Incêndio no Museu Nacional: reflexo de um governo que não se importa com ciência e cultura

Esse texto foi escrito por Luiza Toledo e Sidcley Lyra

O Museu Nacional, a mais antiga instituição científica do Brasil e maior museu de História Natural e Antropologia da América Latina, pegou fogo. Não só pegou fogo, ele foi totalmente consumido pelas chamas, 200 anos de história que viraram cinzas na noite do dia 02 de setembro.

O Museu, administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possuía caráter acadêmico e científico, onde se desenvolvia inúmeros projetos em diversas linhas de pesquisas e áreas do conhecimento, entre elas: antropologia, botânica, entomologia, geologia e paleontologia.

Ao longo de mais de dois séculos, o acervo foi ampliado por intermédio de coletas e escavações, permutas, doações e compras. Diversos núcleos do acervo possuem coleções iniciadas ainda no século XVIII. Alexander Kellner, paleontólogo e atual diretor do Museu Nacional, disse em entrevista à Agência Brasil que o museu tinha um acervo de mais de 20 milhões de itens, porém apenas 5% encontrava-se exposto.

Entre as peças do acervo, encontravam-se fósseis de diversos dinossauros, mamíferos gigantes, o fóssil humano mais antigo das Américas – a Luzia – com mais de 12 mil anos e vários outros fósseis do Brasil e do Mundo. Um dos maiores meteoritos do Brasil ficava logo na entrada do Museu Nacional, onde crianças e adultos ao vê-lo se permitiam sonhar com coisas do espaço sideral. Coleções de insetos, crustáceos, corais, múmias, sarcófagos e outros artefatos arqueológicos representando a cultura do Egito Antigo, do Mediterrâneo, Pré-Colombiana e Brasileira, que durante anos foram conservadas pela dedicada equipe de técnicos e pesquisadores do Museu Nacional, tudo perdido.

Além da destruição irreparável de obras, peças e documentos, fica o sentimento de desamparo e revolta. Parte da história e identidade da sociedade brasileira queimou neste domingo. Até quando instituições culturais e científicas serão sucateadas e deixadas em segundo plano?

Em nota, o Presidente Michel Temer disse: “Incalculável para o Brasil a perda do acervo do Museu Nacional. Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos brasileiros.”

Muitos falam da reconstrução da estrutura do museu como uma solução futura para o incêndio, ignorando completamente o acervo científico, cultural e antropológico que ali era guardado. Entretanto, por mais que se reconstruam paredes, os fósseis, documentos e objetos ali perdidos pelo incêndio, jamais serão recuperados. Até a estrutura, mesmo que reconstruída não será a mesma, não tendo a mesma importância histórica. Infelizmente, parece que restaurar é melhor que conservar. E assim um patrimônio histórico cultural termina em cinzas.

Em entrevista à GloboNews, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, afirmou que o ocorrido é parte do “processo de negligência de anos anteriores“. E completou com “Que isso sirva de alerta para que não aconteça em outros museus. Medidas que poderiam ter sido tomadas anteriormente não foram tomadas”. Infelizmente, o Museu Nacional não foi a única vítima do descaso e nem foi “o primeiro alerta”. Em 2010, o Instituto Butantan sofreu um incêndio que destruiu um dos principais acervos de cobras, aranhas e escorpiões para pesquisas do mundo e o maior do Brasil. Mais de 70 mil espécies conservadas foram queimadas no local. Em 2014, o Centro Cultural do Liceu de Artes e Ofícios também foi vítima de um incêndio que danificou cerca de 30 réplicas de esculturas da Grécia Antiga e Renascimento. Em 2015, o Museu de Língua Portuguesa dedicado à valorização e difusão da língua também foi vítima de um incêndio.

Tristemente, o Museu Nacional foi a maior e mais significativa perda até então, mas ainda há esperança de salvação de poucos artefatos pois os danos ainda estão sendo avaliados pelos bombeiros. Em entrevista à GloboNews, o vice-diretor do Museu Nacional, Luiz Fernando Dias Duarte, disse: “São 200 anos de memória, ciência, cultura e educação, tudo se perdendo em fumo por falta de suporte e consciência da classe política brasileira. Meu sentimento é de imensa raiva por tudo o que lutamos e que foi perdido na vala comum”

Não podemos deixar de destacar, que além da perda cultural e científica, muitos pesquisadores, alunos de pós graduação, técnicos e outros funcionários perderam seu local de trabalho, muitos com mais de 30 anos de casa.

A importância dos museus e centros culturais para a divulgação científica

Primeiramente no mundo e depois no Brasil, os museus tiveram grandes fases de transformação ao longo dos anos, onde passaram de meros depósitos de arte e artefatos para locais culturais, com papel social e educativo. A criação de atividades nos espaços dos museus e centros culturais, principalmente nos museus de ciências, são encarados por museólogos e divulgadores científicos como ações extremamente importantes para a consolidação da cultura científica de uma nação.

Desde seu primórdio, o Museu Nacional tem uma vertente voltada para a divulgação científica. Ainda na época do Império, Ladislau Netto, botânico e diretor do Museu Nacional na época, disse que o museu tinha duas finalidades: colecionar as riquezas do Brasil e educar o povo. E seguindo essa ideologia, inaugurou em 1876 cursos abertos ao público sobre botânica, zoologia, antropologia, geologia, que durou 10 anos[1].

Atualmente as apresentações públicas aconteciam de forma mais tímida, porém outras iniciativas voltada para o público também eram desenvolvidas na internet, como jogos online, matérias na coluna “Caçadores de Fósseis” da Revista Ciência Hoje e atuação na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, UFRJMar Paraty, Dia Nacional da Ciência e outras feiras de ciência.

Gostaríamos, com essa publicação, de prestar nossa homenagem ao Museu Nacional. Aos que tiveram chance de visitar o Museu, sintam-se privilegiados em ter conhecido uma parte da história do Brasil e da humanidade pessoalmente, pois agora, somente em livros e fotos e vídeos que encontraremos pela internet.

‘Cápsula do tempo’ enterrada nos jardins do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. “Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir seu próprio futuro.”  Foto: Papo de Guia 

[1] Ildeu de Castro Moreira e Luisa Massarani. Aspectos Históricos da Divulgação Científica no Brasil. In: Ciência e Público: Caminhos da Divulgação Científica no Brasil.


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