Entenda a prática do Shinrin-yoku e seus benefícios para a saúde

Esse texto foi escrito por Luciano Caminha Júnior e Fernanda Vargas Amaral do Centro de Inovação SESI em Tecnologias para Saúde

A saúde é muito mais que a ausência de doença. Pelo contrário, a saúde é um fenômeno multidimensional que engloba além de aspectos fisiológicos, psicológicos e sociais. Neste sentido, o conceito de que estar em contato com a natureza faz bem para a saúde é tão forte e aceito por todos como algo natural, que durante anos não houve estudos científicos a respeito deste tema.

Entretanto, o crescimento dos índices de estresse na população, associados a um estilo de vida sedentário e o aumento de doenças cardiovasculares, têm impulsionado o desenvolvimento de pesquisas científicas que pudessem identificar as características da relação entre o homem e meio ambiente como promotora da saúde [1].

No Japão, a noção de que o contato com a natureza possui propriedades terapêuticas é tão relevante que há um nome próprio para essa prática: Shinrin-yoku, que se refere ao ato de fazer contato e estar na atmosfera da floresta, podendo ser traduzido ainda como “banho de floresta” [2]. Em uma pesquisa conduzida pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês, identificou-se que 54,2% das pessoas avaliaram seu nível de estresse como muito alto e sua saúde baixa [3], incentivando o governo japonês a investir na investigação científica da prática japonesa do shinrin-yoku [4].


O Shinrin-yoku


No ano de 2005, a Agência de Floresta do governo japonês instituiu o plano para estimular o estudo dos efeitos terapêuticos da floresta e a relação homem-floresta, procurando assim, um respaldo científico à prática do shinrin-yoku [3]. Como consequência, a produção acadêmica sobre os benefícios do contato com a floresta multiplicou-se, promovendo investigações acerca dos benefícios do shinrin-yoku para a imunologia [5], diminuição do estresse [6], melhora no estado de humor [7] e no desempenho cognitivo [8], entre outros.

Shinrin-yoku é tido como um processo que visa aprimorar o estado de relaxamento físico e mental [9]. Entre os benefícios da prática do shinrin-yoku estão a redução do ritmo cardíaco, da pressão arterial, do estresse, da ansiedade e da depressão. Além disso, estudos sugerem que o shinrin-yoku é capaz de aumentar os níveis de adiponectina, um hormônio produzido pelo tecido adiposo que possui papel de supressão de alguns distúrbios metabólicos, como a obesidades e a diabetes tipo 2 [10].

“Os efeitos do contato com a floresta sobre o sistema imunológico mantinham-se por 30 dias após a visita”

Em 2006, como parte do plano para investigar os Efeitos Terapêuticos da Floresta, Li e colaboradores realizaram uma série de estudos laboratoriais investigando o efeito que a Phytoncide, um óleo derivado de plantas, produz sobre as células NK do sistema imune (natural killers ou assassinas naturais) [14]. Foi percebido que estes compostos naturais eram capazes de aumentar as células NK e consequentemente melhorar o sistema imunológico. Nos anos seguintes, verificou-se que a prática do shinrin-yoku, é também capaz de aumentar as células NK [11].

Em 2010, Li voltou a verificar a relação entre o shinrin-yoku e a melhora imunológica através das células NK. Desta vez, Li foi além e identificou que os efeitos do contato com a floresta sobre o sistema imunológico mantinham-se por 30 dias após a visita, sugerindo que a frequência de uma vez ao mês é suficiente para manter o nível de células NK ativadas. Além disso o mesmo autor demonstrou que os benefícios desta prática vão além do aumento das NK, atuando também em níveis intracelulares de proteínas anticancerígenas [10].

Morita e colaboradores (2007) verificaram os efeitos agudos da prática do shinrin-yoku em uma amostra de 541 adultos saudáveis sobre o estado de humor e a percepção de satisfação dos sujeitos. Os resultados desse estudo ainda sugeriram que os efeitos do shinrin-yoku não se resumem simplesmente ao fato do indivíduo estar realizando atividades físicas ou estar realizando sua atividade favorita, mas sim aponta para um efeito causado pelo ambiente florestal [12].

