Papo de Cientista com prof. Dr. Marco Miguel

No Papo de Cientista dessa semana tivemos uma conversa prazerosa com o professor Dr. Marco Miguel. Atualmente ele é responsável pelo Laboratório de Microbiologia de Alimentos no Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, UFRJ.

Conversamos sobre o começo de sua carreira acadêmica, sua atual linha de pesquisa, assim como as disciplinas que coordena no Instituto. Além disso, vimos um pouco da realidade de ser cientista no atual contexto que o Brasil se encontra e o “Lado B” do cientista Marco Miguel, que nutre uma grande paixão pela família, ciência e off-road.

Tenham uma boa leitura!

 

A Ciência Explica: Qual sua formação acadêmica e por que você decidiu seguir esse caminho?

Marco Miguel: De formação, sou biólogo. Me formei pela Universidade Gama Filho (UGF). E quando eu entrei na universidade eu via Jacques Cousteau, o Mundo animal e queria virar naturalista, né. E ai comecei a fazer faculdade e vi que a coisa não era bem por ali. Mas quando eu entrei em contato com a Microbiologia, fiquei apaixonado. Eu vi a coisa acontecer.

Eu nunca fui um CDF na vida e acho que foi o primeiro momento que me tornei um CDF, me tornei sedento por conhecimento. Percebi que eu estava atrasado e precisava, naquele ano, correr atrás de tudo porque eu tinha muita coisa para saber. E até aquele momento, eu nunca tinha experimentado isso. Eu tinha a paixão. A paixão pela biologia, como eu tenho até hoje, mas eu nunca tive a paixão por um conhecimento específico, como tenho pela microbiologia.

 

ACE: E como você chegou aqui na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)?

MM: Então, na Gama Filho, eu já tinha feito estágio de botânica, de zoologia, de genética. Ai quando chegou no último ano eu fui fazer estágio em microbiologia de alimentos. Lá tinha um centro de pesquisas. E o professor que era da área de alimentos, o [João] Tórtora, falou “tem vaga de estagiário”. E aí fui eu, o Alexandre Rosado, que é professor da UFRJ também, e outros 2 colegas de turma. E no centro de pesquisas tinham pessoas que eram professores da Universidade Gama Filho mas faziam mestrado na UFRJ. Uma delas falou, “olha, no laboratório da UFRJ apareceu uma vaga”, ai eu falei, “opa, eu quero ir”. Acabou que passei para vaga de Aperfeiçoamento Científico e comecei a trabalhar com algo que eu já trabalhava na Universidade Gama Filho. Então, por sorte, eu era a ferramenta perfeita para a tese que já estava em andamento. Foi um casamento perfeito porque eu continuei trabalhando com Clostridium, camundongos e inóculos de animais.

Como eu já estava com aquele perfil de querer saber tudo, eu acho que foi a minha grande descoberta como profissional, quando você tem o conhecimento que sabe fazer e você quer aprender. Acho que foi uma grande mudança na minha vida. E aí eu comecei o estágio aqui, emendou no mestrado e a coisa foi andando.

 

ACE:  Bom, a gente sabe que você teve uma passagem pela indústria antes de virar professor da UFRJ, certo?

MM: É, não foi indústria, foi laboratório clínico. Quer dizer, eu fui professor da Gama Filho e, ao mesmo tempo, a pessoa que eu ajudei a finalizar a tese no meu Aperfeiçoamento Científico foi chamada para ir para um laboratório clínico. Como eu tinha muito essa mão de bacteriologista, ela me chamou para ajudar.

Aí ela saiu desse laboratório e eu acabei ganhando a chefia desse laboratório de análises clínicas. E lá eu fiquei por 13 anos. Foi bastante enriquecedor. É quando você vê as coisas acontecerem. Eu ainda estava em formação – doutorado. E vindo de um departamento de microbiologia médica e indo para um laboratório clínico, vi tudo aquilo que se falava e agora estava indo para bancada. É uma experiência muito legal.

 

ACE: Hoje você é o pesquisador responsável pelo Laboratório de Microbiologia de Alimentos. O que te motivou a voltar para a área acadêmica?

MM: A área acadêmica para mim sempre foi  a coisa mais importante. Lembro que a primeira vez que entrei na universidade, a primeira vez que eu vim aqui ver esse meu estágio, eu parecia uma criança entrando em um circo: para mim os professores daqui eram pessoas com 3 metros de altura, com uma cabeça enorme. Eram pessoas super especiais. Eu pensava, “nossa, eu vou ver um professor da UFRJ”. O sonho de fazer parte desse circo jamais passou.

