Mulheres cientistas e o Nobel: a difícil trajetória das laureadas

Esse texto foi escrito por Carolina Paulino Pacini, mestranda na pós-graduação de Imunologia e Inflamação (IMPG/UFRJ) e aluna do Laboratório Integrado de Imunobiologia

Ao longo da história, o papel da mulher na ciência foi expressivo e as suas contribuições científicas se manifestaram nas mais diversas áreas do conhecimento. São muitos nomes importantes nas áreas de agronomia, astrologia, geologia, física, química e tecnologia, por exemplo. Na área da saúde, os avanços promovidos por mulheres nos campos da genética, fisiologia e farmacologia foram imprescindíveis para um maior entendimento sobre o corpo humano, assim como os estudos constantes sobre os microrganismos permitiram o desenvolvimento de novas terapias contra doenças infecciosas. Entretanto, dentre todas as 923 pessoas laureadas com um Prêmio Nobel desde sua criação até então, apenas 48 são mulheres.[1]

 

Marcadas na História, vamos relembrar, no Dia Internacional da Mulher, algumas dessas representantes na área científica?
Marie Curie e sua filha Irène Curie em seu laboratório, em Paris, França, 1921. Copyright © Association Curie Joliot-Curie. Fotógrafo desconhecido

Você com certeza já deve ter ouvido falar da brilhante cientista polonesa Marie Sklodowska Curie, que foi pioneira nos estudos sobre a teoria da radioatividade juntamente com seu marido, Pierre Curie, e descobriu dois novos elementos químicos: o polônio e o rádio. Marie Curie foi não somente a primeira mulher laureada com um Prêmio Nobel, como também a primeira pessoa a receber duas vezes o prêmio, sendo o Nobel de Física e o de Química em 1903 e 1911, respectivamente. A filha do casal, Irène Joliot-Curie, continuou os estudos na área e produziu o primeiro isótopo radioativo artificial, conquistando com isso o Nobel de Química de 1935[2]. A genialidade era de família!

Admiradora de Marie Curie, Rosalyn Yalow entrou na Universidade de Illinois, EUA, em 1941, sendo a única mulher entre 400 homens – acontecimento que ela atribuiu ao fato de muitos homens terem saído para lutar na Segunda Guerra Mundial. Sendo assim, teve de superar a discriminação da época para seguir sua paixão: a ciência. Após tirar nota A em um curso prático da pós-graduação de física nuclear, ouviu do diretor que isso “confirma que mulheres não servem para trabalhar em laboratório”. Sem se deixar abater, desenvolveu ao longo de sua carreira o Radioimunoensaio, método que consegue detectar baixíssimas quantidades de hormônios no sangue pelo uso de radioisótipos, o que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1977.[2]

Outra grande mulher que revolucionou a medicina foi Gertrude Elion. Trabalhando inicialmente com química orgânica, acabou se envolvendo com a microbiologia e a bioquímica dos compostos que sintetizava. Após ser rejeitada em 15 programas de pós-graduação pelo fato de ser mulher, aceitou ser assistente de laboratório mesmo sem remuneração, até conseguir se associar, anos depois, ao grande grupo farmacêutico Burroughs-Wellcome. Nos anos 50, ela participou do desenvolvimento de um método esquemático para produção de fármacos, o que a permitiu produzir drogas contra leucemia, gota, rejeição ao transplante e infecção por herpesvírus, como o aciclovir, usado até hoje como primeira escolha na terapia por ser um medicamento seguro e eficaz. Não foi pouca coisa não! Merecidamente foi laureada com o Prêmio Nobel de Medicina em 1988.[2]

Mais recentemente, a virologista francesa Françoise Barré-Sinoussi recebeu o Nobel de Medicina de 2008 pela descoberta do vírus da imunodeficiência humana, o HIV, com seu mentor Luc Montagnier, feita em 1983. Você sabia dessa? Nessa época estava ocorrendo a grande epidemia de AIDS, portanto conhecer o agente infeccioso foi de extrema importância para possibilitar um avanço no desenvolvimento de métodos terapêuticos para o combate à doença. Ainda na graduação, Françoise se interessou pelo mundo científico e procurou por estágio em muitos laboratórios, o que, segundo ela, foi difícil por ser uma mulher muito nova. Após meses de rejeição, finalmente foi admitida em um dos maiores centros de pesquisa do mundo, o Instituto Pasteur, na França, onde desenvolveu toda sua carreira.[3]

Prof. Ada Yonathin no Weizmann Institute, Israel.

O ano de 2009 foi marcante em relação à premiação de mulheres no mundo acadêmico: Elizabeth Blackburn e sua aluna de doutorado Carol Greider descobriram na década de 80 a enzima telomerase e como os telômeros protegem os cromossomos, o que lhes rendeu o Nobel de Medicina. No mesmo ano, Ada E. Yonath foi premiada com o Nobel de Química pelos seus estudos sobre o ribossomo por cristalografia de raio X, o que foi importante para os estudos em criação de antibióticos, sendo a primeira mulher do Oriente Médio a conseguir tal feito[2].

Outra mulher oriental notável é a farmacologista chinesa Youyou Tu, que focou seus estudos na medicina tradicional chinesa para combate à malária. O interessante é que com base em textos datados de mais de mil anos atrás, ela encontrou uma erva promissora dentre as 200 que seu grupo estudou e foi investigar o princípio ativo, tendo o desafio de aplicar os conhecimentos empíricos dos textos na prática com os recursos modernos científicos disponíveis na década de 70. Dessa forma, ela extraiu a artemisina, substância que inibe o parasita causador da malária e, com isso, salvou milhões de vidas ao redor do mundo. Por encontrar a cura dessa doença, Youyou Tu foi laureada com o Nobel de Medicina de 2015[5].

 

O caso Rosalind Franklin

Rosalind Franklin e cristalografia de raio-X do DNA. Fonte: Hackaday.com

É evidente que existem muitas outras mulheres que tiveram extrema importância para a ciência, mas que não necessariamente foram agraciadas com o Nobel – o que de forma alguma tira o mérito delas. Um exemplo clássico e impactante é de Rosalind Franklin, que foi muito injustiçada por não ter sua contribuição reconhecida nos estudos do modelo de dupla hélice da molécula de DNA. A história é a seguinte: em 1952, ela obteve imagens por raio-X muito boas da molécula e, assim, esteve muito perto de desvendar a estrutura. A questão era que ela escondia a imagem a sete chaves, uma vez que as mulheres eram completamente desvalorizadas no meio acadêmico naquela época: as alunas da King’s College não eram admitidas no restaurante e no salão de veteranos da faculdade. Porém, seu colega de laboratório Maurice Wilkins compartilhou a imagem, sem o conhecimento e permissão de Franklin, com uma dupla de pesquisadores competidores na corrida para resolução da estrutura, Watson e Crick. Com base no que eles já sabiam, essa foi uma ajuda significativa: imediatamente depois, eles publicaram na conceituada revista Nature a proposta para estrutura, hoje já consagrada, sem mencionar Franklin. Ela faleceu em 1958, vítima de câncer pela exposição excessiva aos raios X, e o Nobel de Medicina foi concedido para Wilkins, Watson e Crick em 1962, ano no qual a participação dela ainda não havia sido reconhecida. Em 2010, cartas trocadas na época entre Wilkins e Crick foram encontradas e comprovou que a descoberta dos cientistas só ocorreu devido aos estudos de Franklin, a quem eles desprezavam e humilhavam, inclusive, nessas cartas.[4]

 

Viu quantas histórias interessantes? Pena que não dá para falar de todas! Outras tantas mulheres lutaram para seguir seus sonhos, estudar e trabalhar como pesquisadoras nas mais diversas áreas acadêmicas. Independente de ter recebido ou não um Prêmio Nobel, todas são relevantes e devem ser sempre lembradas na História por suas contribuições que estão refletidas no nosso cotidiano. Assim, elas se tornam um exemplo e uma inspiração a todas as jovens cientistas, para que superem os desafios atuais e se encontrem no mundo da pesquisa!

 


Referências:

[1] Nobel Prize Awarded Women

[2] Eastern Illinois University. Biographies of Women in Science

[3] The Guardian. Françoise Barré-Sinoussi on the history and future of HIV research

[4] San Diego Supercomputer Center. Rosalind Elsie Franklin

[5] BBC. Nobel Prize winner Tu Youyou helped by ancient Chinese remedy

 

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Equipe Ciência Explica

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