Por que o Vírus da Raiva é tão letal?

Esse texto foi escrito por Úrsula Lopez, aluna de graduação do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes (IMPG/UFRJ) e saiu primeiro no episódio #7 do Podcast Microbiando.

 

A raiva é uma doença infecciosa viral que afeta o sistema nervoso dos mamíferos, inclusive o sistema nervoso dos humanos, e gera bastante preocupação na área da saúde por ser uma enfermidade fatal em quase 100% dos casos. Ela é uma zoonose, ou seja, é naturalmente transmitida para o homem através de animais e, no caso da raiva, essa transmissão ocorre principalmente pela mordedura e arranhadura de um animal infectado.

Infelizmente não é possível erradicar esse vírus assim como ocorreu no caso da varíola, pois o vírus da raiva infecta também os mamíferos não humanos, sendo praticamente impossível eliminar o vírus de todos os mamíferos do mundo.

 

 

E além disso, novas espécies de animais que funcionam como hospedeiros continuam sendo descobertos devido a disseminação de variantes do morcego-vampiro na América do Sul.

Essas espécies de morcegos hematófagos são um dos principais hospedeiros e transmissores do vírus da raiva para as pessoas e tem esse nome porque se alimentam de sangue, inclusive o sangue humano.

 

Por que o vírus da raiva é tão letal?

Esse vírus pode infectar o tecido nervoso e por isso consegue ser tão letal. Quando algum animal raivoso morde uma pessoa, ele deposita saliva infectada com vírus no interior do músculo e tecidos adjacentes, como o tecido conjuntivo. Nesses tecidos haverá a replicação viral, até que haja um número suficiente de novos vírus, chamado de partículas, para dar continuidade à infecção.

Através das junções neuromusculares, o vírus consegue atingir o sistema nervoso periférico e, logo depois, o central, onde promove danos irreparáveis. Por exemplo, no cérebro o vírus afeta o sistema límbico, responsável pelas emoções e pelo comportamento social, acarretando nos clássicos distúrbios comportamentais que os animais e as pessoas infectadas apresentam, dando origem ao nome da doença.

 

É impossível sobreviver a essa infecção?

É difícil ter sobreviventes, praticamente 100% das pessoas infectadas não conseguem resistir aos sintomas, já que além de afetar o sistema nervoso, o vírus pode alcançar outros órgãos e pode provocar falência cardíaca e respiratória.

Apesar da raiva ser datada desde o início da Era Cristã, só foram registrados cinco casos de sobrevivência no mundo todo: dois nos EUA, um na Colômbia e dois aqui no Brasil.

Em 2004, a americana Jeanna Giese foi a primeira pessoa no mundo que foi considerada curada da raiva e o sucesso em seu tratamento foi devido ao protocolo de Milwaukee. Jeanna chegou ao hospital e os médicos iniciaram um tratamento induzindo a menina ao coma e utilizando antivirais. Para a alegria e espanto de todos o tratamento deu certo e Jeanna foi a primeira pessoa no mundo que foi considerada curada da raiva.

Aqui no Brasil, foi feita uma adaptação do protocolo de Milwaukee para o tratamento do Marciano Menezes, o primeiro brasileiro a ser curado em 2008 e também no caso do amazonense Mateus Silva que foi o segundo brasileiro a sobreviver a doença, depois que ele e seus dois irmãos foram infectados pelo vírus da raiva ao serem atacados por morcegos.

Marciano Menezes da Silva, primeira pessoa a sobreviver à raiva humana no Brasil, diz: “Eu nasci de novo”. Fonte: UOL Notícias

Nos últimos anos, os números de casos de raiva se estabilizaram devido à vacinação em animais domésticos e às medidas de profilaxia, porém esse medo ainda está longe de ter fim, principalmente devido a transmissão silvestre. No início do mês de maio de 2018, já foram notificados alguns casos e mortes por raiva no estado do Pará.

 

Como proteger?

A vacina profilática pré-exposição em humanos só é utilizada em grupos de alto risco como veterinários, treinadores de cães, vacinadores, entre outros. Existe ainda um protocolo de vacinação pós-exposição, quando indivíduos são mordidos por animais potencialmente infectados, além do soro antirrábico, composto de imunoglobulinas prontas, que só pode ser usado em algumas situações.

Em animais domésticos, o controle da infecção é feita através de campanhas de vacinação antirrábica, o que diminui as chances de se contrair raiva através dos pets.

Morcego hematófago mordendo o pé de uma pessoa. Fonte: Site Minas Hoje

Caso você seja mordido por algum animal mamífero, lave imediatamente o local da ferida com muita água corrente e sabão, podendo também passar algum antisséptico, pois ajuda a inativar o vírus. Caso o animal seja desconhecido ou venha a falecer em menos de 10 dias, será iniciado o tratamento pós-exposição, que não deve ser interrompido de forma nenhuma e o caso deve ser notificado à Vigilância Sanitária. Sendo animal conhecido, o mesmo deve ficar em observação por 10 dias para ver se possui alguma alteração em seu comportamento, como ficar muito agitado ou muito calmo e medo da luz. Caso não tenha alteração de comportamento, o tratamento deve ser interrompido.

Então, é importante ficar alerta, pois apesar da existência da vacina, a cura da raiva é extremamente rara e ainda pode apresentar sequelas graves.

 


Bibliografia:

2018. Christine R. Fisher, Daniel G. Streicker e Matthias J. Schnell. The spread and evolution of rabies virus: conquering new frontiers. Nature Reviews

2018. Ministério da Saúde. Brasil tem segundo caso de pacientes que sobreviveram ao vírus da raiva humana.

2018. Laboissiere, Paula. Pará tem 12 casos notificados de raiva humana.

2018. Andréia Verdélio. Amazonas registra o segundo caso de sobrevivência por raiva humana no Brasil. Agência Brasil.

2018. Fabiana Maranhão. “Eu nasci de novo”, diz 1º sobrevivente de raiva humana do país. UOL Notícias.

2016. The Guardian. Experience: I was bitten by a rabid bat.

2009. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde. Protocolo para Tratamento de Raiva Humana no Brasil.


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