No inicio do doutorado, eu fui dar aula na Gama Filho e era legal, mas o sonho sempre foi estar na UFRJ. Só que era uma coisa tão monstruosa, um tempo tão difícil de concurso que eu tinha quase um sonho mesmo, porque pensava que eu não tinha condições de atingir. Mas jamais deixei de sonhar com a UFRJ.

No dia que apareceu a oportunidade, eu ainda não estava preparado. Então, mais uma vez, foi uma sorte absurda porque quando abriu o concurso para doutor, eu era mestre só e não tinha nem terminado o doutorado. Só que, por sorte, ninguém foi aprovado, aí o critério diminuiu para mestre e eu fui aprovado frente a doutores. Mas é uma coisa cármica, esse laboratório se chama Laboratório de Microbiologia de Alimentos (MAL), meu nome é Marco Antônio Lemos (MAL).

Então eu não tenho que brigar, é uma coisa fantástica, é um caminho que, cada dia que eu entro nesse laboratório é exatamente igual ao primeiro dia que eu vim aqui. Cada dia que eu chego aqui, eu sento na posição de um professor, só que com a cabeça de um aluno, porque isso que é fantástico, isso que é maravilhoso. Eu posso sentar, ter uma ideia, por em ação, formar uma pessoa… É muito legal, muito interessante.

 

ACE: Fale um pouco mais sobre o Laboratório de Microbiologia de Alimentos. Quais são as atuas linhas de pesquisa?

MM: Aqui nós temos várias linhas de pesquisas, uma delas é de bactérias lácticas. Meu maior prazer é aplicar o conhecimento. Então, desenvolver produtos é bem interessante, para mim. Nós temos produtos de base vegetal fermentados, para suprir a necessidade das pessoas que têm alergia a produtos lácteos.

Temos estudos de alimentos funcionais, como kefir, onde tentamos extrair os microrganismos dali e aproveitar o potencial probiótico desses microrganismos, desenvolvendo produtos com esses microrganismos que já são conhecidos por ter uma atividade boa. Isso para gente é uma coisa importante; Temos o desenvolvimento de outros alimentos funcionais, como café. Agora em parceria com o pessoal da nutrição, vendo os efeitos do café na microbiota ou em alguns microrganismos que fazem parte da microbiota.

E o que eu acho mais importante é buscar fragilidade na cadeia de produção de alimentos. A cadeia de produção de alimentos tem hoje vários vícios, várias fraquezas. Um exemplo que eu dou sempre é daqueles alimentos que você coloca na boca: uma lata de refrigerante que você compra na maquina, um doce que você tem que colocar a embalagem na boca. Bom, esses alimentos só tem legislação para parte de dentro, para a parte que você coloca na boca não se tem legislação para isso e as pessoas não se preocupam tanto. Então, nosso objetivo é fazer um estudo que comprove esse risco e difundir essa informação.

 

ACE: Nós sabemos que você tem uma banda de rock, é faixa preta de judô, faz off-road aos finais de semana e ainda fez consultoria para o programa “Santa Ajuda”, da GNT. Como você consegue conciliar isso tudo com o mundo acadêmico?

MM: É curioso. A coisa mais importante é a doutrina. Eu acho que eu valorizo muito o estilo de vida que eu quero seguir. Se você estabelece seus objetivos de vida, as suas metas, tem que correr atrás delas. Se eu chegar no meio do caminho e achar que tenho que rever minhas metas, legal, aí eu revejo. Agora, eu sou contra você virar escravo de determinados objetivos que as vezes você não quer, simplesmente por vaidade. Então, se você estabelece que você gostaria de ocupar esse papel na comunidade cientifica, na carreira acadêmica, contribua assim. Agora você tentar atingir uma meta inatingível, você nunca estará feliz.

Então, se meu botão de profissional for até aqui, o meu botão de saúde vai até aqui, o meu botão de família, pai vai até aqui, o meu botão de judoca vai até aqui e por ai você vai regulando esses botões. De vez enquanto eu pego o botão de judoca e jogo lá embaixo, zero ele, aí eu aumento o de trabalho, o de pai tem que estar sempre no máximo, o de marido tem que estar sempre perto do máximo ou no máximo e o resto eu vou regulando. Então, assim, tem que ter o equilíbrio de estar todos no máximo, mas que não distorça a vida.

Eu acho que a nossa profissão tem um risco muito grande: ou é o vício no trabalho ou é a dependência de índices para o trabalho. Esses riscos acabam fazendo com que alguns desses botões, que deveriam estar quase no máximo, sejam desligados. Isso eu não acho saudável. Se tudo estiver muito bem equilibrado, quando você estiver cansado de algum, você abaixa um pouquinho ele, aumenta o outro, aí você vai continuar com o mesmo nível de prazer na vida, sem ter comprometido tudo.

