Sobre a importância da ampliação da capacidade de testagem dos sintomáticos para a contenção da epidemia pela COVID-19 no Brasil

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Antônio Augusto Moura da Silva tem pós-doutorado em Epidemiologia Perinatal pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e é professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

No dia 16/03/2020 publicamos um editorial na “Revista Brasileira de Epidemiologia”, onde analisamos a possibilidade de supressão da epidemia pela COVID-19 com base na proteção dos profissionais de saúde, testagem dos sintomáticos, isolamento dos positivos e quarentena dos comunicantes [1]. Hoje, dia 18/03/2020, o Brasil tem 621 casos confirmados, distribuídos em quase todas as unidades da Federação e 6 óbitos em São Paulo. Há transmissão comunitária estabelecida nos estados de São Paulo, Pernambuco e Santa Catarina (no sul, na região de Tubarão) e nos municípios de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre [2].

Diante da situação atual, as medidas abordadas no texto (testagem, isolamento e quarentena) não serão suficientes para a contenção da epidemia se utilizadas isoladamente. Devido à grande transmissibilidade do SARS-CoV-2 e à sua elevada letalidade em indivíduos idosos, é muito alta a probabilidade de que muitos casos graves que necessitem de hospitalização ocorram simultaneamente, o que provocará saturação dos serviços de saúde. Como cerca de 5% dos doentes necessitarão de internação em UTI e cerca de 3% precisarão de ventilação mecânica [3], haverá falta de leitos e respiradores para atender a todos os pacientes. Tal situação está ocorrendo na Itália, o que está elevando a taxa de letalidade pela COVID-19 naquele país para cerca de 8% [4] .

Embora o risco de morte pela COVID-19 seja mais elevado em pacientes idosos e/ou naqueles com doenças preexistentes, o relato dos primeiros 4.226 casos nos Estados Unidos, publicado pelo Centro de Controle de Doenças (CDC), constatou que 38% dos hospitalizados têm idade de 20 a 54 anos, indicando que a doença não se limita aos chamados grupos de risco [5] . Outro trabalho realizado por pesquisadores do Imperial College, no Reino Unido, utilizando modelagem estatística, investigou o impacto potencial das intervenções não farmacológicas para reduzir a mortalidade pela COVID-19 e a demanda pelos serviços de saúde. A conclusão foi que estratégias de mitigação (que se concentram em reduzir mas não necessariamente interromper a transmissão da doença – isolamento no domicílio dos casos suspeitos, quarentena dos comunicantes que residem no mesmo domicílio dos casos e distanciamento social dos idosos e daqueles com co-morbidades) não serão capazes de interromper a transmissão da COVID-19. Essas medidas precisam ser combinadas com estratégias de distanciamento social de toda a população e fechamento de escolas e universidades para que a epidemia possa ser suprimida. De acordo com o estudo, se essas estratégias forem adotadas no início da epidemia, elas terão maiores probabilidade de sucesso, mas por outro lado, poderão levar ao retorno da transmissão tão logo elas sejam relaxadas [6].

Recentemente foi publicado estudo mostrando que a hidroxicloroquina, medicamento antigo usado para o tratamento da malária, em combinação com o antibiótico azitromicina reduziram a carga viral do SARS-CoV-2 na nasofaringe de indivíduos infectados em 3 a 6 dias. Entretanto, o ensaio tem várias limitações. Foram estudadas apenas 36 pessoas, sendo seis assintomáticas, 22 com sintomas respiratórios superiores e oito com sintomas de pneumonia. O estudo não foi randomizado, houve perda de seguimento de seis pacientes no grupo de tratamento e o grupo controle foi constituído de pacientes tratados em outro hospital [7]. Dessa forma, até o momento não foi demonstrado que algum medicamento seja capaz de reduzir a letalidade pela COVID-19.

Assim, se em curto espaço de tempo alternativas farmacológicas não se provem capazes de reduzir a letalidade pela COVID-19, apenas medidas não farmacológicas poderão ser utilizadas com essa finalidade. As medidas de contenção devem ser continuadas, ao mesmo tempo em que é importante a adoção de medidas de distanciamento social. Ao que tudo indica, se essa epidemia não for contida a tempo, teremos saturação dos serviços de saúde pela alta transmissibilidade do coronavírus e a taxa de letalidade será mais elevada do que as estimadas atualmente (de 0,5% a 4%) [8] .

