A criação da imagem de cientista pelos filmes

Antes de tudo, vamos fazer um pequeno exercício: Diga em voz alta o nome do primeiro cientista que vem a sua mente. Falou? Bom, provavelmente esse cientista era homem, branco, de idade avançada e vestia um jaleco. Acertei? Se não acertei todas as características, aposto que passei bem perto.

Essa é uma visão da profissão cientista que uma grande parcela de crianças e jovens acreditam ser a verdadeira1, 2. Nessa perspectiva, o cientista aparece numa visão estereotipada e acaba sendo excluída a possibilidade de existir cientistas negros, mulheres, jovens e cientistas que não utilizam jaleco no imaginário social. Mas não se sintam culpados, o fato é que a mídia, seja nos jornais, seja em programas de entretenimento, como nos filmes e novelas, tem uma grande contribuição para a construção dessa percepção social do cientista.

Pois é, você já parou para pensar como os filmes personificam os cientistas?

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Os cientistas nos filmes

Os filmes apresentam a ciência e os cientistas de diferentes formas, mudando a representação de acordo com a época e o contexto social em que são produzidos. Portanto é um olhar da sociedade ou de um grupo dela sobre determinada época.

O filme Le Voyage dans la lune (Viagem à Lua), de Georges Méliè, foi produzido em 1902 sendo considerado o primeiro filme de ficção científica. Nele aparecem as primeiras representações do cientista como exploradores do desconhecido que viajam até a lua, feito realizado somente 67 anos depois; a ciência segue o mesmo trajeto, sendo representada como um caminho para o progresso e dominação, reflexos das últimas décadas do século XIX, época onde a colonização da África e da Ásia por países europeus estava consolidada.

No livro Monsters and mad scientists: a cultural history of the horror movie3 (Monstros e cientistas malucos: a história cultural dos filmes de terror), o escritor e sociólogo Andrew Tudor analisou quase mil filmes que apresentam algum cientista. Em 264 filmes analisados, a ciência é demonstrada como a causadora de catástrofes à humanidade, geralmente promovida por um cientista maluco. Durante essas análises, surgiram alguns perfis que a maioria dos cientistas podem ser encaixados. Esses perfis são estereótipos gerados pelo cinema, em geral, reflexos de sua época. Vamos aos perfis:

 

 

O estranho e irresponsável

Dr. Victor Frankenstein e sua criação (Frankenstein, 1931)

De fato, os filmes da década de 1930 a 1950, mostram o cientista como uma pessoa esquisita, socialmente irresponsável, porém genial e comprometida com seu trabalho. Uma representação quase que de mágico e, no geral, seus experimentos terão efeitos negativos. Esse perfil é conhecido como Dr. Frankenstein, devido ao personagem Victor Frankenstein que reúne partes do corpo humano e concebe a dádiva da vida à criatura. Outro cientista que se encaixa no perfil Dr. Frankenstein é o Dr. Jekyll de O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1931), que testa em si a substância que separaria o lado “bom” do lado “mau” das pessoas e acaba deixando seu lado ruim o dominar, se transformando num monstro.

 

O cientista maluco

Doc Emmet Brown, criador da máquina do futuro, um DeLorean (De Volta para o Futuro, 1985)

Esse perfil as vezes se confunde com o Dr. Frankenstein, porém talvez seja o mais reconhecido pela população. O cientista maluco é representado como excêntrico, antissocial e irônico; ele é tão compromissado com seu trabalho que não tem tempo para a família nem amigos, muitas vezes associado ao termo Nerd ou Geek.

Esse perfil é muito utilizado em filmes de ficção científica com vertente na comédia que apresentam cientistas e inventores de forma estabanada e bem caricata. Podemos ver esse perfil na trilogia De Volta para o Futuro (1985, 1989 e 1990), com o Doc Emmet Brown em seus trajes de proteção radioativa e cabelos sempre esvoaçados e no filme Querida Encolhi as Crianças (1989), onde o cientista Wayne Szalinski, inventa uma máquina que altera o tamanho de objetos.

 

O ingênuo manipulável

Adam Gibson e o Dr. Griffin Weir (O 6º Dia, 2000)

Pulando para os anos entre 1950 e 1970, período pós-segunda guerra mundial, surge a tendência de o avanço científico ser tratado como uma ameaça ao mundo, como podemos ver no filme Dr. Fantástico ou Como aprendi a parar de me preocupar e comecei a amar a bomba (1964), do diretor Stanley Kubrick.

Por outro lado, o cientista passa a ser considerado ingênuo, pois se acredita que por trás das bombas de Hiroshima e Nagasaki existem pessoas manipuladas por militares fazendo uma ciência a favor do mal. Nesse período, as representações de cientistas adotam esse perfil ingênuo, como no caso do Dr. Griffin Weir (O 6º Dia, 2000), onde uma grande empresa utiliza o conhecimento do pesquisador como um meio para gerar lucros, vencer guerras ou concluir algum plano super elaborado para dominar o mundo. No lugar de empresa também pode aparecer o Governo ou as Forças Armadas, como na saga épica de Avatar (2009).

 

O protagonista e herói

Indiana Jones, interpretado pro Harrison Ford

A partir da década de 1980, a ciência passa a ser representada de forma mais positiva no cinema, transformando a temática em aventura. E, com isso, surge o perfil heroico do cientista que possui a voz ética e, em geral, resolve os problemas criados ao decorrer do filme. Dois exemplos clássicos são o Dr. Henry Jones, mais conhecido como Indiana Jones: um arqueólogo que divide seu tempo em dar aulas e se aventurar atrás de antiguidades; e o paleontólogo Dr. Alan Grant, de Jurassic Park (1992) que é convidado para examinar a segurança do parque.

Em Jurassic Park, assim como em outros filmes, fica clara a influência dos avanços da genética na construção do enredo. Blade Runner – O caçador de androides (1982), A experiência (1995), GATTACA (1997) e o 6º Dia (2000) são outros exemplos, porém com uma visão distópica do futuro.

Em geral, filmes distópicos sobre desastres naturais trazem cientistas com o perfil heroico. É o caso dos cientistas do filme 2012 e O Dia Depois de Amanhã, em especial o geólogo Adrian Helmsley e o climatologista Jack Hall, responsáveis por prever a ocorrência de catástrofes no mundo, respectivamente.

 

Cientistas do século XXI

A linguista Dra. Louise Banks, em A Chegada (2016)

Com a incessante produção de filmes e a ciência se tornando cada vez mais parte do dia-a-dia das pessoas, alguns autores4 indicam um perfil emergente do protagonista e herói. Nos filmes atuais, o cientista tem uma representação multidimensional de sua personalidade, ambígua e complexa. São personagens que podem levantar questionamentos éticos sobre determinados assuntos e ter comportamentos destrutivos sobre outros. O cientista é introduzido fundamentalmente como humano, capaz de fazer o bem, o mal e qualquer coisa que esteja entre isso.

 

Leia também O cientista na produção de filmes de ficção científica

 

Qual a influência do imaginário social a cerca dos cientistas na vida real?

“O imaginário é uma forma de realidade histórica”5, portanto esses estereótipos que temos da profissão cientista, muitas vezes limitados, são tomados como reais pela sociedade.

Um impacto claro disso na vida real é o afastamento da população de assuntos científicos por julgarem como sendo muito complexos e que somente “gênios” poderiam entender. De fato, um estudo de percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil6, mostrou que a maior parcela dos brasileiros acreditam que cientistas são pessoas inteligentes (50%), enquanto uma pequena parcela definiu os cientistas como pessoas comuns com treinamento específico (14%).

Esse afastamento é preocupante do ponto de vista da diversidade científica, tanto de gênero e raça quanto cultural. Cientistas de origens tão diversas podem trazer muitos pontos de vista para o estudo de problemas científicos. Crianças com uma limitação da realidade do “ser cientista” pode não se identificar com o que assiste nos filmes, podendo influenciar negativamente sua escolha na carreira cientifica.

Se vocês notaram, apenas uma cientista mulher foi citada nos perfis acima. Isso acontece por dois motivos:

  1. Baixa representatividade de mulheres cientistas nos filmes;
  2. Quando aparecem, são representadas totalmente diferente dos perfis citados, geralmente como co-adjuvante.

Iremos tratar da representação da cientista mulher em filmes numa outra matéria. Mas, reforçando, quanto maior a diversidade de cientistas representados nos filmes, melhor serão as referências para as próximas gerações.

Obviamente não se pode reduzir a formação do imaginário social em torno do cientista somente pelos filmes. Existem muitos outros aspectos e, como um deles, podemos destacar o sistema educacional. Sua parcela de influência se afirma por manter uma abordagem de ensino em ciências que sustenta certos estereótipos aqui falados. A ciência não é um conjunto de conhecimento produzido por um único cientista ou um “gênio”. Muito menos apenas por cientistas homens, brancos e seniores. Cada pesquisador colabora com sua parcela de conhecimento para a formação da ciência.

 


Referências

  1. 2018. G. Ribeiro e J.L.J.C. da Silva. A imagem do cientista: impacto de uma intervenção pedagógica focalizada na história da ciência.
  2. 2014. G. Soares e G. Scalfi. Adolescentes e o imaginário sobre cientistas: análise do teste “Desenhe um cientista” (DAST) aplicado com alunos do 2º ano do Ensino Médio.
  3. 2008. L. Barca. As múltiplas imagens do cientista no cinema.
  4. 2013. M. C. Nisbet e A. Dudo. Entertainment Media Portrayals and Their Effects on the Public Understanding of Science.
  5. 2006. B. J. de Oliveira. Cinema e Imaginário Científico.
  6. 2015. Percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil 2015 – Ciência e tecnologia no olhar dos brasileiros

 


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About Sidcley Lyra

Formado em Ciências Biológicas: Microbiologia e Imunologia pela UFRJ no ano de 2017. Tenho experiência na área de Microbiologia, com ênfase em Microbiologia Ambiental. Além dos estudos que resultou no TCC, participei de alguns projetos de popularização da ciência, como o Cineclube Biofilme e o Ciência em Jogo.

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