Sobre os efeitos fisiológicos da prática do shinrin-yoku, Park e colaboradores (2010) realizaram uma revisão de 9 pesquisas empíricas realizadas entre 1998 e 2008 com métodos de avaliação fisiológica. Os resultados deste estudo apontam para uma diminuição significativa da frequência cardíaca, pressão sistólica do sangue, pressão diastólica do sangue e do cortisol nas condições de floresta em relação ao meio urbano [4].

Segundo o escritor  Qing Li, existe uma explicação genética para a ligação do homem com a natureza. Para ele, devido ao fato de que evolutivamente passamos o maior tempo junto à terra e a natureza, temos necessidade de nos conectar a ela [10]. Isso porque em 1800, apenas 3% da população mundial vivia em áreas urbanas e em 2016, este número chegou a 54% [13].

Essa tendência tende a piorar já que a Divisão de População das Nações Unidas prevê que em 2050, 66% das pessoas no planeta viverão em áreas urbanas. Ou seja, imagem que emerge é que “vivemos em nossa sociedade moderna com corpos que ainda estão adaptados ao ambiente natural” [13].

De acordo com este autor, os genes não podem mudar em apenas algumas centenas de anos. Assim, problema de viver em cidades em corpos adaptados à natureza é que esse estilo de vida mantém “o sistema nervoso simpático em constante estado de superestimulação” [13], ou seja aumento de estados de estresse e ansiedade que podem nos predispor ao aumento do cortisol, hormônio responsável pelo estresse e a consequente diminuição do sistema imunológico.

Alguns pesquisadores chegaram a ponto de sugerir que apenas olhar a floresta pode oferecer proteção contra o câncer, a depressão e a demência. Além disso pouco mais de vinte minutos de “ingerir a atmosfera da floresta”, já mostrou reduzir significativamente os níveis de cortisol na corrente sanguínea. Outras pesquisas anteriores mostraram que os indicadores de estresse foram reduzidos de alguma forma simplesmente visualizando imagens de paisagens florestais em ambientes fechados [9].

Moradores Urbanos

Em ambientes urbanos, longe da natureza, os parques são um substituto aceitável. Os planejadores urbanos de todo o mundo estão se tornando cada vez mais conscientes da importância da natureza e estão criando novos tipos aproximar a natureza de onde passamos a maior parte do tempo, ou sejas, em casa ou no trabalho.

Miyazaki (2018) demonstrou que a quantidade de madeira em uma sala pode gerar benefícios de relaxamento para as pessoas. Nesta pesquisa, os participantes que tiverem um maior contato como a madeira não tratada, experimentaram atividade cerebral reduzida, aumento da atividade nervosa parassimpática, redução da atividade nervosa simpática e menor frequência cardíaca [13].

Por este motivo, muitos estabelecimentos comerciais começaram a perceber os benefícios e usar essa arte de curar para tornar seus funcionários mais produtivos e, no ambiente de varejo, motivando seus clientes a permanecerem lá por mais tempo. Além disso, muitos edifícios públicos, empresas e instituições acadêmicas incorporam tetos solares e murais com imagens da natureza para reduzir o estresse e tornar as instituições mais agradáveis e propícias para desenvolvimento cognitivo [9].

Conclusão

Devido ao crescente aumento da concentração populacional em áreas urbanas e ainda a vida agitada das pessoas, evidências mostram os benefícios do contato com a natureza para a saúde e a importância deste para o bem-estar das pessoas. Por este motivo é uma tendência entre pesquisadores de vários países do mundo, a investigação sobre os efeitos preventivos e restaurativos da prática do shinrin-yoku para saúde. Entre os países pioneiros neste estudo estão: Estados Unidos, Holanda, Coréia do Sul e Japão.  