Importante é ouvir a vida para saber se esse volume está te agradando. É uma combinação muito delicada, que as vezes você não consegue fazer isso, mas acho que esse é o grande desafio da minha vida. Passa muito rápido, precisamos ficar sempre de olho nesses botões.

 

ACE: Atualmente você é professor associado do Instituto de Microbiologia. Quais são as disciplinas que você coordena no Instituto?

MM: As disciplinas são principalmente duas coordenadas por mim. Uma é a Microbiologia de Alimentos, que é minha área principal, que eu tenho um prazer enorme e dou essa matéria para o Bacharelado em Microbiologia e Imunologia. A outra disciplina, eu tenho até vergonha de falar, mas o prazer dela passou a ser maior que a própria disciplina de alimentos, que é a disciplina de Integração Empresa-Escola (IEE), porque é uma disciplina que ensina, mostra o mercado de trabalho pro aluno e prepara o aluno pro mercado de trabalho.

O impacto na vida do aluno é muito maior do que na matéria de alimentos. Alimentos é só mais uma disciplina, que é dada com carinho. Já IEE aumenta a confiança do aluno. Agora o aluno sabe que em uma seleção profissional, ele é mais capacitado do que muitas das pessoas que estarão ali. A disciplina muda a visão dos alunos sobre o próprio potencial, ele já vai sem medo para esses processos de seleção, porque ele já passou por isso em aula. Então, essa disciplina ficou muito mais importante do que a própria disciplina de Microbiologia de Alimentos porque alimentos não é a área de alguns, mas o trabalho é área de todos.

Os alunos fazem visitas, recebem palestras de ex-alunos que estão no mercado de trabalho, veem esses alunos voltando e falando com orgulho: “agora eu sou isso”, eles aprendem a fazer currículo, aprendem a procurar vagas, aprendem a se comportar em uma entrevista de emprego, aprendem a dinâmica da entrevista e no final eles crescem muito mais do que na disciplina de alimentos. E aí esse cara sai elogiando a disciplina e isso é um prazer. Então, essas duas disciplinas são as minhas porém hoje, IEE é meu xodó.

 

ACE: Qual artigo, publicado pelo seu grupo de pesquisa, você considera de maior impacto no mundo acadêmico?

MM: Tem dois artigos que eu gosto muito, um foi o da minha tese de doutorado, onde eu mostrei que uma substância antimicrobiana era ativa contra enterococos resistentes a vancomicina. No momento em que o mundo estava pensando em superbactérias, você soltar esse estudo, você se sente quase um [Alexander] Fleming no momento que a coisa está tão feia, sabe? Eu mostrei alguma coisa que ninguém tinha mostrado ainda. Esse foi um trabalho que eu tenho muito carinho. É um trabalho simples mas essa informação básica para mim foi muito legal. O trabalho foi aceito para publicação na mesma hora. No momento ele está sendo reavaliado, o Felipe Miceli (aluno de mestrado do laboratório) está reinventando essa substância.

O outro trabalho que nós publicamos aqui foi o desenvolvimento de uma ova de peixe artificial. Era uma substância que parece fisicamente com uma ova de peixe, aquela laranja, ela tem sabor, cor e cheiro de uma ova de peixe, mas por dentro ela contem bactérias probióticas. A ideia era: você jogava aquilo na comida e ao mesmo tempo que você comia uma comida crua, você estava tomando um probiótico para te proteger. Foi muito interessante porque eu recebi propostas do exterior, de transformar isso em produto. Só que a dinâmica é muito complicada. Se já não temos tempo para fazer as coisas daqui, imagina você fazer uma coisa dessas, com um grupo do exterior. Apesar disso, foi um trabalho super prazeroso, muito legal.

 

ACE: Se você pudesse escolher qualquer pesquisador do mundo, com quem você faria parceria?

MM: Um grande parceiro e amigo meu é um pesquisador da COPPE/UFRJ, Marcelo Werneck. Nós já publicamos vários artigos de peso. Eu admiro muito e aprendi muito com ele. A nossa parceria vem acontecendo há  13, 14 anos. Hoje temos menos parcerias porque, eu particularmente, estou sem tempo. Mas eu aprendi muito com ele, é o parceiro perfeito, porque aí vamos voltar para aquela historia que eu falei sobre a vida. O primeiro contato que o Werneck teve comigo foi por conta de uma aluna dele que estava avaliando um equipamento para limpeza da água por UV. Eu trabalhava com análise de água e ela me achou no banco de dados. Ela me perguntou se eu aceitaria essa possibilidade e se podia levar o orientador dela para conversar comigo. Eu aceitei. Ai chegou ele no dia seguinte. Nós ficamos uma hora falando de montanhas, escaladas, off-road, ficamos conversando. Depois disso nós lembramos que tínhamos que conversar do assunto do trabalho.