Para a contenção satisfatória da epidemia pelo COVID-19 a melhor estratégia para reduzir a mortalidade e impedir a saturação dos serviços de saúde parece ser a combinação de medidas de distanciamento social de toda a população, isolamento de casos, quarentena de comunicantes domiciliares e fechamento de escolas e universidades [6]. A Organização Mundial da Saúde frisou, recentemente, que a testagem de todos os casos suspeitos é fundamental para que se possa controlar a epidemia [9]. Entretanto, a falta de testes diagnósticos e de capacidade laboratorial para a detecção da COVID-19, levou o Ministério da Saúde brasileiro a limitar a testagem apenas para os casos graves, com a justificativa de que a testagem não modifica o tratamento a ser oferecido.

Entretanto, a testagem de todos os sintomáticos, segundo o estudo do Imperial College e a experiência chinesa [10], é fundamental para que a estratégia de combinação de medidas recomendadas para se conter a epidemia sejam bem sucedidas. Casos leves parecem ser responsáveis pela maior parte da transmissão do SARS-CoV-2 [10,11] . Sem a testagem dos sintomáticos será difícil se isolar os doentes e colocar os comunicantes em quarentena. Assim, a produção de kits diagnósticos para a COVID-19 e a capacidade laboratorial para a realização da testagem dos sintomáticos precisam ser urgentemente ampliadas.

Originalmente publicado na Agência Bori

Referências

  1. Silva AA. Sobre a possibilidade de interrupção da epidemia pelo coronavírus (COVID-19) com base nas melhores evidências científicas disponíveis. Rev Bras Epidemiol 2020; 23. Published online Mar 16. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-790X2020000100100&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Notificação de casos da doença pelo coronavírus 2019 (COVID-19).  [Internet]. 2020 [acessado em 19 mar. 2020]. Disponível em:http://plataforma.saude.gov.br/novocoronavirus/#COVID-19-brazil
  3. Guan W-J, Ni Z-Y, Hu Y, Liang W, Ou C-Q, He J-X, et al. Clinical Characteristics of Coronavirus Disease 2019 in China. N Engl J Med. 2020. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2002032
  4. Worldometer. COVID-19 Coronavirus oubreak. ).  [Internet]. 2020 [acessado em 19 mar. 2020]. Disponível em: https://www.worldometers.info/coronavirus/
  5. CDC COVID-19 Response Team. Severe Outcomes Among Patients with Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) — United States, February 12–March 16, 2020. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 2020; 69. https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/mm6912e2.htm
  6. Ferguson NM, Laydon D, Nedjati-Gilani G, Imai N, Ainslie K, Baguelin M, et al. Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID- 19 mortality and healthcare demand [Internet]. 2020 [acessado em 19 mar. 2020]. Disponível em: https://www.imperial.ac.uk/media/imperial-college/medicine/sph/ide/gida-fellowships/Imperial-College-COVID19-NPI-modelling-16-03-2020.pdf
  7. Gautreta P, Lagiera J-C, Parolaa P, Hoanga V, Meddeba L, Mailhe M. Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial. International Journal of Antimicrobial Agents – In Press 17 March 2020 – DOI: 10.1016/j.ijantimicag.2020.105949.  Disponível em: https://www.mediterranee-infection.com/wp-content/uploads/2020/03/Hydroxychloroquine_final_DOI_IJAA.pdf
  8. Dorigatti I, Okell L, Cori A, Imai N, Baguelin M, Bhatia S, et al. Severity of 2019-novel coronavirus (nCoV). [Internet]. 2020 [acessado em 19 mar. 2020]. Disponível em: https://www.imperial.ac.uk/media/imperial- college/medicine/sph/ide/gida-fellowships/Imperial-College-2019-nCoV-severity-10-02-2020.pdf
  9. World Health Organization. WHO Director-General’s opening remarks at the media briefing on COVID-19 – 16 March 2020 [Internet]. World Health Organization; 2020 [acessado em 19 mar. 2020]. Disponível em: https://www.who.int/dg/speeches/detail/who-director-general-s-opening-remarks-at-the-media-briefing-on-covid-19—16-march-202010.
  10. World Health Organization. Report of the WHO-China Joint Mission on Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) [Internet]. World Health Organization; 2020 [acessado em 19 mar. 2020]. Disponível em: https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/who-china-joint-mission-on-covid-19-final-report.pdf
  11. Li R, Pei S, Chen B, Song Y, Zhang T, Yang W, et al. Substantial undocumented infection facilitates the rapid dissemination of novel coronavirus (SARS-CoV2). Science; 2020. https://doi.org/10.1126/science.abb3221

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