Divulgando ciência: faça onde e quando puder

Esse texto foi escrito por Scarlathe Bezerra da Costa, mestranda na pós-graduação de Microbiologia (IMPG/UFRJ) e aluna do Laboratório de Biologia de Anaéróbios

Na última semana, mais precisamente no dia 15 de março de 2018, a revista Science, uma das revistas mais influentes da comunidade científica, divulgou um artigo que tem como título “Why I don’t use Instagram for science outreach”, em português, a tradução seria “Por que eu não uso o Instagram para divulgação científica”. Ao que parece, desta vez, a revista não teve a reposta positiva que costuma receber. E o que teria causado esse feedback negativo?

 

Entenda o caso:

A autora, Meghan Wright, escreveu o artigo discorrendo sobre o uso de redes sociais por pesquisadores para divulgar ciência. No caso o foco foi na plataforma Instagram, como ferramenta de divulgação científica. Para tanto, a autora criticou o uso desse meio por cientistas mulheres alegando que as mesmas estariam deixando de investir seu tempo na pesquisa para postar em mídias sociais, o que segundo ela, não leva sua carreira a lugar algum.

A autora acredita que perfis com esse propósito no Instagram, comandados por pesquisadoras mulheres, tem como objetivo diminuir a desigualdade de gênero e inferir confiança em jovens pesquisadoras, mostrando que elas podem usar maquiagem, roupas “da moda”, serem saudáveis e ainda assim fazer ciência. Mas, a mesma acredita que isso não acontece, para ela essas pesquisadoras estão mascarando a verdadeira ciência.

Ainda no mesmo artigo, Meghan, que é estudante de doutorado do Instituto de Biomateriais e Engenharia Biomédica na Universidade de Toronto (Canadá), cita o perfil Science Sam, que pertence a uma aluna de doutorado do mesmo campus que a autora. No texto, a autora se refere à aluna, Samantha Yammine (Science Sam), como sendo a superstar da comunicação científica da sua faculdade e que tem influenciado outros jovens a utilizarem da internet para esse propósito. A autora tem receio de que o tempo gasto com publicações no Instagram acabe aumentando o abismo nos direitos femininos, e que as pesquisadoras devem investir mais tempo na pesquisa para terem seus esforços reconhecidos da mesma forma que os homens.

 

Impopularidade da publicação
Ilustração: Robert Neubecker

Através das hashtags #scicomm, #womeninscience, #scientistwhoselfie e #strongertogether, cientistas têm demonstrado através de fotos, textos e vídeos o seu descontentamento com a publicação. Já de início, percebemos que a autora só se refere a pesquisadoras mulheres, como se a divulgação científica na internet fosse realizada apenas por essa parcela da população.

Errado! A cada dia mais e mais pesquisadores, sejam homens ou mulheres, buscam novas maneiras de levar a ciência para a comunidade em geral, não só para aqueles que possuem conhecimento científico. A inclusão científica vem se tornando mais importante a cada momento.

Em muitos países a ciência é negligenciada por autoridades governamentais e o que resta à comunidade científica é mostrar como ela é importante. E qual a melhor maneira de fazer isso além de mostrar que a ciência não é um bicho de sete cabeças? Divulgando a ciência de forma simples e em uma linguagem que seja compreensível a todos, aumentando a inclusão da população nesse mundo tão maravilhoso e tão mal interpretado.

 

Divulgando Ciência: faça onde e quando puder

No artigo, a autora compara as horas gastas por Samantha no seu perfil do Instagram com o tempo gasto por uma professora do seu departamento no desenvolvimento de um projeto voluntário que apresenta a engenharia biomédica às crianças de comunidades carentes, como se o tempo gasto no Science Sam não valesse o esforço. Mas, por que ambos os projetos não devem ser aplaudidos? Vivemos na era digital, onde o mundo todo se conecta em questões de segundos através da internet. O desenvolvimento de programas educativos em universidades é essencial, mas mostrar o dia-a-dia dentro de um laboratório de pesquisa pelos próprios estudantes através da internet ajuda a desmitificar a ciência.

Se a autora tivesse utilizado da sua oportunidade de publicar em uma revista de tamanho prestigio para levantar questões que realmente merecem atenção como a diferença de salários. Pois, por exemplo, nos EUA, mulheres com títulos de doutorado ganham cerca de 1/3 a menos que homens nas mesmas condições. São essas as questões que importam. A divulgação de ciência por mulheres, ou se elas estão sorrindo ou não em fotos tiradas durante um experimento não importa.

Mulheres e homens devem se unir para combater esse tipo de desigualdade, por isso é muito desestimulante quando uma pesquisadora denigre a imagem de outras da mesma profissão por estarem fazendo algo que beneficia a todos, e é ainda pior quando uma revista de tamanha influência, almejada por pesquisadores do mundo todo toma partido numa luta que não deveria existir.

Em resposta, a revista Science divulgou uma nota se desculpando pelo artigo de opinião e pela identificação do perfil Science Sam e que a intenção não foi estabelecer um ataque pessoal à pesquisadora.

 


Referências:

2018. Wright, M. Why I don’t use Instagram for Science outreach. Acesso em 16 de março, às 22:30.

2015. Ceci, S. J., Ginther, D. K., Kahn, S. e Williams, W. M. Do women earn less than men in STEM fields?  Acesso em 18 de março de 2018.

2016. Montanez, A.  The pay gap, visualized and analyzed. Acesso em 18 de março de 2018.

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Equipe Ciência Explica

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