No Japão, a iniciativa das autoridades políticas promoveu o estímulo para a população aumentar os comportamentos de contato com a natureza (shinrin-yoku) assim como fomentar a pesquisa científica e a descoberta das características ambientais benéficas e os efeitos que elas produzem em diferentes condições [4]. Na falta de florestas nos grandes centros urbanos, pesquisas sugerem que os ambientes naturais são capazes de diminuir o estresse por possuírem características que projetam segurança, subsistência e ausência de estímulos aversivos.


Referências


[1] 2013. Steg, van den Berg e Grood. Environmental Psychology: An Introduction

[2]. 2010. Li, Q. Effect of forest bathing trips on human immune function. Environmental Health and Preventive Medicine, 15(1), 9-17.

[3] 2010. Tsunetsugu, Y., Park, B. e Miyazaki, Y. Trends in research related to “shinrin-yoku” (taking in the forest atmosphere or forest bathing) in japan. Environmental Health and Preventive Medicine, 15(1), 27-37.  

[4] 2010. Park, B. J., Tsunetsugu, Y., Kasetani, T., Kagawa, T., e Miyazaki, Y. The physiological effects of shinrin-yoku (taking in the forest atmosphere or forest bathing): Evidence from field experiments in 24 forests across japan. Environmental Health and Preventive Medicine, 15(1), 18-26.  

[5] 2012. Li, Q. An Interview with Forest Medicine and Shinrin Yoku Researcher Dr. Qing Li. Hiking Research. Connecting people with therestaurative power of the nature.

[6] 2009. Park, B. J., Tsunetsugu, Y., Kasetani, T., Kagawa, T., e Miyazaki, Y. The physiological effects of Shinrin-yoku (taking in the forest atmosphere or forest bathing): evidence from field experiments in 24 forests across Japan. Environmental Health and Preventive Medicine.

[7] 2011. Tsunetsugu, Y., Park, B. J., Lee, J., Kagawa, T., e Miyazaki, Y. [Psychological relaxation effect of forest therapy: Results of field experiments in 19 forests in japan involving 228 participants]. Nihon Eiseigaku Zasshi.Japanese Journal of Hygiene, 66(4), 670-676.

[8] 2012. Bae, D., Seol, H., Yoon, H.-G., Na, J.-R., Oh, K., Choi, C.Y.,  Lee, D.-W., Jun, W., Youl Lee, K., Lee, J., Hwang, K., Lee, Y.-H. e Kim, S. Inhaled essential oil from chamaecyparis obtuse ameliorates the impairments of cognitive function induced by injection of β-amyloid in rats. Pharmaceutical Biology, 50(7), 900-910.

[9] 2007. Park, B. J, Tsunetsugu, Y., Kasetani, T., Hirano, H., Kagawa, T., Sato, M. e Miyazaki, Y. Physiological effects of shinrin-yoku (taking in the atmosphere of the forest) – using salivary cortisol and cerebral activity as indicators-. Journal of Physiological A

[10] 2018. Li, Q. Shinrin-Yoku: A Arte Japonesa da Terapia da Floresta.

[11] 2007. Li, Q., Morimoto, K., Nakadai, A., Inagaki, H., Katsumata, M., Shimizu, T. e Kawada, T. Forest bathing enhances human natural killer activity and expression of anti-cancer proteins. International Journal of Immunopathology and Pharmacology, 20(2 Suppl 2), 3-8.

[12] 2007. Morita, E., Fukuda, S., Nagano, J., Hamajima, N., Yamamoto, H., Iwai, Y. e Shirakawa, T. Psychological effects of forest environments on healthy adults: Shinrin-yoku (forest-air bathing, walking) as a possible method of stress reduction. Public Health, 121(1), 54-63.

[13] 2018. Miyazak, Y.Shinrin-Yoku: The Japanese Art of Forest Bathing.Hardcover.

[14] 2006. Li, Q., Nakadai, A., Matsushima, H., Miyazaki, Y., Krensky, A., Kawada, T., e Morimoto, K. Phytoncides (wood essential oils) induce human natural killer cell activity. Immunopharmacology and Immunotoxicology, 28(2), 319-333.


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