Probióticos: Conceitos que você precisa saber

Esse texto foi escrito por Giovanna Lopes, graduanda de Microbiologia e Imunologia/UFRJ e aluna de Iniciação Científica no Laboratório de Biologia de Anaeróbios.

O termo probiótico foi definido pela ONU e pela Organização Mundial da Saúde, nos anos 2000, como “microrganismos vivos que são benéficos para a saúde do hospedeiro quando administrados em quantidades adequadas”.[1]

Entretanto, o termo probiótico surgiu há mais de 100 anos, quando o biólogo e pesquisador Elie Metchnikoff observou que pessoas que viviam em uma determinada região da Bulgária tinham uma vida mais longa do que as pessoas de outras partes do país.[2] Após um tempo, o fato de essas pessoas viverem mais que as outras foi relacionado ao consumo regular de um produto lácteo fermentado.

Os produtos lácteos são assim chamados porque têm ação de bactérias que transformam o açúcar do leite em ácido lático, as bactérias lácticas. Esse ácido tem a capacidade coagular* proteínas do leite formando o coalho, que dependendo de outros processos, podem formar diversos queijos, iogurte e leite fermentado.[3] Eles são usados como suplemento nutricional e podem ser encontrados nos supermercados.[4] Alguns desses produtos você até pode conhecer, como o Yakult e Activia.

 

Qualquer bactéria pode fazer parte de um probiótico?

As bactérias selecionadas para ser um bom probiótico têm que apresentar algumas características importantes:

  • Ser de origem humana;
  • Não ser patogênico;
  • Ser resistente ao processamento necessário para a confecção do produto;
  • Estar viável quando consumido;
  • Conseguir passar pelo estômago, resistindo ao seu pH ácido;
  • Chegar ao intestino e ter a capacidade de se fixar;
  • Ter a capacidade de influenciar a atividade metabólica local e auxiliar na proteção contra infecções, como por exemplo, estabelecer interações com as bactérias da microbiota intestinal* favorecendo o seu crescimento.

As bactérias mais usadas para produção de probióticos são as do gênero Lactobacillus e Bifidobacterium.[4]

 

Bactérias da microbiota combatendo bactérias patogênicas. Imagens meramente ilustrativas (vale avisar)

Como os probióticos nos beneficiam?

De forma geral, os probióticos vão atuar em conjunto com os microrganismos da microbiota da pessoa auxiliando a barreira protetora formada por ela, produzindo compostos que inibem o crescimento de microrganismos patogênicos e até mesmo competindo por nutrientes, fator muito importante no controle de patógenos[4]; Em relação a nutrição e digestão, os probióticos auxiliam na produção de alguns compostos, como vitaminas do complexo B, que são importantes para proteção do fígado, influenciam no trânsito intestinal, ajudam na absorção de nutrientes; Também podem aumentar o valor nutritivo dos alimentos, melhorar o sabor do produto final e promover uma redução na acidez durante armazenamento do produto[4]; Por último e o mais importante de todos: quando a microbiota não estiver em equilíbrio (por exemplo, pela administração de antibióticos ou por diarreia causada por intoxicação alimentar)*, esses probióticos vão recuperar a microbiota normal mais rápido.

 

Podemos observar quatro possibilidades de danos ao intestino e  a ação do microrganismo probiótico no auxílio do estabelecimento do equilíbrio. (a) Os microrganismos agindo como barreira na proteção das microvilosidades intestinal; (b) Secreção de compostos que protegem as microvilosidades e as junções entre células caliciformes; (c) Os microrganismos podem reforçar as junções intercelulares no trato gastrointestinal e (d) combate aos patógenos secretando fatores antimicrobianos, como as bacteriocinas. Imagem adaptada de Gareau, Sherman e Walker, 2010.

 

Porém, como esses microrganismos não se multiplicam rapidamente, se a pessoa ingerir um produto probiótico por apenas um dia e não voltar a toma-lo, o efeito não será mais visto. Isso acontece porque eles, em geral, não colonizam o intestino, pois são transitórios e, por isso, é importante a administração dia a dia, conforme for recomendado pelo fabricante.[4]

 

Glossário

*Coagulação: consiste na transformação do leite no seu estado liquido para o sólido.

*Microbiota intestinal: microrganismos que se associam a parede do intestino, atuando como proteção contra infecções patogênicas. É importante favorecer o crescimento de microrganismos da microbiota justamente para permitir que as reações benéficas que acontecem nessa interação ocorram de forma contínua.

*A administração de antibióticos causa um desequilíbrio na microbiota, fazendo com que alguns microrganismos que fazem parte dessa barreira, não sejam encontrados na mesma quantidade que antes eram.[5]

Gostaria de agradecer às mestrandas Priscylla Guimarães e Mariana Oliveira, assim como à Professora e Doutora Karla Rodrigues Miranda por toda ajuda na elaboração do conteúdo. Um agradecimento especial ao Sidcley Lyra e Luiza Toledo por me cederem o espaço.


Referências

[1] FAO/WHO. 2002. Health and Nutrition Properties of Probiotics in Food including Powder Milk with Live Lactic Acid Bacteria.

[2] Associação Europeia de Probióticos. Pioneiros do probiótico.

[3] Dinan, T. G. e Quigley, E. M. 2015. Probiotics in the treatment of depression : science or science fiction?Australian & New Zealand Journal of Psychiatry.

[4] Nogueira, J. C. R. e Gonçalves, R. C. M. 2011. Probióticos – Revisão da Literatura. Revista Brasileira de Ciências da Saúde.

[5] Antunes, M. C. L., McDonald, K. A. J., Schroeter, K., Carlucci, C., Ferreira, R. B. R., Wang, M., Yurist-Doutsch, S., Hira, G., Jacobson, K., Davis, J., Allen-Vercoe, E. e Finlaya, B. B. 2014. Antivirulence Activity of the Human Gut Metabolome. mBio.

 

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