente quando nós avaliamos esses eventos adversos graves, existe um indivíduo com uma deficiência imunológica que recebeu a vacina ou por desconhecimento daquela deficiência imunológica ou inadvertidamente recebeu a vacina da febre amarela”, Orlando Martins Filho, pesquisador da Fiocruz em entrevista para o jornal Hora 1.

 


Referências

[1] Folha de São Paulo. Tire suas dúvidas sobre febre amarela, infecção, sintomas e vacinação.

[2] Organização Mundial da Saúde. Febre Amarela.

[3] Ministério da Saúde. Febre Amarela: Sintomas, transmissão e prevenção.

[4] Bio-Manguinhos, Fiocruz. Febre Amarela: Sintomas, transmissão e prevenção.

[5] Santos, N., Romanos, M. T. V. e Wigg, M. D. Virologia Humana. 3ª ed.

[6] Bio-Manguinhos, Fiocruz. Vacina da febre amarela.

[7] Bio-Manguinhos, Fiocruz. Perguntas e respostas sobre fracionamento da dose da vacina de febre amarela.

[8] Bio-Manguinhos, Fiocruz. Estudo de dose resposta da vacina de febre amarela garantiu imunização de longo prazo em dose reduzida.

[9] Sociedade Brasileira de Pediatria. Vacina febre amarela em lactantes.

[10] G1, Rio de Janeiro. Sobe para 18 número de mortos por febre amarela no RJ em 2018.

[11] Estadão. Estado do Rio registra 50 casos de febre amarela, com 23 mortes.

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Sidcley Lyra

Formado em Ciências Biológicas: Microbiologia e Imunologia pela UFRJ no ano de 2017. Tenho experiência na área de Microbiologia, com ênfase em Microbiologia Ambiental. Além dos estudos que resultou no TCC, participei de alguns projetos de popularização da ciência, como o Cineclube Biofilme e o Ciência em Jogo.

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