Resumindo: nossas famílias viraram amigas, nós viajamos para várias partes do mundo juntos e viajamos até hoje para escalar e acampar. No meio de tudo isso nós desenvolvemos projetos. Você discutir um projeto no topo de uma montanha não tem preço. Eu não teria curiosidade de fazer parceria com ninguém, ele é o parceiro perfeito, temos nossas diferenças, mas compartilhamos algumas coisas. Hoje nós trabalhamos menos juntos, porque eu consegui montar uma estrutura lá na COPPE, alunos da Microbiologia ficam lá e meio que já supre o que eu poderia fazer. Então hoje a nossa viagem é: “Marcelo, tive essa ideia” aí a gente monta e tentamos arrumar dinheiro para esse projeto.

Então não consigo ver na minha vida uma parceria tão legal quanto “cara a gente precisa subir em Itatiaia para pensar em alguma coisa”, aí pegamos os filhos, subimos e lá a coisa vai ser muito mais legal.

 

ACE: Estamos passando por um momento de cortes gerias, sendo o financiamento da ciência o mais prejudicado. Qual impacto que esse corte gera nas pesquisas do laboratório e nas disciplinas?

MM: É muito difícil você falar da situação atual porque ninguém sabe a verdade que está por trás disso. É um momento delicado. Se essa falta de dinheiro for uma verdade, é importante fazer cortes em várias áreas e o cidadão entende que prioridade é saúde e segurança. Só que existem várias verdades por trás disso. É muito difícil você falar: “vou engolir isso porque realmente tinha que fazer o corte”, falar qualquer coisa seria leviano.

O que isso mudou? Nossos recursos aqui quase que acabaram, mas por sorte tínhamos uma reserva: um pouquinho de dinheiro e uma quantidade razoável de material. Nós vamos sobrevivendo, fazendo a pesquisa mais barata possível, fazendo parcerias, cada um oferece o que tem nessa parceria e buscando projetos que você consiga executar com os recursos que tem. Então hoje basicamente é isso que está acontecendo: quase todos estão sem dinheiro e cada um oferece o que tem. Agora é um momento de união mesmo, todo mundo junta os braços e até que a coisa melhore vai ter que ser assim.

Em relação às disciplinas a coisa não mudou muito. Felizmente a universidade tem o transporte e esse setor, pelo menos até hoje, não foi afetado para a gente. Então, o que eu preciso para disciplina é um ônibus e isso a universidade, depois que foi implantado esse sistema de transporte, não me recusou. Eu peço o transporte quantas vezes eu precisar, claro que não faço visitas sem sentido, busco visitas mais próximas. Então até agora não sofremos nenhum impacto nisso.

O maior problema é dentro do laboratório. Falar que eu tiro dinheiro do meu bolso para botar coisa no laboratório, isso aí todo mundo faz, então não é nenhuma novidade. Agora, a compra pesada tem que ensinar o aluno a economizar no produto. Hoje nós buscamos parcerias com algumas indústrias porque nós precisamos de material e muitas coisas eles jogam fora, aí essas industrias doam esses materiais para nós. Volta e meia eles perguntam se tenho algum aluno bom para mandar para lá. Então essa parceria já está super instalada e é uma parceria que funciona.


Espero que tenham gostado dessa viagem que fizemos pela carreira e vida do professor e pesquisador Marco Miguel. Futuramente iremos fazer mais entrevistas nesse formato com diversos pesquisadores.

Por fim, gostaria de agradecer ao professor por disponibilizar um horário para nos receber. E agradecer também à nossa colaboradora, Giovanna Lopes, por nos ajudar na transcrição do áudio da entrevista.

Até o próximo Papo de Cientista entrevista!

Você também poderá gostar:

comentários

About Sidcley Lyra

Formado em Ciências Biológicas: Microbiologia e Imunologia pela UFRJ no ano de 2017. Tenho experiência na área de Microbiologia, com ênfase em Microbiologia Ambiental. Além dos estudos que resultou no TCC, participei de alguns projetos de popularização da ciência, como o Cineclube Biofilme e o Ciência em Jogo.

View all posts by Sidcley Lyra →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *