11 dicas de como fazer uma boa apresentação acadêmica

Esse texto foi escrito por Thiago Araujo, pós-doutorando pelo Asia Pacific Center for Theoretical Physics, Coréia do Sul. 

Twitter: @thiagrr

Boa parte da atividade científica consiste em assistir e falar sobre as pesquisas nos mais diversos graus de profundidade e os aspectos sociológicos são frequentemente ignorados (sobretudo no começo da carreira). No entanto, é importante reconhecer que as palestras são parte fundamental na formação e consolidação de colaboradores, divulgação de resultados, ensino, entrevistas de postdoc, concursos, pedido de financiamento e etc. Pra algo tão frequente e importante, a primeira suposição é de que a maior parte dos acadêmicos tenham um talento acima da média para falar em público.

Infelizmente, a verdade é que a maior parte das apresentações que você já assistiu e vai assistir nas universidades são simplesmente uma droga. Não importam os anos de experiencia e, pra ser sincero, acho que muitos palestrantes ficam piores com o tempo: 1) eles não tem mais as preocupações do início da carreira; 2) sua coleção de puxa-sacos sempre os elogiará. O pior de tudo? Talvez suas próprias apresentações sejam assim.

O lado bom é que isso é algo que pode ser resolvido com um certo esforço. Nesse texto gostaria de compartilhar algumas ideias pra melhorar suas palestras.

ATENÇÃO O texto ficou longo mas, caso goste dele, use-o como pequeno guia, pense sobre o que disse. Veja onde você concorda e discorda, pode me escrever e dizer onde e porque estou errado.

 

Sobre o estilo
  1. Seja minimalista.

 Faça slides simples, com uma (e apenas uma) mensagem curta em cada. 10 ideias em 1 slide a cada 10 min é muito inferior a 1 ideia por slide a cada 1 min. Não economize, apenas faça transições rápidas. Nunca coloque textões, e nunca leia mais de 1 linha de texto. Evite que sua audiência se distraia com muita leitura. Use imagens.

  1. Não marque os slides com números de páginas.

Isso causa medo e ansiedade. Como disse, o número de slides não necessariamente significa que você precisará de 4 horas pra terminar. De qualquer modo, não assuste ninguém com numeração. Existe um outro motivo: quando você for chegando ao final, as pessoas só vão querer que você passe as últimas 3 páginas pra elas irem embora.

  1. Planeje

Nunca diga “vou pular esse slide já que ele é desnecessário”. Por que você o colocou então? Faça uma apresentação com carinho e planejamento.

  1. Seja organizado.

Tente seguir uma estrutura lógica narrativa. Por exemplo: 1) Motivações e contexto, 2) abordagens iniciais, 3) como o jogo mudou, 4) consequências e 5) resumo e/ou lista de problemas abertos. Use marcadores pra separar seções.

  1. Pense se você realmente precisa detalhar o seu artigo.

Em pouquíssimas situações você precisa explicar todas as suas contribuições. Num journal club (explico isso abaixo) isso é ok, mas na maior parte dos casos dê preferência ao “big picture”, e mencione como você atacou o problema. Deixe os detalhes pro seu orientador, alunos, colegas e colaboradores.

 

Sobre a audiência
  1. Conheça sua audiência.

Sério.  Essa é a dica mais óbvia, mas constantemente ignorada. Numa defesa de monografia, tese, dissertação e trabalho de conclusão de curso, a sua audiência será a banca. Muitas vezes são especialistas que (teoricamente) leram seu trabalho e sabem (ou deveriam saber) o que você fez.

Em muitas outras ocasiões, saber quem irá assistir não é tão simples, por isso pergunte aos organizadores qual é a principal audiência. Professores? Alunos? Público geral? Isso é importante para o nível de detalhe.

Geralmente, o próprio “tipo” de apresentação indica o nível exigido:

  • Colóquios são os mais informais e mais comuns. Geralmente são organizados de forma que qualquer pessoa minimamente “educada” na área possa assistir. Exemplo: neurologistas convidam um neurocirurgião pra falar sobre o seu trabalho. Todos tem um conhecimento em comum, mas o neurocirurgião fará um seminário menos detalhado, mais coloquial.
  • Seminários são o nível intermediário. Usando o exemplo anterior, suponha que os neurologistas convidam um outro neurologista pra apresentar seu trabalho. Mas agora suponha que entre os neurologistas existam diferentes especializações, alguns pesquisam os efeitos de drogas, outros Alzheimer e assim por diante. Nesse caso, o nível será ainda maior.
  • Palestras em journal clubs são as mais especializadas. Seguindo o mesmo exemplo:suponha que no exemplo anterior todos estudam Alzheimer. O nível aqui é o mais alto, e todos podem entender as minúcias de um artigo publicado.
  • Defesas de teses e dissertações. Mesmo que seus amigos e familiares estejam presentes, sua audiência é a banca. Honestamente acredito que aqui valem sugestões semelhantes as do journal club e você pode detalhar o conteúdo da sua monografia.

Observe que eu deixei “aulas” de fora, pois nesse caso a abordagem é completamente diferente e bem mais complicada (e honestamente não sei nada sobre isso).

Pessoalmente, caso eu não saiba o tipo de audiência, faço um colóquio com os slides finais, mais ou menos 25% deles, um pouco mais detalhados, tendendo ao seminário. Até mesmo os especialistas gostam de ouvir e falar sobre coisas mais básicas. O sentimento de familiaridade é importante nesses casos.

  1. Não subestime sua audiência.

Falar sobre coisas familiares não significa falar sobre coisas triviais. Tente explicar ao leigo sem deixar o especialista entediado.

  1. Não superestime sua audiência.

Por outro lado, não assuma que todos assistindo saibam de todos os detalhes. Evite frases do tipo: “Não preciso explicar isso pra essa audiência”. Até nas coisas triviais, você pode dizer, “deixe eu lembrar vocês esse pequeno detalhe…” Pessoas novas na área podem achar esse tipo de informação interessante e pode ser que essa seja a única ideia relevante pra eles.

 

Sobre  você
  1. Seja simpático

Histórias fazem sucesso porque humanos gostam de ouvi-las. Use isso a seu favor. Não seja tópico: “Fizemos isso, e isso, e depois aquilo” tente algo como “Tentamos isso, mas percebemos que não era o mais apropriado pois… aí no final percebemos que aquilo era melhor por causa daquilo outro…”.

Tente ser uma pessoa simpática, sorria (não confunda com contar piadas e gargalhar, você não é animador de palco). Faça contado visual (mas não com uma única pessoa). Cuidado com a sua “apresentação”, postura e linguagem corporal (isso tem diversos significados e interpretações, deixo seu bom senso completar isso).

  1. Seja honesto.

Às vezes é meio tentador ler um artigo, ver algo interessante e achar que vai ficar legal se você adicionar esse pedaço de informação. Se alguém perguntar detalhes você vai saber responder? Caso sua resposta seja “não”, seja bonzinho consigo mesmo e controle sua tentação, ok? Por outro lado, nunca, jamais, em nenhuma circunstância tente responder algo que você não sabe. Não tente enrolar, pois as pessoas percebem de imediato.

  1. Não seja um babaca

 Nunca, jamais ultrapasse o tempo estabelecido.


Dois exemplos:

Pra não deixar pontas soltas, vou usar dois slides que preparei recentemente (e no final nem os usei pois preferi o quadro negro e giz =D).

  1. Nesse primeiro caso é um exemplo de um slide de introdução e motivação. Mas uma conclusão seria similar. Observe que eu tenho apenas uma mensagem: Estou explicando os motivos que nos levam a estudar esse conceito de “integrabilidade”. Embaixo tem quatro tópicos. Dá pra ler em menos de 5 segundos e o resto do tempo a audiência seria obrigada a prestar atenção no que tenho a falar sobre esses conceitos. Slide completamente minimalista, sem nenhuma marcação de página. Hoje faria o “why integrability?” com uma fonte menor, pois o destaque são os quatro tópicos abaixo.

Veja que eu poderia ter escrito um textão: “Estudamos integrabilidade pois ela é usada no contexto de blá-blá-blá etc e tal”. E ainda: “Nessa apresentação, vou focar em dois aspectos, teorias de campos e teoria de cordas”. Mas isso não é necessário, pois a cor vermelha em destaque deixa óbvio que essas duas ideias são mais importantes aqui.

  1. O segundo exemplo seria parte do corpo. Pense nessas equações como “figuras”. Esse slide tem duas imagens e pouquíssimo texto novamente.

“What became of integrability?” é o título da página. Muita gente teria colocado como a maior fonte, mas no meu caso a fonte é relativamente menor. Isso porque o título é apenas parte da organização da sua palestra, o principal e o que realmente merece destaque são as ideias, que nesse caso são as figuras. Sempre uso o fundo amarelo numa caixa pra denotar os títulos das páginas, mas isso é apenas uma marcação, encontre seu estilo. O verde é apenas a referência.

Observe também que as frases não estão completas. Escrevi: “algebra BMS(3) = estrutura de Poisson”, sendo que o melhor seria “a algebra BMS(3) será igual a estrutura de Poisson do modelo integrável correspondente”. Mesma coisa com Como esperado: Virasoro dá KdV…” onde o correto é “Como esperado, a algebra de Virasoro será equivalente a equação de KdV”. A mensagem aqui novamente é: evite que sua audiência se distraia com muita leitura. Tente ser objetivo. Toda a informação relevante será dada por você.

 


Algumas opiniões:
  • Quando possível, use quadro negro e giz. Em apresentações menos técnicas e defesas: recomendo slides. Em journal clubs: Use quadro negro. Dependendo do caso, uma mistura pode ser viável.
  • Caso escolha os slides. Evite muitos efeitos visuais, transições muito “chamativas”, textos que rodam, textos que aparecem aos poucos. Cuidado com as fontes, cores e coisas do tipo. Fontes mais profissionais (Arial, Times ou equivalentes) e cores mais escuras.
  • Imagens são muito úteis, mas cuidado ao inserir filmes e gifs. Caso seja muito importante (e muitas vezes são), use uma aba separada e abra no momento necessário.
  • Por falar em risco: recomendo salvar em PDF. Não existe nenhuma boa razão pra confiar cegamente no powerpoint, google slides ou keynote.
  • Muita gente vai recomendar usar slides com cores escuras. Já pensei sobre isso e já assisti palestras com slides com fundo preto. Em congressos e workshops recomendo fortemente usar fundo branco. Caso você seja convidado para um TED talks (parabéns), você pode usar o que quiser… tem moral suficiente pra isso.
Dicas adicionais para pessoas de exatas:
  • Sempre pense nas equações como figuras. Tentar entender as equações diretamente dos slides é um verdadeiro martírio. Por isso, não tente explicar.
  • Beamer é geralmente muito melhor que o powerpoint, google slides ou keynote, mas com alguns tweaks, esses últimos podem ficar muito mais funcionais que o beamer. O princípio que sigo hoje é o seguinte: uso o LaTeXiT (existe aplicativos semelhantes online) pra escrever todas as equações, e insiro diretamente no slide. No final, converto tudo pra pdf.

Espero que esse texto seja útil para que a sua (nossa) próxima palestra seja muito mais efetiva e divertida. Lembre-se que a comunicação é parte fundamental da carreira acadêmica: você precisará falar sobre seus trabalhos, suas pesquisas, fazer concursos e coisas do tipo, então é bem melhor que você faça isso com excelência. Toda apresentação é uma nova oportunidade de melhorar, aproveite e se divirta, pois é muito bom falar sobre coisas que gostamos.

 


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Leandro Lobo

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