100 anos de gripe espanhola e o Brasil

O centenário da Gripe Espanhola e os novos surtos de Influenza será tema de discussão no dia 18 de outubro, na 24ª Semana de Microbiologia e Imunologia, com o pesquisador da Fiocruz, Dr. Fernando Motta.

 

O ano de 2018 marca o centenário de uma das maiores pandemias respiratórias já registradas, a gripe espanhola. Estima-se que um terço da população global da época tenha sido infectada pelo vírus Influenza, o que daria cerca de 500 milhões de pessoas1.

Por mais que leve o nome de Gripe Espanhola, a doença não teve origem na Espanha e nem ficou restrita a ela. O fato é que em 1918, o mundo estava enfrentando o final da I Guerra Mundial e os países que estavam envolvidos censuravam várias notícias, principalmente aquelas sobre doenças, para não gerar um pânico ainda maior. A Espanha se encontrava neutra na disputa armada e mantinha uma imprensa livre, por isso, foi um dos primeiros a relatar os casos da doença e permitiu a divulgação de dados epidemiológicos.

Quarentena da epidemia de Gripe Espanhola no Kansas, em 1918. Kansas Historical Society

Entretanto, alguns relatos indicam que a pandemia de 1918 teve origem nos Estados Unidos e na França – onde era conhecida pelo codinome “Doença XI” – e a não notificação de casos retardou a adoção de medidas preventivas, o que acabou contribuindo para a rápida disseminação da doença que dizimou entre 20 e 40 milhões de pessoas.

 

 

 

“Quando um soldado da base militar de Fort Riley, nos Estados Unidos, ficou de cama, com sintomas de uma gripe forte, mal podia-se imaginar que fosse gerar uma pandemia de mais de 50 milhões de vítimas. Esse acampamento no Kansas treinava cidadãos americanos para a Primeira Guerra Mundial. Naquela semana de março, mais de 200 soldados adoeceram também. Em apenas 14 dias, mais de mil militares foram parar em hospitais — e o mal se alastrou por outros acampamentos. No pico da epidemia, mais de 1500 militares reportaram a enfermidade em um único dia. A doença se espalhou rapidamente pelos EUA e pegou carona com os soldados americanos que embarcaram para a Europa. E de lá ganhou o mundo, incluindo o Brasil.”

 

– Fernando Motta, virologista (Fiocruz)

 

Gripe Espanhola no Brasil

O Brasil vira alvo da Pandemia em setembro de 1918, quando marinheiros brasileiros retornam de Dakar, capital de Senegal, pelo porto de Recife. Alguns dias depois, no início de outubro, são registrados casos em Niterói e em 88 desses marinheiros que prestavam serviços na África. Após 10 dias, o número de casos já se encontravam em 20 mil e começaram a surgir os casos de morte pela Influenza A2.

O livro “A virologia no estado do Rio de Janeiro” relata que a população do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, foi tomada pelo pânico. À medida que os casos aumentavam os serviços públicos como escolas e repartições foram interrompidos e o atendimento em hospitais se tornou caótico. O sistema de transporte foi comprometido e, como consequência, houve um aumento no preço dos poucos alimentos que ainda se encontrava no comércio. A cidade ficou vazia e silenciosa, as populações de baixa renda e habitações com baixo nível de higiene morriam e tinha seus corpos jogados na rua, onde eram recolhidos dias depois para sepultamento em  covas comunitárias.

A situação crítica levou à renúncia do então Diretor Geral de Saúde Pública (cargo aproximado ao de Ministro da Saúde atualmente), Carlos Seidl. O novo diretor, Theóphilo Torres, convidou o pesquisador Carlos Chagas, que havia assumido a direção do Instituto Oswaldo Cruz em 1917, para atuar no controle da epidemia. Chagas liderou a campanha de combate à Gripe Espanhola, convocando médicos e colegas da Academia e implementando cinco hospitais emergenciais e 27 postos de atendimento à população em diferentes pontos do Rio de Janeiro.

Em 19 de outubro calculou-se que a doença já havia atingido metade da população da cidade, estimada em 700.000 pessoas. Em 15 de novembro foi divulgado o saldo da epidemia sendo até então registrados 14.349 mortos, desde o dia 13 de outubro. O próprio Carlos Chagas e sua família foram infectados pelo vírus Influenza A, sobrevivendo todos à infecção. O então presidente do Brasil, Rodrigues Alves, não teve a mesma sorte que a família Chagas e faleceu em janeiro de 1919 devido à gripe espanhola.

 

Novos surtos de Influenza

Desde a Pandemia de 1918, ocorreram mais 3 pandemias de Influenza: a Pandemia da gripe Asiática, em 1957; a gripe de Hong Kong, em 1968; e a Pandemia da gripe suína – ou gripe A, em 2009.  Quando será a próxima?

No dia 18 de Outubro, o pesquisador da Fiocruz, Dr. Fernando Motta, vai elucidar os questionamentos sobre os novos surtos de Influenza que já infectou mais de 47 mil pessoas nos Estados Unidos. Por que devemos ficar de olho nele? Quais os perigos que ele pode causar? E muito mais na 24ª Semana de Microbiologia e Imunologia, na UFRJ.

Outras apresentações da Semana de Microbiologia e Imunologia também incluem questionamentos sobre as inovação no campo das vacinas bacterianas, virais e fúngicas com o ex-presidente da Fiocruz Dr. Akira Homma; e um panorama sobre viroses emergentes com o Dr. Fábio Monteiro, da UFRJ.

 

Quer saber um pouco mais sobre a Gripe Espanhola? Ouça a parte do microlitros de notícias do episódio #12 no nosso Podcast Microbiando.

 


Apoiadores do A Ciência Explica

  1. Leandro Lobo
  2. Luiz Figueira

Obrigado por nos apoiarem através do financiamento coletivo!

Apoie você também e ganhe recompensas, como canecas, bottons, adesivos e livros exclusivos.

Não pode ajudar financeiramente? Siga nossas redes sociais e compartilhe nossas matérias com seus amigos!

 


Referência

[1] Organização Mundial da Saúde. Influenza

[2] 2012. Herman G. Schatzmayr e Maulori Curié Cabral. A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão global. 2ª Edição – Rio de Janeiro: FIOCRUZ.

2018. Podcast Microbiando. Episódio #12, microlitros de notícias.

 

Você também poderá gostar:

comentários

About Sidcley Lyra

Formado em Ciências Biológicas: Microbiologia e Imunologia pela UFRJ no ano de 2017. Tenho experiência na área de Microbiologia, com ênfase em Microbiologia Ambiental. Além dos estudos que resultou no TCC, participei de alguns projetos de popularização da ciência, como o Cineclube Biofilme e o Ciência em Jogo.

View all posts by Sidcley Lyra →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *